Leia as Histórias

Categoria - Paisagens e lugares Praça Marechal Deodoro, revisitada Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 23/11/2007

Tenho várias lembranças da Praça Marechal Deodoro, em diversas épocas. Mas nenhuma de períodos mais recentes, quando ela virou um ocasional lugar de passagem.
Nem sempre foi assim. Vejo-a como um ponto central, o coração da difusa região, uma colcha de retalhos de Santa Cecília, Higienópolis, Barra Funda e até Perdizes.
Ali, no seu complexo monumento ao Marechal, morre a Av. São João. Vem-me um conjunto de flashes desconexos, diurnos e noturnos dali. Não saberia encaixá-los todos, como um quebra-cabeças.
Só me resta focalizá-los como numa lanterna mágica: surgem durante um instante, da escuridão e lentamente se apagam.
Pois foi justamente algo assim que vi certa vez num daqueles quarteirões, quase na esquina da Albuquerque Lins, no lado Barra Funda da Praça. Num terreno estreito e escuro, abrigando alguns jogos e diversões. Não lembro dos outros, mas certamente de um aparelho, aparentado com a primitiva lanterna mágica. Um kinescópio, talvez?
Um cilindro vertical, ancorado no chão: punha-se uma moeda e olhando-se pelo visor, uma cena, um pequeno filme em preto e branco, animava-se lá dentro. Coisa que mais parecia ligada não ao século passado, mas ao retrasado, tempo dos irmãos Lumiére.
Na esquina da Albuquerque, a Padaria Palmeiras. Existe até hoje, mas não sei se fazem as maravilhosas empadinhas de palmito com que íamos nos deliciar.
Na esquina oposta, uma pequena drogaria, ou perfumaria, tendo na vitrine uma miniatura da Vênus de Milo, exibia na parede a parábola ilustrada dos dois burrinhos, que puxando em direções opostas, não conseguiam mover a carroça do lugar, até que unem seus esforços...
Passemos á praça. Outra estátua, bem mais simpática, entre as árvores e bancos, depois da Av. Angélica: um índio, numa prova de força com um tamanduá. A praça era muito tranqüila e agradável, mesmo à noite.
Encarando a lateral do tamanduá, o confortável Cine Plaza, a que fui umas poucas vezes.
À noite, entra um cordão de Carnaval: o povo apinhado nas calçadas e lá vem o bloco, com seus truculentos abre alas. Ô abre alas, que eu quero passar!
Junto às paredes, bancas vendiam confete, serpentina e grotescas máscaras de papel machê, com fálicos narigões.
Mais abaixo, todo domingo tinha espetáculo no Circo Piolim.
Lá vinha ele, imenso colarinho branco sobre o fraque, nariz de bola e um bengalão. Estava sempre em conflito com o autoritário Tony, o palhaço branco, símbolo do poder e da disciplina.
Certa vez, numa pantomima, Piolim “morria”, para reaparecer como um fantasma, sob um lençol branco. Confesso que fiquei apavorado!
Numa outra época, o lugar do circo é agora um descampado. Na sua orla, esquina com Lopes de Oliveira, uma grande loja de plantas e vasos.
Na quadra anterior, uma loja expunha suas Mercedes Benz, e eu já as admirava por suas linhas sóbrias e elegantes, ao contrário dos espalhafatosos carros americanos.
Por ali ficava a Pizzaria Solar, em que fizemos nossa modesta despedida do colegial.
E a Casa Whisky? Como pudemos deixá-la de lado? Falha nossa, mas
não sei porque, jamais provei seus famosos sorvetes.
A praça se afunila, está chegando a seu final. Logo à esquerda, quase no final da Gabriel dos Santos, ficava o Colégio de Aplicação, onde estudei. Hoje é outro estabelecimento de ensino, mas a estrutura é idêntica.
Pegado a ele, ficava o magnífico Cine Santa Cecília, que resistiu
até o início dos anos sessenta. A Av. Olímpio da Silveira segue, em largas passadas, direção à Àgua Branca. Um Minhocão passou por cima de todas essas lembranças, e a praça nunca mais seria a mesma. E nem a cidade.

e-mail do autor: saidenberg@ajato.com.br

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 22/10/2009 Nossa Luiz, você me fez voltar à minha infância, quando a gente sentava no gramado do belíssimo jardim que havia na praça e tirava fotografia com laço de fita na cabeça!!!!! Enviado por Ana Lucia Simões Salgado Treccalli - anatreccalli@uol.com.br
Publicado em 09/02/2009 LEMBRO ME, DO CINE ESMERALDA, CINE PLAZA, Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 07/08/2008 Caro Saidenberg, é sempre um prazer percorrer seus textos. Você, talvez, nem imagine as viagens que nos proporciona ao relebrar e descrever contextos da nossa São Paulo de alguns anos atrás.
Obrigado, meu amigo, muito obrigado.
Enviado por Glauco Arruda Barlebem - barlebem@gmail.com
Publicado em 25/03/2008 Meu caro Saidenberg,talvez por um lapso de memória você não mencionou a tradicional doceira "Dominique" entre a Angélica e Albuquerque Lins,na própria Marechal,reduto dos namorados da época e eu me incluo recordando de Varlice,minha doce namorada.Onde andará?... Enviado por Jeronimo Gulin Filho - jeronimo_gulin@ig.com.br
Publicado em 28/11/2007 Como eu sempre morei em Santa Cecília, seu texto me fez lembrar de muitas coisas. Maravilha!
Um abraço
Enviado por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com
Publicado em 24/11/2007 Luís, feliz lembrança! No final da década de 50, levava meu priminho (hoje PHD mais de dez vezes)
para ver o indinho sempre que ele vinha de Piracicaba. Era passeio obrigatório, além do Parque da Água Branca! Quando você mencionou Padaria Palmeiras, automaticamente associei Tapeçaria Donatelli ( a primeira loja ), pois era nela que se reuniam todos os primos e amigos, nossos contemporâneos, dos Donatelli. Como o patriarca ficara viúvo e tornara a casar, indo morar na Lapa, os filhos do primeiro casamento (Wadinho e
Marlene) moravam com a avó num prédio já antigo para a época na Praça. Portanto as meninas eram recebidas pela Marlene e sua avó em casa e os rapazes iam pra padaria. Lembrei-me também de uma loja de aviamentos que tinha em papel de embrulho já descorado, do lado de dentro da vitrine o seguinte manuscrito: " Sr.Ladrão : não adianta entrar,levei todo o dinheiro pra casa ",eis que um dia colocaram, ao lado do aviso,porém do lado de fora " estou te esperando em casa. Ladrão ".
Enviado por mirça bludeni de Pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 23/11/2007 Ô abre alas, que eu quero passar!Allah-la-o,mulata yêyêyê, cabeleira do Zezé,Daqui não saio, a Jardineira, Mamãe eu quero, o teu cabelo não nega, indio quer apito, me dá um dinheiro ai, saca-rolha,Ta-hi...entre outros Lamartine Babo em cd Hinos dos campeões: São Paulo, Santos, Palmeiras Corinthians, etc...Abraços Irmão. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 23/11/2007 Saidenberg, nostálgicos fragmentos de uma memória excepcional, sobre a famosa praça. Além do talento descritivo, você sabe, como poucos, dar um colorido nas recordações. Parabens.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 22/11/2007 E o minhocão passau por cima......, SAIDENBERG só nos resta saudades e felizmente estamos aqui nós para contar essas belas historias veridicas.PIOLIM e PIOLIM, não da para fazer um livro mas milhares deles, PARABENS PELA LEMBRANÇA. Enviado por ALCEU MENDES - alceumendes@uol.com.br
Publicado em 22/11/2007 ali na PRAÇA MARECHAL DEODORO,QUANDO EU ÉRA AUDITOR EU VISITAVA UM CLIENTE FAMOSO " MALHARIA CAMPOS DO JORDÃO" FICAVA AO LADO DA TV. GLOBO-E BEM ANTES ALI NA ALBUQUERQUE LINS-MOROU O ROBERTO CARLOS NA ÉPOCA DA J. GUARDA Enviado por rubens rosa - RROSA49@YAHOO.COM.BR
« Anterior 1 2 Próxima »