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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas 1958: uma Vila Galvão da minha infância Autor(a): Lúcio Kume - Conheça esse autor
História publicada em 10/02/2008
Que ninguém se engane, o brusco sacolejar era desconfortável; trazia uma insegurança. Mas lá fora, para além das janelas abertas, surgia o momento tão aguardado. Era quando o trem atravessava, triunfante, o pontilhão sobre o Rio Cabuçu e tomava o rumo da Estação Vila Galvão. Assim do alto, o vagão aos solavancos e lá em baixo o rio em seu leito de pedras — meus olhos gulosos viam crescer um leve frio na barriga; sentia a força e o peso do aço das rodas rangendo a estreita ponte que resistia bravamente. Era uma experiência e tanto, marcante para mim, criança naquele instante: diante dela, sentia uma estranha sensação de medo, fascínio e contraditória satisfação.
E foram várias as viagens feitas no outrora Trem da Cantareira (ramal Guarulhos) que funcionou até meados de 1965. O trem ao partir da Estação Jaçanã, percorria praticamente em linha reta (atualmente é a Rua Abílio Pedro Ramos) até a estação seguinte da Vila Galvão. Ao transpor o viaduto da Rodovia Fernão Dias (então em construção), os vagões passavam muito rente às várias pilastras de sustentação. Em diversas situações de superlotação, estas pilastras foram causadoras de muitos acidentes, às vezes fatais. A presença, no local, de cruzes e velas derretidas compôs uma imagem de dor e ameaça que impregnou a minha memória infantil por muitos anos.
Sem dúvida, a passagem sobre o rio era o clímax das minhas atenções e se completava na chegada à estação. É que este pequeno trecho, entre o viaduto e a estação, a cascalhada via férrea se estendia plana, numa rampa elevada; não acompanhava o pequeno declive que havia (e ainda há) na divisa entre os municípios. De um lado a Vila Nilo, de outro, a Vila Galvão e o Rio Cabuçu a sinalizar a fronteira dos municípios de São Paulo e Guarulhos. Neste sentido, a rampa da via férrea cindia o bairro e duas acanhadas passagens permitiam o fluxo de carros e pessoas entre os dois lados. No entanto, era deslumbrante assistir, do plano da rua, a chegada ou a saída das composições por esta passarela. Sobretudo, a inesquecível silhueta noturna dos trens em movimento, puxados por locomotivas a vapor ou diesel e seus grandes faróis a iluminar feérico as noites nevoentas daquele tempo.
Os trens, ao deixar para trás a Estação Vila Galvão no sentido Guarulhos, faziam uma conversão à direita — os trilhos já dispostos no mesmo nível da rua e uma cancela no início da Rua Treze de Maio — e se dirigiam à estação próxima, Torres Tibagi, evitando a região acidentada de morros do bairro Picanço. Anos mais tarde, pós-desativação ferroviária, toda a via elevada foi demolida, as ruas que a margeavam alargadas e uma praça (a atual Santos Dumont) foi construída no local da antiga estação.

O bairro e arredores
Rua Onze de Junho era o nome (hoje, Francisco Pereira), uma rua de chão batido onde morei por quatro anos, de 1955 a 1958. Ela ficava paralela à atual Dona Eugênia Machado da Silva, a rua do extinto Cine Jade. As duas ruas tinham o seu início na Avenida Sete de Setembro, de frente à estação ferroviária; possuíam pontes de madeira sobre o Rio Cabuçu e terminavam na Fernão Dias. E eu morava a duas quadras e meia da Estação Vila Galvão, aliás, ao redor dela cresceu o pequeno núcleo comercial: tinha a padaria, o cinema, bazar, bares e oficina mecânica. Toda a topografia plana dessa área do bairro (uma extensão da várzea do Cabuçu) favorecia a existência de improvisados campinhos nos terrenos baldios das redondezas e o bate-bola corria solto junto à garotada.
Subindo algumas quadras acima, chegávamos à Praça Cícero Miranda e ao Parque Balneário Vila Galvão, cujo epicentro girava em torno de um lago (hoje também chamado de Lago dos Patos) formado pelo represamento do Córrego Jacinto. Desde aquele tempo, era um aprazível local propício a passeios e piqueniques. Havia na sua vizinhança, um pequeno estádio de futebol, e quase em frente, o Liceu Brasil todo cercado de eucaliptos. Ao lado da escola, mais abaixo, ficava a garagem dos ônibus da Viação Nefer. Mais acima, de frente ao lago (Rua Francisco Gonzaga Vasconcelos), havia alguns casarões (poucos) que ficavam quase ocultos sob densa vegetação de plantas e árvores. E em todo o lado oposto, sob um outeiro, se descortinavam as casas recentes da Rua Santo Antônio; e elas desfrutavam de toda essa bucólica paisagem.
Nesta época (1957-58), a pouco habitada Vila Rosália (situada nos altos de um morro e próxima ao Parque) estava em processo de arruamento e, ao mesmo tempo, sendo asfaltada. Se bem me lembro, era ali, junto a seus descampados, o local onde ocorriam saltos de pára-quedas. O grande alvo, sinalizando o ponto de descida, ficava num desses terrenos ainda vazios, sem nenhuma fiação elétrica (eram as duas primeiras quadras da atual Rua Pirapozinho, esquina com a Avenida São Luís). Mirávamos o céu e, de tempos em tempos, os pára-quedistas saltavam de pequenos aviões. Uma legião de curiosos acompanhava esses exercícios ou essa forma de competição.

Cabuçu: o rio e a estrada
No alto verão, chuvoso e de cheias, o rio descia barrento, pesado e caudaloso. O matagal próximo às suas margens vivia tingido de barro e era muito comum encontrarmos muitos sapos nas imediações. Ao evocar o Cabuçu, o velho rio da abertura deste relato, estabeleço uma conexão direta com os bons tempos do jardim-de-infância e 1º ano do curso primário (fui da turma da dona Iria em 1958). Tinha sete anos incompletos. A escola pública (1) onde estudei era de madeira e seu pátio sem cobertura terminava junto às margens do rio em uma espécie de prainha de terra batida. Na outra margem avistávamos um taquaral cheio de mato e, vez por outra, pássaros gorjeavam de lá. Treze anos mais tarde, em 1971 e em anos subseqüentes, presenciei as grandes inundações do Cabuçu lançando lama e sujeira pelas ruas já asfaltadas do bairro.
A outra grata lembrança desses anos eram os passeios que fazíamos de bicicleta pela antiga Estrada do Cabuçu. O nosso destino, o Mairiporã. De terra batida, o trajeto do Cabuçu incluía pequenas localidades rurais denominadas Doze, Quatorze etc; numa alusão abreviada aos km 12, 14 e por aí afora. E pelo caminho, muitas hortas e suas plantações. Eram chácaras e sítios, algumas granjas e até fazendas. A Vila Galvão deste tempo reunia um perfil peculiar: pouco urbanizada, persistiam nela fortes traços rurais e também um lado de estância climática. Sem alarde, algumas residências tinham um jeitão de casas de veraneio. Seria devido à proximidade do Parque da Vila Galvão e da Serra da Cantareira?

Os anos da construção da Rodovia Fernão Dias (2)
A respeito do início das obras não tenho qualquer lembrança; apenas me recordo que o Viaduto Vila Galvâo (sobre a linha do trem) já estava de pé. Os morros da Serra da Cantareira eram muito próximos ao bairro e estavam sendo rasgados para a construção da rodovia. Quando as grandes máquinas de terraplenagem cortavam os morros, por questão de segurança, não se permitia brincar nas cercanias, mas após sua passagem, lá estávamos todos, primos e vizinhos, a rolar por aqueles barrancos atapetados de terra macia a perder de vista. Num desses dias do verão de 1958, encontramos várias tubulações (algumas de concreto, outras de metal) que estavam espalhadas pelo canteiro de obras e, prontamente, incorporamos ao cenário de nossas brincadeiras. De repente, ao empurrarmos uma dessas tubulações houve um encontro inusitado: uma grande serpente surgira instalando o medo e a histeria ao bando de assustadas crianças. Pouco mais tarde, uma outra também dera as caras, novo susto, correria e um ajuntamento maior de pessoas: nada poderia deter o inevitável e, claro, elas foram abatidas a pedradas. Era evidente; a destruição do seu habitat favorecia essas ocorrências. Quando a Fernão Dias foi inaugurada (no decorrer de 1959, creio eu) já morava na vizinha Jaçanã. Mesmo assim, invariavelmente, nas férias ou em alguns fins de semana até o ano de 1961, sempre estávamos por lá a escalar aquelas encostas.

As casinhas dos morros da Fernão Dias (a atual Vila Nova Galvão)
Eram poucas, esparsas, as casas perdidas dispostas ao longo dos morros da Serra da Cantareira. Ao anoitecer, sem falta estavam lá, como estrelas penduradas na escuridão. Eram pontos de luz que surgiam; um sinal de vida ante os olhos distraídos. Para mim, eram as pequenas luzes desoladas, e foram assim que se fixaram em minha memória. Com o passar dos anos, muitas outras casas surgiram e um novo bairro se formou; mas ao contemplá-las à noite, lembro sempre das minhas impressões de menino.
Uma destas casinhas (recordo apenas da história, dita pelos mais velhos) tinha lá as suas excentricidades: nela morava um casal de pintores e sua impressionante coleção de cactos. Anos mais tarde, essa antiga história ouvida na infância ganharia sentido, pelo menos para mim. Soube que o pintor surrealista Walter Levy (1905-1995) e sua esposa moraram no bairro e a construção da rodovia obrigou-os a mudar. No final dos anos 1960, suas pinturas ficaram célebres — eram paisagens oníricas com rochedos flutuantes (na tradição “d’après Dali”) que se tornaram marca registrada de sua obra.

Chuvoso dia dezenove
Por fim, encerro aqui as recordações do recanto perdido da minha infância: — um momento de respirar fundo... A minha Vila Galvão de cinqüenta anos atrás: um fato irreversível; faça chuva ou faça sol, as dobras do tempo espreitam as nossas vidas. Ainda assim, o que esperar do largo véu poroso que é a memória de todos nós? Elas são como raízes... O tempo todo conosco. Vez ou outra — e desde que não nos traia — a revisitamos, na sina de preencher os silêncios. Hoje é sábado. Chuvoso dia, dezenove de janeiro. A noite chegou, tecendo uma leve brisa assim tal qual jasmim, e, por um instante, reverberou suas sombras num vapt! Ora uma, ora duas: mansamente...

Notas:
(1) Não me recordo do nome da minha primeira escola, apenas sei que ficava na atual Avenida Pedro de Souza Lopes (antiga Estrada do Cabuçu), próximo ao final da Rua Treze de Maio.
(2) No site, há um delicioso relato de autoria de Roque Vasto postado em 07 de fevereiro de 2007 que não posso deixar de citar: “Passeio de domingo – Vila Galvão”.

e-mail do autor: luc.graph@yahoo.com.br
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Publicado em 31/03/2013 sou nascido nessa terra tenho orgulho de ter nascido em vila galvao onde tive minha infancia saudades do grupo escolar jose alves de cerqueira cezar / liceu brasil/cine jade/nosso club/bar do gordo/estação do trem/da biquinha que era uma mina com a cabeça de leão /e muito mais e mais coisas estou hoje longe mais meu coraçao perto com muita saudades de vila galvão Enviado por roberto cereto - trisomnovidades@terra.com.br
Publicado em 31/03/2013 meu orgulho e ter nascido na vila galvao que saudades de minha infacia estou longe hoje mas tenho vila galvao no meu coraçao - vocesse lembram do filme que fizeram no bar do gordo o filme se chamava se meu dolar falasse esse filme foi feito no bar de meu pai que saudades Enviado por roberto cereto - trisomnovidades@terra.com.br
Publicado em 28/02/2013 Lúcio, nesta quinta, quase sexta, de 28/02 para 01/03, li a sua história e fiquei feliz! Vivo em Guarulhos desde 1978 e já a considero minha Cidade do Coração há muito tempo. Quando aqui cheguei foi como estar retornando para um lugar querido e abençoado, e foi assim que tudo seguiu desde então. Hoje, casado, com 3 filhos, uma esposa maravilhosa e muitos amigos continuo curtindo nossa Cidade. Muito tenho para escrever, mas deixo para outra vez, pois amanhã tenho que madrugar para ir a São Bernardo do Campo, que, olha só mais uma coincidência (elas existem?), foi a cidade que me recebeu quando cheguei do interior... Bem, Amigo, obrigado e espero ter a oportunidade de continuar nossa conversa.
Fabricio / Guarulhos
Enviado por Fabricio - ff0442@gmail.com
Publicado em 10/12/2012 O noma da escola a que o Sr. se refere era o Grupo Escolar José Alves de Cerqueira Cezar que por volta de 1958 ou 1959 mudou para um prédio novo que foi construido perto do Lago dos Patos, de frente para a Rua Francisco Conde, a conhecida "vinte metro". Enviado por Carlos Alberto Gomes Durand - durand.carlos@hotmail.com
Publicado em 03/09/2012 Amigo que viagem no tempo...
Eu tambem estudei no Cerqueira Cesar não me lembro bem mas acho que minha professora se chamava Iris.
Morava em Vila Rosália, senti o cheiro da chuva, dos campinhos de futebol, do banho nas aguas do rio Cabuçu,lembro dos campeonatos de paraquedismo o quadro foi muito bem retratado aqui...que saudades ..abraços a todos e obrigado pelas lembranças - DIMAS RIBEIRO DE CAMARGO
Enviado por Dimas - carteirada@gmail.com
Publicado em 29/06/2012 Cada vez que leio os relatos de Vila Galvão, mais me vem a mente e a saudade "bate" forte. Passei recentemente pelo lago e o coração ficou apertado. A escola não está mais ali, confesso que fique triste. Todos os dias eu atravessava o lago, onde era apenas um córrego, para chegar na escola. Cheguei a estudar no Liceu Brasil e toquei na fanfarra...quanta honra. Desfilei na Vila Galvão e no Guapira. Um forte abraço para todos que viveram e conviveram aquela época maravilhosa. Enviado por Wilson Greppi - greppi1@hotmail.com
Publicado em 28/05/2012 achei maravilhosa, pois queria saber a origem do bairro e as informações da prefeitura é muito escassa, Parabens pela valiosa contribuição Enviado por eliane alves vieira - elianeav2012@gmail.com
Publicado em 29/02/2012 Estudei nessa Escola, no 3º e 4º ano, em 1963 e 1964. Gostaria de saber se alguém também dessa época teria foto da Escola e da região para por em meu álbum. Agradeceria muito!!! odmirdias@hotmail.com Enviado por Odmir Dias de Souza - odmirdias@hotmail.com
Publicado em 27/11/2011 Nasci e cresci no bairro de Vila Rosalia, numa epoca que ainda nao existia asfalto e os postes eram todos de madeira(alias, a maioria com marcas deixadas pelos raios)Vi a construcao do novo predio do Grupo Escolar Jose Alves de Cerqueira Cesar na Vila Rosalia e a construcao da Igreja Nossa Senhora do Rosario. Na minha infancia ia constantemente tomar suco e comer um lanchinho no *Seu Joazinho* no extinto Liceu Brasil. Estudei o ginasial e o antigo colegial no Homero Rubens de Sa. Saudades!!!!!! Enviado por Elisa Watanabe - sea.breezer@hotmail.com
Publicado em 20/11/2011 quando crianca morava no parque Edu Chaves ,mas ja frequentava avila galvao fui morar no centro de sao Paulo . mas voltei pois conheci a minha esposa nos bailinhos do ARCO flEX, aLIANCA E,gUAPIRA CASEI E FUI MORAR NA VILA GALVAO ,NA R. JOSE ANTONIO MARCELO ATRAS DAS CASAS ANDRE LUIS ISSO FOI NO ANO DE 68 ALI NASCERAM MINHAS 2 FILHAS , HOJE MORO EM S. JOSE DOS CAMPOS QUANTA SAUDADE DE TOMAR UMA CAIPIRINHA NO MINHOTO PARABENS A TODOS QUE CONTAM A HISTORIA DA VILA Enviado por dario silva - crissedario@hotmail.com