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Categoria - Outras histórias Quase conheci o Sinatra Autor(a): Francisco Ramirez Sanchez - Conheça esse autor
História publicada em 14/03/2008
Aconteceu em 1957, mas eu lembro como se fora hoje. Trabalhava na Poligrafa, Avenida Guilherme Coteching... Entre os colegas de trabalho... Roberto Tagliaferro, Amelia, Zico e muitos outros, mas o que marcou mais as minhas amizades foi um rapaz da minha idade por nome Benedito, ou Ditinho, como era conhecido.
Esse colega tinha muitas qualidades, mas um grave defeito... Era metido a falar inglês, e falar inglês naqueles tempos aqui na Vila Maria não era para qualquer neguinho.
Ele aproveitava todas as oportunidades para me humilhar, eu, um semi-analfabeto, e ele, um entendido nos idiomas dos gringos.
E ele não perdia oportunidades, de manhã era good morning, a tarde good afternoon, quando encontrava alguém na rua, how are you?, ao invés de tchau ele dizia bye bye, e isso era everyday, desculpem, todos os dias.
Certa ocasião ele chegou e me convidou para um passeio ao Ibirapuera, recém inaugurado. Ele havia marcado um encontro com uma menina da Vila Medeiros e como eram duas irmãs e uma não podia sair sem a outra, convidou logo a mim que não poderia fazer concorrência a ele. Dei-me por satisfeito com o convite, mas fui logo avisando... Não queira botar banca às minhas custas... Ele concordou.
Chegamos ao Ibirapuera logo cedo e no início foi tudo legal. Tudo legal até o momento em que se aproximou de nós um senhor baixinho, todo barbudo e maltrapilho, mas com algo que o destacava: lindos olhos azuis. Mas como olhos azuis de homem nunca foram meu fraco, vamos dar continuidade à narrativa.
Esse pobre coitado nos fez sinal com as mãos querendo dizer que precisava de uma esmola. Meu amigo não pôde resistir e disse em inglês: i don’t have money. As meninas e eu nem imaginávamos o que isso queria dizer, mas o mendigo parece ter entendido, pois aconteceu uma transformação e o homem falou uma hora sem parar. I get no kick from champagnhe... Mere alcohol doesn’t move at all... E começou a cantar bem alto chamando a atenção dos que passavam perto de onde a gente estava... And now, the end is near, and so i face the final curtain. My friend, I’ll say it clear, I’ll state my case, of which I’m certain... E foi por ai afora.
Alguns anos depois, eu fui descobrir, ou pelo menos desconfiar, que aquele mendigo deveria ser o Frank Sinatra, que depois de terminar o namoro com a Ava Gardner, ficou muito abalado e viajou para o Brasil tentando esquecer a mulher amada, mas não conseguindo arrumar trabalho e sendo gongado em todos os programas de calouros, perambulou pelas ruas desta cidade. Também pudera... Cantava tão mal.
Se algum de vocês que morem na Vila Maria encontrar um velhinho de cor parda falando ou fazendo citações em inglês, com certeza deve ser o meu amigo Benedito. Digam que eu mandei um abraço fraterno.

e-mail do autor: paco.ramirez@uol.com.br E-mail: paco.ramirez@uol.com.br
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Publicado em 17/03/2008 No início da década de 60, comprava todos os LPs do Frank Sinatra na esquina da galeria que existe na Paulista com a Brigadeiro, enquanto trabalhava no edifício 5ª Avenida. O vendedor providenciou todos os editados, já que eu era fã incondicional daquele cantor. Abraços. Mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 16/03/2008 Parabens, Paco, o seu "Sinatra", mesmo sem ser o original, serviu pra dar uma lição ao Ditinho: qualquer mendingo pode se dar ao luxo de cantar em inglês, sem esnobar. Saborosa crônica, Paco, como dizia o Domenico Modugno: "se non'é vero, é bem trovato" (o Sinatra, bem entendido...) um abraço.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 14/03/2008 Shopping Center, Cheesburg, Chees egg, Self Service,Play Ground, Security, Status, Business Center, Flash Newspaper, pois é Paco parece que seu amigo Ditinho fez escola, abraço, Beira Enviado por José Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
Publicado em 13/03/2008 Francisco, deliciosa e jocosa narrativa, evocas o passado e o tinges com bordas de humor. Foi muito good de bom! Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 13/03/2008 Grande história, caro Paco ! Frank Sinatra, quem diria, acabou no Ibirapuera ! Bom, eu não conheci o Sinatra, mas sim o Tom Jobim, como relatei num artigo publicado aqui. Bela figura, mesmo ! Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 13/03/2008 Amigo Ramirez : (nome de meu cardiologista do Incor) Explendida história ! Parabens ! Voce me fez lembrar da piada do sósia do Sinatra, Ele era assediado quando saía a rua com pedido de autografos e permissão para ser fotografado. Viajou pata o Rio e ao descer no Santos Dumont não foi diferente. O motorista do taxi nem queria cobrar a corrida até o Copacabana Palace embora ele insistisse em dizer que se chamava Roberto, era brasileiro, vacinado ect. No hotel,desde a portaria todo mundo o chamava de "Mr. Sinatra", embora tentasse negar, falando em portugues castiço, etc. O gerente mandou dar-lhe uma suite especial a preço irrisório ..."só pela honra de hospedá-lo ainda que no anonimato..." O acenssorista piscou um olho quando ele disse que não o Sinatra. O boy que carregou sua mala não aceitou gorgeta ..."It was a pleasure, mr. Sinatra !" Por fim estava em seu apartamento e foi tomar um banho relaxante. Enquanto isso o gerente mopvimentava todo mundo mandando flores e um champagne Cristal para o hospede ilustre, acrescentando algo mais por sua conta ... Quando o Roberto saiu do banheiro deu de cara com o champagne numa bandeja com duas taças. Serviu-se e com a taça na mão, ainda completamente nu por causa do calor carioca, entrou no quarto . . . Surpresa ! Uma loira incrivel, em um baby-doll transparente estava deitada na cama e disse com voz melosa "Please, Frankie, come here ... " Ele já pronto para explicar a semelhança mas deu outra olhada na loira, ela era linda, parecia a Kim Novak ... Aí, como ninguém é de ferro, abriu os braços e caprichou : "Stranger in the night ..." EMP Enviado por expedito marques pereira - marquespereira75@gmail.com
Publicado em 13/03/2008 é ISSO MESMO, fRANCISCO. fALAR iNGLÊS NAQUELES TEMPOS ERA O SHOW DE BOLA. LEMBRO-ME COMO SE FALAVA COM ADMIRAÇÃO QUE A MAYSA CANTAVA INGLES E FRANCES E QUE O CAUBY PEIXOTO CANTAVA EM INGLES. CANTAR EM OUTRO IDIOMA ERA SUBENTENDIDO QUE A PESSOA FALASSE CORRETAMENTE OUTRO IDIOMA. NEM PASSAVA PELA CABEÇA DA GENTE QUE PODERIAM APENAS TER DECORADO A LETRA E NEM SOUBESSEM O QUE CANTAVAM! Enviado por Ivette Gomes Moreira - www.romorei@vsf.org.br
Publicado em 13/03/2008 Paco. Essa foi boa. O Frank no Brasil em 1957? Ele dizia que não vinha no Brasil porque a capital brasileira Buenos Ayres, tinha muito macaco. Só depois de muito pesquizar é que ele aqui veio, e como ele era muito importante disse que só cantaria no maracanã.E foi. 244 guardas costas estavam dando proteção a ele. Enquanto os "armarios" olhavam para todos os cantos do estadio, o beijoqueiro subiu ao palco e tascou um beijo no FRANK.MAS, EU NÃO SEI QUAL FOI MELHOR A, DO PACO, OU DO EXPEDITO. Vocês estão infernais! Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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