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Categoria - Paisagens e lugares Aclimação no início do século XX Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 28/03/2008

Meu pai, que hoje tem 81 anos, nasceu na casa onde hoje ainda mora, na Rua Nilo, no bairro da Aclimação. A irmã mais velha dele, a minha tia Dora, hoje tem 96 anos e ainda é muito lúcida. Ambos se lembram muito bem das ruas da Aclimação de outrora, na década dos 20, e gostam de contar sobre suas vidas de criança e jovem naquela época.
A Rua Nilo era rua de terra, a casa em estilo italiano, com amplos janelões foi construída pelo meu avô Agostinho, português, casado com dona Carmela, a minha avó italiana. Havia só uma casa aqui e outra acolá, o resto eram palmeiras, bosques e riachos onde meu pai e seus irmãos (ao todo cinco) gostavam de brincar. Às tardes passava o tropeiro, parando para dar água aos cavalos, e todas as manhãs passava o carrinho puxado por cabras, chamando as donas de casa para comprar leite tirado na hora. Era um leite espumante e muito forte.
Minha avó criava galinhas e patos no amplo quintal, espaço que hoje foi vendido para o comércio. Havia também uma amoreira de onde se faziam vidros de geléia para serem guardados no porão.
Também no porão todos os Natais se fazia um presépio enorme, muito bem feitinho, com ruazinhas, grutas, cachoeiras, pontes, muitos carneirinhos e lá no alto, a família sagrada. Minha avó fez este presépio por muitos anos, eu cheguei a vê-lo e me empolgar muito. Todas as crianças da rua vinham visitar o presépio de Dona Carmela.
Meu pai se lembra bem da figura de sua mãe debruçada no tanque, nas tardes de sol, lavando a roupa de suas cinco crianças com muito esmero. Após pendurar tudo, ela chamava os filhos para tomar café de um grande bule azul de latão.
Minha avó também fazia massa de macarrão em casa e pendurava tudo para secar no corrimão da escada e até lá fora! Exatamente como ainda se faz na Itália hoje em dia.
Não havia perigo para as crianças brincarem na rua até tarde, soltava-se balão, empinavam-se pipas ali nas Ruas Nilo Chuí, faziam-se piqueniques no bosque onde hoje fica o Tenis Clube.
Na revolução de 1932, soldados tomaram a casa da Dona Carmela que cozinhava para eles deliciosas macarronadas. Desta revolução sobrou a marca de uma bala na janela do casarão. Esse era um tempo onde quase não se sabia de balas perdidas!
O casarão da Rua Nilo ainda continua em pé. Lá dentro, um velhinho solitário com suas lembranças. Seus pais e irmãos todos já partiram, só ficaram ele e sua irmã Dora, que reside na Rua Apeninos. Hoje quem passa pela Rua Nilo vê o seu Olavo na janela, cabeça branca, olhando um bairro que em tudo não se parece com seu bairro de outrora. Hoje a Rua Nilo é barulhenta e poluída. As árvores em sua maioria se foram. Os córregos já não existem, o bosque foi cortado, os mamoeiros atrás da casa foram derrubados para a construção de um prédio.
Sobrou o seu Olavo, poeta.
Se você passar pela Rua Nilo na Aclimação e vir este velhinho na janela, por favor acene e diga que lhe mando um beijo.

e-mail da autora: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 20/05/2012 Sra.Souza, um texto maravilhoso e comovente. Grande abraço do Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 02/05/2008 Parabéns pelo texto, Lygia. Muito poético, cheio de sensibilidade e orgulho pelo passado da família. Eu morei ali, na rua Urano antes de me mudar para Florianópolis e sinto muitas saudades. Eu gostava, na época, de dizer que morava às margens do Nilo. Um abraço e muitas felicidades. Vera Moratta Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 13/04/2008 morei na Aclimação na década de 50, rua Espirito Santo. Tinha um amigo na rua Nilo, na Saturno e na Av. Aclimação! Lembro bem das quaresmeiras da Av. Turmalina, dos Cines Climax, Leblon, do Tenis Clube. Enviado por turan bei - turanbei@hotmail.com
Publicado em 31/03/2008 Carinhoso e emocionante seu texto, Ligya, parabens.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 28/03/2008 Muito sentimental e bem escrito, como sempre, Lydia. Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 27/03/2008 Lygia, que relato emocionante! Muito parecido com minha infância lá na Penha,do outro lado da cidade. Meu tio Américo montava um presépio maravilhoso,que era a alegria da garotada. A massa de macarrão que minha mãe fazia e nós colocavamos para secar, era divina!!
Hoje não tenho mais minha mãe nem meu tio, mas se passar na Aclimação,vou dar um beijo no SR Olavo.
Um Abraço / Bernadete
Enviado por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@norwan.com.br
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