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Categoria - Outras histórias Bambolê Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 14/05/2008

Quando eu tinha dez anos, o sonho da minha vida era possuir um bambolê. Quem daquele tempo não se lembra da criançada na rua bamboleando pra cima e pra baixo, competindo uns com os outros para ver quem ficava mais tempo girando o tal brinquedo na cintura, nas pernas, nos braços e no pescoço? Dava uma dor de pescoço depois! Pois eu só conseguia bambolear com bambolê emprestado e o dono ou dona sempre queria de volta antes que eu pudesse aprender a usar a coisa direito.
Bambolês vinham em cores variadas, sendo comuns o vermelho, o amarelo e o azul, mas existiam bambolês verdes, pretos e roxos também. Pra mim qualquer cor serviria, contanto que fosse só meu. Acho que não devia ser muito caro, porém, meu pai não comprava brinquedos, a não ser no Natal e em aniversários, não porque fosse um mau pai, mas porque não era seu costume dar brinquedos aos filhos a qualquer hora, e também porque seu salário no cartório onde trabalhava não era grande coisa.
E eu fui ficando sem o meu bambolê, olhando as outras crianças, esperando que de algum jeito fosse possível.
Estudava no Grupo Escolar Rodriques Alves, no início da Paulista, perto da antiga Sears. Uma tarde depois da aula ficamos sabendo que haveria uma venda especial de brinquedos na porta da Sears, brinquedos sem caixa, levemente danificados. E haveria bambolês também.
Minha coleguinha bem informada me avisou que se eu quisesse um, deveria chegar na hora, pois muita gente estaria disputando os brinquedos.
A liquidação começava às 2 e meia da tarde e durante o dia todo na escola eu quase não conseguia prestar atenção a coisa alguma. Lembro que o preço dos bambolês seria somente um cruzeiro e essa quantia eu consegui da minha mãe, tirada do dinheiro da feira.
Saía da escola às 2 horas. Daria tempo para chegar à porta da Sears sem maiores problemas. Nem consegui comer o lanche de pão com goiabada, de tanta angústia sobre aquele bambolê. Será que eu consigo?
Quando deu o sinal do fim da aula, agarrei minha malinha e corri. Desci as escadas do Grupo Escolar de dois em dois degraus e quase passei por cima das outras crianças. Corri como nunca havia corrido na vida, atravessei a Paulista mais rápido do que os atletas da São Silvestre e continuei no mesmo pique até a Sears.
A calçada em frente da loja parecia um local onde uma bomba havia sido detonada. Papelão por todos os lados, papéis voando, pedaços de brinquedos no chão. Mães e crianças se engalfinhado por um determinado brinquedo. No meio da confusão total, dois bambolês (um vermelho e um azul, me lembro), irremediavelmente entortados, largados sem ninguém que os disputasse...
Apanhei o menos quebrado (o azul) e coloquei na cintura. Nem se parecia mais com um bambolê. Levei pra casa só pra dizer que havia conseguido, mas não dava pra girar aquilo de jeito nenhum.
Pelo menos não gastei o cruzeiro da minha mãe, que me deixou comprar um pacotinho de doces com ele.

e-mail da autora: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 18/05/2009 Lygia, realmente foi uma febre. Não tinha como, onde v. fosse tinha criança bamboleando.Por ser um brinquedo individual cada um tinha que ter o seu ou ficar na "cola" de algum amiguinho. Aí se conheciam os egoístas...Não se aflija não, eu quando finalmente tive o meu a "onda" ja tinha passado, mas assim mesmo foi bom. Enviado por paulo duarte - paulod.rezende@bol.com.br
Publicado em 04/09/2008 sou professora de banbole Enviado por flavia - flaviabarbie_7@hotmail.com
Publicado em 15/05/2008 Lygia, você me fêz lembrar do meu bambolê vermelho. Foi difícil convencer meu pai que era extremamente imprencindível e vital aquela compra, afinal eramos em 4 irmãos e qualquer compra do gênero tinha que ser muito justificada. Depois de muito insistir ele acabou comprando e aí eu ficava horas treinando até conseguir bambolear certinho. Hoje vejo minha filha fazer o mesmo com o tal diabolô, que aliás já passou assim como o patinete, os patins, o bichinho virtual(que aliás acabou morrendo de fome)e outros modismos que foram e que virão, mas com certeza, na nossa época os modismos demoravam muito mais a passar, por isso, acredito que curtíamos muito mais as coisas. Enviado por Consolata - tpanhozzi@fmb.unesp.br
Publicado em 15/05/2008 Nos dias de hoje ele seria muito útil, pois temos que ter muito jogo de cintura para suportar essa avalange de contradiçôes, políticas e sociais. abraços ALCEU Enviado por ALCEU MENDES - alceumendes@ul.com.br
Publicado em 14/05/2008 Lígia, também quiz um bambolé. não era barato não! Ainda não havia a indústria da China. Na década de 70 comprava para os meus filhos Mach Box (ingleses) caríssimos. Hoje você compra uma baciada, por preço muito menor que um original. Abraços. Mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 14/05/2008 Ligia,

O brinquedo na minha opinião deve estar associado a alguma data ou como prêmio e recompensa por uma tarefa ou etapa cumprida. Isto educa a criança para a vida e nos faz saborear o que merecidamente conquistamos. Belo testemunho.

Johannes Luyten
Enviado por Johannes Luyten - jwluyten@yahoo.com
Publicado em 14/05/2008 Ah Lygia, que pena...imagino a dor sofrida nos seus olhos de criança! Abraços, Rose Enviado por Rosemary K.I.Calil - rosecalil@ig.com.br
Publicado em 14/05/2008 Bambolê, arco indispensável pras crianças, naquela época. V. não o teve mas, tentou até onde poude. Não conseguiu por completo mas, fica aqui minha sugestâo: não deixe repetir o desencanto, bambolê lembra redondas e essas as pizzas. Não deixe de ir a "Rodadas das redondas e dos Autores", Bradnick, e v. se realizará.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 14/05/2008 Ligia, Banbolê nunca usei. Saidemberg, biboquê, ioio,bolinha de gude, peteca, e pião eu brinquei. Pelo menos uma delas deu musica. Não sei quem cantava ou gravou. Mas era assim: Roda pião, rodeia pião. O pião entrou na roda pião, olê.lê. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 13/05/2008 Os modismos infantis...de bilboquê a ioiô, de gude a bafinho, de peteca a bambolê, pião... e assim caminha a humanidade. Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
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