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Categoria - Outras histórias Uma porca e duas porquinhas Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 21/05/2008

Piquenique de igreja numa chácara em São Paulo, cujo nome nem me lembro mais, nos distantes anos 1960. Levava-se comida embrulhada em panos de prato e cocas-colas em garrafões de vidro. As meninas iam de vestido porque quase ninguém tinha calças jeans. Dia lindo, ensolarado, os grupos iam se encontrando, abrindo toalhas no chão, dividindo o almoço. Á tarde haveria uma gincana com prêmios e fora anunciado que o primeiro prêmio havia sido doado por um fazendeiro local, uma porca com duas porquinhas!
Resolvi entrar na gincana para ganhar a bichinha. Com doze anos, não tinha idéia de onde eu colocaria a tal porca e suas crias, pois morávamos em um sobradinho cujo quintalzinho retangular aos fundos mal dava para secar a roupa da família. No entanto, me apaixonei pela idéia de ter uma porca e seus nenêzinhos só pra mim. Quando a gincana foi anunciada ás 3 horas eu já estava me inscrevendo.
Foi uma típica gincana daqueles anos dourados: corrida do ovo e da colher, corrida dentro de sacos de estopa, procurar objetos e trazer para o organizador (um pente marrom, um sapato branco e um batom vermelho), equilibrar uma bola na cabeça, e por aí vai. Eu corri como nunca, equilibrei como nunca, procurei objetos como nunca. Eu queria a tal porca.
Acabada a gincana, eu ainda recuperava o fôlego quando os prêmios foram anunciados: terceiro lugar, pegue o seu prêmio, segundo lugar, aqui está o seu, e agora, o primeiro lugar, quem será que vai levar para casa a porca e as duas porquinhas? Suspense...
O organizador falou o meu nome! Que alegria! Corri para receber o meu prêmio. Onde estavam os animais? Será que já haviam mandado buscar as minhas porquinhas na fazenda? Já pensava em como ia chamá-las e onde elas iam dormir, numa caixinha de madeira que eu forraria com um cobertor velho. Com doze anos a gente não pensa muito, nunca me passou pela cabeça que seria impossível manter animais de fazenda numa casinha na cidade.
- Aqui está o seu premio - disseram, me entregando um embrulhinho minúsculo. Não entendi como as minhas porquinhas poderiam estar dentro daquele pacote tão pequeno, mas ao abrir... Ah, decepção! Encontrei duas porcas de metal pequenas e uma um pouco maior. Uma porca e duas porquinhas!
Fiquei ali na frente, meu rosto fervendo de vergonha por ter sido enganada, enquanto ao redor todos riam de mim. Até o prêmio do terceiro lugar era melhor do que isto. E pensar no tanto que eu havia me esforçado para ganhar os animaizinhos!
Me escondi pelo resto do piquenique. Me sentia lesada e queria vingança. Queria as minhas porquinhas que me foram prometidas.
Joguei fora o pacote com as porcas de metal e fui chorar num canto.
Naquele dia eu comecei a sair da minha infância.

e-mail da autora: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 25/05/2008 LYGIA,Quando eu passava pelo inicio da avenida São João anos 1960, via dois porquinhos brigando, Olhei por varias vezes, mas não dava para saber qual era a porquinha. Nos dias de hoje, todo mundo ia dizer que eram dois palmeirenses brigando por um pedaço de linguiça. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 25/05/2008 Ligia, o Código do Consumidor veio nos proteger destas atitudes enganosas. Foi uma brincadeira de extremo mau gosto, uma propaganda enganosa. Se, naquela epoca, tivesse o nosso Codigo de Defesa do Consumidor, tenho certeza que voce receberia, em horas nao digo, mas em dias, as porquinhas, vivinhas da silva ou o valor correspondente.Sua historia serve de alerta, pois, mesmo com o CDF (codigo de defesa do consumidor), nos somos enganados a todos os momentos, ou tentam.
Marco Antonio (Marcolino)-advancedtop@uol.com.br
Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - advancedtop@uol.com.br
Publicado em 23/05/2008 Lygia. Quando tiver qualquer tipo de concurso. Se não houver pegadinhas, e os prêmios forem verdadeiros sempre tem alguém previamente, selecionado a ganhar. É o chamado népota vencedor. Os demais são meros idiotas concorrentes. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 22/05/2008 Valei-me Deus, quanta decepção. Desculpe, mas sua história é muito hilária. Gostei demais. A propósito, quer participar de uma gincana? O prêmio é um lobo e dois lobinhos.rsrsrsrsrsr Enviado por Pedro Nastri - p.nastri@yahoo.com.br
Publicado em 20/05/2008 Lygia, acredito que todos nós passamos por essas frustações em nossa infância.
Mas pensando bem iria sobrar para quem cuidar dos porquinhos?...
Enviado por Asciudeme Joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 20/05/2008 JÁ FAZ ALGUN TEMPO, 20/30 ANOS, EU TINHA UMA VENDEDORA CHAMADA CLARISSA E ELA ESTAVA VIAJANDO PARA OS LADOS DE VOTUPORANGA, ALTA ARARAQUARENSE E COMO ERA PERTO DO NATAL ME LIGOU E PERGUNTOU SE EU ACEITAVA UMA LEITOA.....CLARO QUE ACEITO, RESPONDI, POIS A MULHER TROUXE A PORQUINHA PARA MIM IMAGINANDO QUE EU FOSSE COME-LA [A PORQUINHA]
MAS A BICHINHA ERA TÃO LINDA QUE EU NÃO TIVE CORAGEM DE TAL MALDADE, AO CONTRÁRIO, SOLTEI-A NO QUINTAL E NUM FIM DE SEMANA LEVEI A PORQUINHA PARA UMA CHACARA QUE TINHA-MOS EM SANTA ISABEL.
A ÚLTIMA VEZ QUE A VI ELA ESTAVA PRENHA E DEVE TER MORRODO DE VELHICE POIS COMER EU COMO MAS MATAR EU NUNCA MATEI.
Enviado por FRANCISCO RAMIREZ SANCHEZ - paco.ramirez@uol.com.br
Publicado em 20/05/2008 Lygia, um inusitado diploma de adulta foi o que você ganhou.
Mas sem querer resolveu seu problema maior que seria acomodar a porca e as porquinhas no seu´pequeno e indisponível espaço.
Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 20/05/2008 Lygia, um trote destes merece outro nome: escárnio. Se fosse comigo jogava os três porquinhos junto com um monte de bosta, de qualquer origem, na cara do organizador (ra). Fui vitima de um trote, mais ou menos igual. No tempo das Balas Futebol, ganhei um brinde que me dava o direito de retirar um belo veleiro. Sabia que era um brinquedo mas, não contava com uma rústica e horrivel estatueta. Nas portas da A Americana, na rua do Gasômetro, joguei o objeto mandando que enfiacem no... devido lugar, mais apropriado pra essa aberração: o lixo! (o subentidimento é livre...) Texto mórbido mas, cheio de ironia. Parabens.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 20/05/2008 Era uma vez três porquinhas... Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 20/05/2008 ...risos...valeu a sua coragem em contar! nestes tempos bicudos muitos cofrinhos de porquinhos estão sendo esfaqueados! Enviado por turan bei - turanbei@hotmail.com
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