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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Minha Amoreira Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 12/06/2008

Ela ficava no quintal ao lado da casa, seus galhos se estendendo para a rua. A casa era grande, com porão, um galinheiro, de onde todas as manhãs conseguíamos alguns ovos, e uma pereira ao lado do tanque de lavar roupa. Da pereira tirávamos algumas peras duras, que meus primos e eu tentávamos vender aos passantes para fazer uns cruzeirinhos. Porém a amoreira era a nossa verdadeira amiga.
Do alto de seus galhos brincávamos de perdidos na floresta, de fadas e de macacos. Quando as frutinhas apareciam, quase não conseguíamos esperar que amadurecessem, a gente comia assim mesmo, ainda vermelhinhas. As que conseguiam amadurecer, porém, eram transformadas em geléia no fogão a lenha da minha avó ou em suco que fazíamos ali mesmo embaixo da árvore e bebíamos de um canecão de lata. Das folhas fazíamos vestidinhos improvisados para as bonecas, ou ainda serviam como ‘couve’ para a comidinha quando a gente brincava de casinha. Um pouco mais tarde, era do alto da amoreira que eu esperava o menino da casa de frente voltar da escola, escondida entre as folhas para que ele não soubesse da minha paixão.
A gente amava a amoreira. Até abraçada e beijada aquela árvore foi.
Só das formigas que disputavam território conosco nos galhos é que não gostávamos! Cada picada!
Um dia, mudamos da casa ao lado da casa de minha avó, onde a amoreira ficava. Adolescentes, esquecemos da nossa árvore, viajamos, namoramos, e um dia, voltando à casa já vazia, sem a vovó na porta, lembrei da amoreira no quintal. Que estranho, como o quintal era pequeno! Como nos parecia imenso no passado!
E a amoreira? Só um toco no chão. Alguém, ainda hoje não sei quem, resolveu que a árvore era um estorvo, que teria que ser cortada.
Sentei sobre este toco de passado e aí sim as memórias voltaram bem vivas. Nunca esquecerei de você, velha árvore fazendo sombra a uma rua de São Paulo, minha amoreira.

e-mail da autora: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 23/07/2008 Lindíssima história, emociona até quem não teve experiências parecidas. Na realidade nos faz sentir parte da mesma.
Impressionante como a magia da infância não se retoma, nem mesmo quando se volta ao cenário, na tentativa de resgatar um resquício que seja daquelas emoções.
Parabéns à autora por nos fazer respirar fundo e tranquilos neste momento.
Enviado por Everaldo - everferlim@gmail.com
Publicado em 18/07/2008 Cara Lygia, aqui pertinho da minha casa, na Rua Ajurapéia com Natingui (Vila Madalena), bem na esquina, há uma amoreira que fica tão carregada que tinge o chão! ela foi plantada há vários anos pelo Rubens Matuck, que vive plantando frutíferas e outras árvores aqui no bairro, bendito seja ele! Eu tenho em casa várias árvores, a minha predileta é um limoeiro. Abraços, Virgínia Enviado por Virginia André - ginia.andre@uol.com.br
Publicado em 08/07/2008 Lygia,parabéns que infância sádia é de crianças
feito vc que o mundo precisa,para se tornarem
adultos de fato.Bjsssssss!!!nilza
Enviado por nilza - nilzacsmartins@hotmail.com
Publicado em 08/07/2008 Lygia,parabéns que infância sádia é de crianças
feito vc que o mundo precisa,para se tornarem
adultos de fato.Bjsssssss!!!nilza
Enviado por nilza - nilzacsmartins@hotmail.com
Publicado em 18/06/2008 Que hostoria bonita Lygia, ela me fez lembrar de um livro que li quando ainda era estudante...Meu Pé de Laranja Lima. Parabens! Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 14/06/2008 Que lindo, Lygia. A sua vida através de uma amoreira. O que mais gostei foi a cena da menina espiando uma primeira paixão por entre as folhas de sua velha amiga amoreira. Os galhos vão, a lembrança no chão transformada num toco seco e as pessoas que nos deixam, mas essas sensações de lembranças não passam nunca.
um abraço
Vera
Enviado por Vera Lúcia de Angelis - deangelisgomes@terra.com.br
Publicado em 13/06/2008 Deliciosa recordação Lygia!
Um abrço
Enviado por Berê - doris.rabello@uol.com.br
Publicado em 12/06/2008 Ligia, sou sua fã, pois tudo o que você conta também faz parte do meu passado. Como o Saidenberg amo as árvores, a natureza de maneira geral e os animais. Dizem que para a amoreira frutificar tem que ter outra próxima para troca de pólem, como não sou botânica, é necessário obter informações. Mirça Enviado por mirça bludeni de pínho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 12/06/2008 Saudosa amoreira, Lygia, a identificar um legítimo legado impossível de retorno mas, vivendo na memória de uma pessoa sencível, como você. Parabens e um abraço.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 12/06/2008 Lygia, Essa amoreira,seria aquele de frutinhas pretas, que apertando ficava com liquido vermelho?
Huummmm, já fiquei com agua na boca.
Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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