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Categoria - Outras histórias Realejo Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 22/07/2008

Realejo

Quem ainda se lembra do realejo? Era sempre uma tarde de sol quando ouvia-se a musiquinha do realejo na rua. Pelo menos na minha memória era sempre numa tarde de sol que nós corríamos para a janela do casarão para ver o homem do realejo descendo a ladeira. Ele usava um chapeuzinho amarrotado e vinha virando a manivela do realejo, produzindo aquela música meio triste, tão especial. Encarapitado na armação verde do realejo, acima das gavetinhas da sorte, o periquito que com seu bico escolhia o papelzinho (ou vermelho, ou amarelo) que nos diria o que o futuro nos reservava.
Eu adorava o realejo. Saía correndo para calçada com a minha moedinha na mão nem tanto pra tirar a sorte, mas querendo ver o periquito verde que era tão esperto e sabia escolher o meu futuro.
“É o vermelho ou o amarelo, periquito?” dizia o homem do realejo, enquanto a criançada espiava de olhos arregalados. E o periquito, virando a cabecinha pra lá e pra cá, escolhia um papelzinho da caixa para a gente.
Todo mundo se amontoava para ler a sorte dos outros. “Que é que diz aí, hein?” E o comprador lia em voz alta: “Você vai ser muito feliz na vida” ou “Você é uma pessoa boa, simpática e inteligente”. Pois é, o periquito nunca tirava nada de ruim pra ninguém, e aí estava a maravilha. A gente acreditava, guardava o papelzinho com cuidado para não perder a boa sorte, olhava em volta para ver se os outros haviam ouvido bem (especialmente se a gente tirara elogios) e esperava para ouvir a sorte dos outros. O periquito nunca se cansava, nunca bicava ninguém, e olha que ele tinha oportunidade, tanta criança se espremendo para passar a mão no bichinho.
E o homem do realejo ia embora, tocando aquela musiquinha até que não dava mais para se ouvir na curva da rua.
Eu acho que o realejo não existe mais, o que é muito triste. Era parte da infância esperar o realejo e tirar a sorte numa linda tarde de sol em São Paulo.


e-mail da autora: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 16/04/2012 Muito bacana ler isso! Recentemente eu postei sobre Realejo em meu blog!
Dá uma passadinha por lá - http://comoserumbommarido.wordpress.com/2012/04/16/xxiv-o-tal-passarinho-do-realejo/
Grande abraço! ^^
Enviado por Elaine Oliveira - elaine_thrash@hotmail.com
Publicado em 29/05/2011 Obrigada por ter escrito uma história tão linda como essa, pode ter certeza de que o papagaio tirou as palavras certas para você, coisas Boas,enfim, bons fluídos... que Deus/ universo o que acreditar te dê sorte, amor, paz:) Enviado por Alessandra - lekwicca@yahoo.com.br
Publicado em 19/05/2011 todo sábado tem um realejo na praça Benedito Calixto, Pinheiros Enviado por iamni - iamnirp@ig.com.br
Publicado em 22/09/2010 Olá Lygia, gostaria de saber em que época/ano foi possível apreciar o realejo no Brasil. E se ele só aparecia nas grandes cidades, ou poderia ser visto em todo o Brasil.
Obrigada.
Enviado por Cleonice - cleo-pr@hotmail.com
Publicado em 10/11/2009 realejo e uma caixinha de musica Enviado por bruna - bru-lindaegata@hotmail.com
Publicado em 19/04/2009 Prezada Lygia, que excelente lembrança, e como sempre uma história esculpida com singeleza e autenticidade. Parabéns! Me permita enviar uma quadrinha ao Wilson Natale: "Minha casa tem quatro cantos /Cada canto tem um santo /Deus,Jesus e o Divino Espírito Santo." Abraço. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 28/07/2008 É isso aí, Mário, bons tempos da Furiosa Palmeirense, a famosa Bandinha do Minguinho. Era o Palmeiras entrar em campo e marcar gol, não dava outra, a Bandinha do Minguinho lascava o Periquitinho Verde. Era uma bela bandinha, tocava muito bem, fazia sucesso. Estreou em 1959, que me recorde, num jogo frente o Corinthians, pelo menos foi a primeira vez que eu vi, pelo primeiro turno do Campeonato Paulista. Só que, cada vez que ela tocava, a torcida do Corinthians sapecava vaia em cima. 1x1 o resultado da partida, primeiro tempo terminou 0x0. Altura dos 35 minutos do segundo tempo, Roberto Belangero marcou um golaço, meteu da intermediária na furquilha do goleiro Anibal, no gol dos Portões Monumentais, vibração corinthiana em Pacaembu, aí a torcida do Corinthians mandava a bandinha tocar: "Toca! Toca! Toca!" e a Bandinha muda, limitando-se a ouvir. Só que, no finalzinho do jogo, ao apagar das luzes, cobrando falta cometida por Luisinho Pequeno Polegar em Julinho Botelho, este era um leão em campo, houve comentários, não sei se foi verdade mas que houve comentários houve, que até uma casa ele tinha apostado que o Palmeiras não perdia naquele dia. Julinho partiu com tudo naquelas suas célebres arrancadas, ao fintar Luisinho, quase na risca da grande área, risca lateral esquerda, Luisinho o segurou fazendo falta. Romeiro cobrou, Walmir, excelente zagueiro corinthiano, ao tentar jogar a bola para escanteio cortando de cabeça, mandou-a ao fundo das redes, gol contra, empatando a partida, 1x1, sabor de vitória, gol de empate no último minuto, para os palmeirenses. Aí a Furiosa do Minguinho entrou com tudo, sapecou o Periquitinho Verde que não foi fácil. Tocou várias vezes, não parava, dava continuidade no Periquitinho Verde. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
Publicado em 24/07/2008 Há não muito tempo eu ainda vi um, Lígia. Confesso, não recordo o lugar, mas vi. Vi de passagem. Uma pena, não tive tempo para parar e ficar apreciando. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
Publicado em 23/07/2008 Eu gostava muito de ver o periquito tirar aquelas papeletas. As mensagens era sempre positivas. Mas na verdade pouco me importava com a mensagem. o que eu gostava mesmo, era de ver o Periquito. Simbolo do meu verdadeiro Palmeiras.No Pacaembu ou no Parque Antartica, a banda do Minguinho entrava, antes do jogo , soltando o som de cordas e metais na musica:- Meu periquitinho verde / Tire a sorte por favorEu quero resolver / Este caso de amor / Pois se eu não caso / Neste caso eu vou morrer / O que eu não quero / É depois de me casar / Ouvir a filharada / Noite e dia a me amolar / Pois eu juro que não tenho / Paciência de aturar
"mamãe eu quero mamar"
Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 22/07/2008 O realejo ainda existe. Está sempre presente, com seu periquito, nas festas de ruas da Liberdade, da Pompeia, do Brooklin. Mas de vez em quando, aparece um solitário, pela rua deserta. Até mesmo na minha ruazinha, como antigamente. Enviado por Luiz S. Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
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