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Categoria - Outras histórias À mestra com carinho Autor(a): Alberto Laporte - Conheça esse autor
História publicada em 05/08/2008
Deixa-me contar um assunto que jamais ouvi de alguém. Somente aqueles que puderam gozar dessa felicidade é que saberão dar o devido valor.
Hoje em Santana há uma escola chamada Padre Vieira, nome ilustre e justo para o saber. Contudo, o edifício que abrigou essa escola (doação do governo argentino a São Paulo) anteriormente abrigava o "Grupo Escolar Buenos Aires". À altura de 1932, seu diretor, Sr. Crispim (sepultado no cemitério do Chora Menino)conduzia seus encargos com dignidade e justiça, isto a tal ponto de não permitir que sua irmã, Dona Laura, fizesse parte do quadro de docentes (Dona Maria de Arruda, Dona Paquita, Sr. Celimeno, Dona Estela, Dona Maria Aparecida Brocca, etc.).Sabia-se que o motivo alegado era o de a mesma não ter feito o escalonamento obrigatório, isto é, a normalista formada deveria exercer suas funções longe de São Paulo (Capital) a fim de capitalizar pontos que somados alcançariam o índice hábil de transferência (escolha de vagas por mérito). Essa sistemática afastava as moças para o interior (às vezes sertão de São Paulo) obrigando-as a permanecerem mais de ano longe da família. Desobrigá-la do fato seria uma proteção que beirava às raias da indecência e grande descaramento. O Sr. Crispim era um homem honestíssimo.
Onde hoje está situada a "Escola Luiza de Marilac", a Voluntários da Pátria, havia uma casinha simples; lá morava Dona Laura, irmã do Sr. Crispim. Mulher capaz, inteligente, carinhosa, afável e sempre solícita. Dona Laura foi a professora de um grupo de alunos que faziam o que hoje se chama de prézinho. Com a tabuada e a cartilha do A.E.I.O.U. iniciou nossos passos, abriu nossos horizontes. Se hoje somos o que somos e fomos o que até hoje pudemos ser devemos ao farol de sua paciência que nos orientou. Lembro-me bem do dia 9 de julho de 1932: Dona Laura nos disse: "Meus filhos vamos rezar. Com cuidado e sem parar em lugar nenhum voltem para suas casas. Digam as suas mães que está havendo uma briga muito feia e que vocês voltarão, somente quando eu mandar chamar”. Era a Revolução Constitucionalista. O patriotismo já nos vinha sendo ensinado. Todos os dias, antes das aulas, ficávamos de pé, ao lado das carteiras para rezar uma oração e interpretar algum hino.
Sempre cantávamos os Hinos: Nacional, à Bandeira, da Independência e outros mais, mesmo os religiosos. Sempre cantávamos "Liberdade, Liberdade abre as azas sobre nós, nas lutas, nas tempestades..." e eu perguntava a meu pai: “Que tamanho tem esse pássaro chamado Liberdade que tem que ter asas para cobrir todos os alunos?”. Meu pai respondia: “É grande, o maior de todos e sem ele não poderemos viver...”.
Hoje, nos meus oitenta anos ainda ouço a voz da primeira mestra: “Meninos, não entrem no mato do quintal (hoje a Avenida Santos Dumont frente ao Parque da Aeronáutica) porque aí tem cobras”.
Lastimo, no entanto, que nosso bairro que elegeu seus filhos vereadores (Angelo Bortolo, Antonio Sampaio, Ary Silva, Cantidio Sampaio, Geraldo Silveira Bueno, Valério Giuli - em falando só dos antigos), alguns deputados estaduais e federais, vice-prefeito que interinamente ocupou a prefeitura (Cantídio), mesmo em sabendo, nunca tenha buscado homenagear a mestra Dona Laura!
Queria que o nome de "Grupo Escolar Buenos Aires" voltasse ao primitivo local dando ao Padre Vieira um novo e, não menos importante, consoante o valor do homenageado, e que procurassem dar ênfase aos mestres como Dona Laura e Sr. Crispim.
Sei o que é lecionar, portanto posso imaginar a grandeza de quem pode formatar as mentalidades infantis. Eu nunca seria capaz de executar essa tarefa com tanto brilho e galhardia como foi executada por Dona Laura.
Dona Laura, quase centenária, morreu numa casinha simples à Rua Francisca Biriba esquina com a Avenida Imirim e esta sepultada no cemitério do Chora Menino.
Este é um agradecimento público à mestra dos meus primeiros passos, a esse farol que me ilumina até hoje.


e-mail do autor: cntlaporte@terra.com.br E-mail: cntlaporte@terra.com.br
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Publicado em 05/04/2012 Querido profesor Laporte , linda homenagem ,como ex.aluno do Buenos Aires e do Colégio Vito Viana, hoje como pesquisador e professor universitário deixo minha gratidão aos excelentes professores que tive quando em minha infância e adolecência passei por essas instituições de ensino. Enviado por Renato Logiudice - renato.logiudice@gmail.com
Publicado em 29/08/2008 Caro Alberto, jamais devemos esquecer nossas mestras, a próposito tem um simples texto meu publicado em 25/02/2008, simples mas de coração às minhas quatro primeiras mestras do primario, que me valeu ´pela vida toda. Parabéns pela sua homenagem a dona Laura. abraço,Beira Enviado por José Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
Publicado em 18/08/2008 Prof Laporte!

Que bom saber notícias do meu saudoso professor de português, que tambem era muito querido como um psicólogo que nos compreendia tão bem.
Fui sua aluna no Vitor Viana nos anos 65/66, que bom saber notícias e melhor ainda ler sua história.
Um grande abraço desta modesta admiradora.
Enviado por Maria Teresa Neves - Maria.Neves@tam.com.br
Publicado em 07/08/2008 Sr. Laporte, quero lhe dar os parabéns pela sensibilidade, pelo reconhecimento e gratidão para com sua mestra. Como professora há 27 anos, digo-lhe: manifestações assim, de carinho e agradecimento, nos sustentam e muito. O reconhecimento por parte do aluno nos dá uma dimensão de que, apesar de tantas dificuldades enfrentadas nas salas de aula, a educação faz milagres e é incrivelmente compensadora na formação de homens e mulheres . Um grande abraço, com carinho, Vera Moratta. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 05/08/2008 Caro Laporte,pouco a pouco vão aparecendo os "antigos santanenses" neste espaço maravilhoso,onde podemos rememorar nossas infâncias passadas neste nobre bairro de São Paulo...Como você é um pouco "mais rodado" que eu (5 anos), pôde lembrar do sr.Crispin e sua irmã DªLaura...já no meu tempo (em 1941) quando cheguei à São Paulo, fomos morar também na rua Duarte Azevedo,nº93 quase esquina da Cruzeiro do Sul, ainda com seus frondosos eucaliptos e ainda sendo colocadas as "manilhas" para escoamento de água e ainda tendo a séde da "Lusitana" bem defronte ao G.E.Buenos Aires que naquele ano, quando "entrei" já no 3ºano, já tinha como Diretor, o sr.Peter... se lhe interessar, tenho um texto escrito sobre "nosso" bairro dos anos 40, no dia 26.01.2006. Dê uma "olhada" lá e irá rememorar alguma coisa daqueles anos...e se quizer, podemos "trocar fotos" do bairro, em nossos e-mail's. Abraços de um também, antigo santanense. Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 05/08/2008 Alberto, quem bom ve-lo aqui nesta comunidade de autores da nossa sampa.
Digo mais, que bom encontra-lo aqui e não nas lides profissionais onde, por diversos anos, nos cruzamos, fazendo trabalhos de consultoria empresarial.
Penso que a esta altura da leitura estarás intrigado tentando adivinhar quem é o comentarista.
Claro, não me reconhecerás pelo primeiro nome e sim pelo nome de guerra.
Sr. Laporte,quem lhe comenta e cumprimenta é o velho e sempre amigo Chammas.
Lembrado?
Agora sim posso tecer um comentário sobre o texto:
Não é um RT mas é um primor e uma linda homenagem. Parabéns.
Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 05/08/2008 Laporte, parabens pelo texto e pela memória... lembrar de fatos ocorridos no ano em que nasci, 1932, é por demais emocionante. Um abraço.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 04/08/2008 Alberto, uma homenagem comovente a uma mestra que, como diz Ruben Alves, era uma educadora e não uma professora. Professores, como eucalíptos, os há aos montes. Educadores, qual jacarandás, levam muitos anos para se formar, mas já nascem jacarandás. Esses, são poucos.
Abração, Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivettegmoreira@Gmail.com.br
Publicado em 04/08/2008 Alberto, você está homenageando belíssimamente a Dona Laura e a todas as professoras. Parabéns. Enviado por Berê Rabello - dorisdaybrasil@gmail.com
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