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Categoria - Outras histórias A eterna escola da vida - parte VII Autor(a): José Antunes dos Santos - Conheça esse autor
História publicada em 19/10/2008

No dia 30 de outubro de 1967, eu havia completado 36 anos, 9 meses e 24 dias de vida. Na época, considerado já "velho" para assumir certas funções em novos empregos. Recém-desempregado, mas financeiramente abonado, resolvi tirar férias por minha conta enquanto aguardava respostas aos testes efetuados em várias empresas para o cargo de contador, dentre elas: Ford Motor do Brasil, Kibon, Moinho Santista, Laboratório (inglês) Welcome do Brasil, Cia. de Gás e etc.

A idéia fixa de continuar exercendo a profissão de contador tornou-se um ponto negativo para mim. Custou para que eu fosse convencido a aceitar outras funções tão importantes quanto a de contador; por exemplo: no setor financeiro, analista, informática, administração, controler e etc.

As respostas que recebia dessas empresas eram mais ou menos as seguintes: "o seu teste foi excelente, só que não dispomos atualmente de uma vaga para o senhor, não podemos dispensar o nosso contador. Que tal o senhor tentar outros cargos?".

As minhas férias já se alongavam por nove meses (mais ou menos) e eu começava a preocupar-me; os gastos aumentavam cada vez mais e as receitas não entravam.

Na ocasião, eu e minha família (pais e três irmãs) morávamos nos fundos da Rua Bueno Brandão, 412 (Vila Nova Conceição), propriedade adquirida de meu tio Agostinho Pagliaro (cunhado de minha mãe).
Meu cunhado René trabalhava na mesma empresa que eu (Lucas-Service) e havia sido dispensado logo em seguida à minha saída. Ele, minha irmã Aparecida e as filhas Eliane, Roseli e Rosangela, moravam na Avenida Santo Amaro, quase esquina da Bueno Brandão; éramos praticamente vizinhos.

Pois bem, o René tornou-se amigo do seu vizinho do prédio Artur Tozin, casado com Dona Angélica e tinha duas filhas. O Artur, sabedor da situação do René, convidou-o para trabalhar com ele na Financeira Decred e depois Independência, para as funções de corretor de valores. O progresso foi imediato: as aplicações em letras de câmbio com renda mensal e final eram um sucesso garantido para todos.

Fiquei tão entusiasmado com os resultados que decidi aplicar com ele algumas quantias razoáveis e, assim, conseguir uma renda mensal muito interessante, quase equivalente a um salário variável, mas isso não era suficiente para a nossa manutenção. Teria mesmo que buscar uma fonte de renda fixa, segura e consistente, um bom emprego com salário justo e permanente.

O desespero começava a tomar conta de mim; nunca estivera tanto tempo sem emprego. Hoje eu sei o que é sentir-se inútil, desempregado, dependente e impotente ante tal situação. Ávido de noticias e novidades, devorava os anúncios de empregos diariamente, até que um dia deparei-me com a singela publicação: "Indústria metalúrgica procura sub-contador com alguma prática. Entrar em contato pessoal com o Sr. José Pedace, no endereço Rua Clodomiro Amazonas, 248 – Itaim Bibi".

Fui imediatamente ao local. Fiquei surpreso quando me encontrei com o Sr. José Pedace e ele disse-me: "Eu conheço o senhor! O senhor morava no Bixiga, Rua Dr. Luiz Barreto, ao lado direito da igreja Nossa Senhora Achiropita. Eu morava na mesma rua, quase esquina da Rua São Vicente, eu era amigo de fulano, etc... O senhor se lembra?". Em seguida, ele disse: "A vaga está em aberto. Se o senhor concordar, ela é sua, pode começar quando quiser”.

O salário inicial era equivalente a 1/3 do que eu recebia na empresa anterior, mas a minha promoção estava próxima e garantida. Uma vez mais, a felicidade batia à minha porta, graças a Deus. Esse recomeço estava repleto de esperanças e oportunidades.

No dia 2 de setembro de 1968, eu iniciava na Amperlux Máquinas e Equipamentos Ltda., na função de assistente de contador. O Sr.Ayrton Luiz de Almeida era o diretor comercial; o seu irmão, Sylvio Luiz de Almeida, diretor industrial.

A Amperlux era fabricante dos famosos reguladores e transformadores de voltagem "Amperlux". Era um sucesso absoluto. O quadro de funcionários era composto pelo contador responsável (José Pedace), eu, o assistente do contador (José Antunes dos Santos), um representante comercial (Sr. Vasconcellos, português), uma secretária-recepcionista (não me lembro o nome), o auxiliar de escritório (Armando Castellões) e mais uma dúzia, mais ou menos, de operários.

O contador (José Pedace), além de empregado da Amperlux, era dono e responsável pela firma R. C. G. Revisora Contábil Geral S/C, cujo sócio era o Sr. Cláudio Cru; sua irmã era a secretária. A esposa do Sr. José Pedace era Dona Delfina, que se encarregava dos pagamentos em bancos, assuntos nas repartições públicas e outros serviços externos, e dois ou mais auxiliares internos. O José Pedace e família moravam na sua propriedade à Rua Horácio Lafer, quase esquina com a Clodomiro Amazonas - eram vizinhos da Amperlux.

Algum tempo depois, a Amperlux deixou de produzir os transformadores e reguladores de voltagem, mas continuou com a assistência técnica dos produtos, e os diretores tentaram iniciar a produção de berços (suportes) para rolos de lâminas metálicas diversas. Esta nova experiência, infelizmente, não deu certo, pois dependia de mão de obra especializada; o que antes era produzido em linha de montagem, com mão de obra mais barata, agora tornara-se quase artesanal. O material especial, além de mais caro, devia ser comprado à vista; a produção era por unidade; esta demorava alguns meses para ser terminada; e as vendas eram efetuadas a prazo.

Os fornecedores começaram a cortar o crédito, só forneciam à vista. O crédito bancário já não existia, os impostos e taxas deixaram de ser pagos e acumulavam-se cada vez mais. Eu percebi a gravidade da situação, fiz uma análise profunda dos resultados e tomei a iniciativa de reparar em tempo os estragos esperados. Conversei com os dois diretores, expus a eles a realidade dos fatos e consegui com que suspendessem a atual produção, dispensassem e indenizassem o pessoal e, aos poucos, providenciassem a baixa definitiva da empresa junto ao fisco em geral, de maneira honrosa e legal.

Em 1º de janeiro de 1970, com a saída espontânea do José Pedace, assumi o cargo de contador-responsável, o qual exerci até o dia 16 de julho de 1972, após todas as homologações trabalhistas por mim efetuadas e a parte contábil completamente atualizada.

Daí em diante, a RCG S/C assumiu a responsabilidade e conseguiu baixar e encerrar a Amperlux.

Essa foi uma das mais importantes e inesquecíveis escolas da vida. A carta de recomendação, com detalhes que os diretores fizeram questão de me fornecer, equivale a um baú repleto das mais preciosas jóias raras.

e-mail do autor: joseantunesdossantos@bol.com.br

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Publicado em 12/07/2010 Sou filho do Sylvio(já falecido)e é interessante ler estas memórias.É um passado do qual me orgulho muito.Abraço. Enviado por Ubaiara - ubaiaral@globo.com
Publicado em 20/10/2008 Memorável recordação de uma vida proficional, Santos.
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 19/10/2008 José. Os bairros de Itaim e Vila Nova, são de muita lembrança boa. Morei nos dois Bairros. Já que você estava por ali na Clodomiro Amazonas-Horacio Lafer, deve ter toma doumas biritas no Rei da Batidas, Coldomiro esquina Rua Iaià. Em 1972 eu trabalhava na Iaiá, quase ao lado do "Birinaite" Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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