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Categoria - Outras histórias Procurando casa em São Paulo - Parte II: A casa dos horrores Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 19/11/2008

“Esta casa”, disse Edson, “tem um portão automático, um jardim enorme, espaço para dois carros. Vocês vão gostar”. Parecia maravilhoso. Na zona leste de São Paulo, não muito distante do metrô.

Edson nos levou para ver a casa. Situada numa esquina, pintada de cinza e branco, portões enormes cinzentos. Edson praticamente pulou do carro para mostrar como o portão funcionava.

A casa era grande, com três quartos, três banheiros, cozinha grande, sala em L. Um dos quartos tinha um terraço e venezianas azuis. Deste terraço ficava-se bem de cara com a casa vizinha, onde um cachorro dormia tranqüilo ao lado do portão.

Nós não estávamos muito certos se queríamos a casa ou não, mas estávamos cansados depois de mais de um mês atrás de algo para alugar. Finalmente dissemos sim.

Depois de alguns dias reunindo nossos pertences e comprando móveis (que ainda não haviam chegado), mudamos numa sexta-feira. Edson veio nos ver com a família, trazendo colchões para que usássemos até que as camas novas chegassem da loja, e umas cinco garrafas de refrigerante - sem dúvida para comemorar sua liberdade. Finalmente ele estava livre de nós! Eles foram embora lá pra meia-noite, acenando da janelinha do carro. Nunca mais os vimos.

Colocando os colchões nos quartos, tentamos dormir. Ah, o calor! O calor era tanto que estávamos praticamente grudados nos lençóis. Abri as janelas e a porta do terracinho, e foi aí que o cachorro começou a latir. Era um latido esganiçado e tão alto que dava pra acreditar que o danado estava dentro do quarto. Agüentamos meia hora, mas depois fechamos as janelas de novo. O calor era sufocante. De nenhum jeito dava pra dormir. O cachorro continuava latindo - por favor, acredite, ele latiu a noite inteirinha.

Levamos o colchão para o quarto do nosso filho, mas este quarto ficava em frente a uma padaria aberta (creio eu) a maior parte da noite. Da janela podíamos ver uma dúzia de adolescentes sentados no colo uns dos outros e ainda outros em carros tentando subir na calçada.

De repente, mais um barulho corta o ar e nos faz pular de susto. Olhando pela porta do terraço, vimos na casa em frente (onde o cachorro ainda latia desesperadamente) um papagaio azul e vermelho numa gaiola pendurada na varanda. O barulho que ele começou a a fazer era como se alguém o estivesse matando. Era como de uma serra de metal e era também tão perto de nós como se estivesse (junto com o cachorro) dentro do nosso quarto. E os adolescentes também. E os carros brecando de repente, virando a curva da rua, os jovens ao volante gritando uns para os outros. Eram duas da manhã.

E ainda tinha mais a vir. Baratas. Montes delas, correndo em volta do colchão. Munidos de uma vassoura, meu filho e marido tentavam matá-las; minha filha apavorada e eu cansada demais para me importar.

Meia hora depois notamos um barulho de água, como se estivesse chovendo. Só que não estava. Este barulho continuou a noite toda; talvez fosse de uma caixa d’água. Até hoje não sabemos exatamente o que era; todos nós levantamos e procuramos descobrir, mas não conseguimos.

Voltamos aos colchões, exaustos demais para continuar a busca. E aí ouvimos o portão de metal sendo sacudido! Alguém estava tentando subir pelo portão. Isso nos assustou de verdade, nem telefone a casa tinha e nós não tínhamos celulares. O barulho no portão continuou por um longo tempo. Chamamos os filhos para ficarem conosco no mesmo quarto e trancamos a porta. Para falar a verdade, estávamos todos aterrorizados.

Lá pras três e pouco da manhã, os vizinhos da frente, donos do cachorro (latindo) e do papagaio (ainda fazendo o barulho metálico), resolveram tirar um barco (por favor, acredite) e colocá-lo num veículo para ser levado não se sabe aonde. Eles acenderam todas as luzes da casa, que entravam pelas nossas janelas. E como falavam alto!

Quando o sol nasceu, o cachorro dormiu. O papagaio ficou quieto. Os vizinhos fecharam todas as janelas e foram dormir. Silêncio total. Só que o meu marido tinha que ir trabalhar!

Descemos para tomar café, de olhos vermelhos e cabelos eriçados, cansados demais até para dar um jeito na cara! Nós quatro comemos em silêncio, sabendo que não ficaríamos nesta casa de jeito nenhum. Não por um ano, como o contrato pedia. Nem por um mês. Pra falar a verdade, nem por mais uma noite.

Empacotamos umas roupas em sacolas plásticas, alguma comida que estava ainda nos pacotes e jogamos o resto fora. Como não tínhamos desempacotado quase nada, simplesmente pusemos de volta nas caixas o que fora tirado para virmos buscar depois. E saímos dali, correndo, para a Rodoviária do Tietê pegar um ônibus para Atibaia, onde ficava a casa do meu irmão. Até o trabalho ficou pra trás.

Mais tarde ficamos sabendo que o Edson passou por lá na noite seguinte para ver como as coisas estavam e, encontrando o portão fechado, perguntou à vizinha onde estávamos. Ela informou que nós havíamos saído cedo e não havíamos voltado mais. Isso o próprio Edson me falou por telefone, com uma voz de incredulidade. Nós nunca mais o vimos. Também, não posso culpá-lo.

Duas semanas depois alugamos um apartamento lindo, limpo e quieto. Sem ajuda do Edson.

e-mail do autor: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 23/11/2008 Olha, Lygia, não faltou boa vontade pro Edson, devemos reconhecer; ele só falhou num ponto: não estudou BEM o perfil do cliente. Relato frio mas, sincero. Não há o que contestar. Um abraço.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 21/11/2008 Lygia,só acrescentando ao que vc.escreveu e dando mais dicas,sempre observar também em SAMPA,ruas em que há feiras-livre,ponto de onibus,boates,barzinhos,futuras estações de trem e metro,pontes,alargamento de Avenidas,escolas em geral,etc. são com certeza dores de cabeça com barulho,experiencia própria ao longo da vida.
Um abraço. Vilton Giglio
Enviado por vilton giglio - viltongiglio@hotmail.com
Publicado em 20/11/2008 Lygia, gostei muito de sua narrativa. Também tive alguns transtornos com um corretor como o Edson. Até hoje não sei se ele se achava muito esperto ou a mim muito idiota. Me levou para visitar cinco apartamentos horríveis(mal localizados, sem ventilação, etc...), sempre citando qualidades que só ele conseguia enxergar. Mas foi até engraçado, no último ele colocou uma cadeira junto ao vitrô da área de serviço indicando que por alí eu teria visão da piscina do condomínio vizinho onde sempre tinha alguma mulher de biquini e até de topless...
um abraço.
Enviado por Abílio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 19/11/2008 Cachorro, papagaio, baratas, pizzaria a todo o vapor, vizinhos irriquietos, calor insuportavel, barulho de caixa d'agua!!! To esquecendo alguma coisa??? Que noite hein?? MAs,que bom que tudo se acertou e vc encontrou o seu lugar ideal. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 19/11/2008 Lygia, que sufoco vcs passaram nesta casa, eu tb n ficaria lá por nada deste mundo. Cuidados sempre devemos ter ao comprarmos ou alugarmos um imóvel. Um abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 18/11/2008 Lygia...todo cuidado é pouco na hora de adquirir um imóvel...de espeluncas a cidade está cheia. Além da casa é preciso observar as redondezas para ver se nada impede uma vivência tranquila e feliz. Morar perto de pizzaria, barzinho, escola (eu moro em frente a uma , mas não escuto o barulho pois estou nos fundos do prédio), ninguém merece. Meus vizinhos que tem o apartamento de frente com a escola tem vários problemas: o primeiro é o barulho, o segundo é a privacidade: a escola é antiga com apenas 2 andares: as janelas do prédio ficam na mesma linha das janelas das salas de aula...não dá nem para ficar pelado ano AP se tiver muito calor...você até escuta as faxineiras arrumando as carteiras pela manhã, antes de iniciar o período..é...não é mole não..... Enviado por Erta Tamberg - ertatamberg@hotmail.com
Publicado em 18/11/2008 Lygia, eu acredito sim que um cachorro lata a noite inteira. Um meu vizinho comprou um casal já um pouco crescidos, que latiam a noite toda.Aguentei três noites, porque, claro, durante o dia eles dormiam e eu não. Não tive dúvidas e acionei o condomínio, que enviou advertência e nada adiantou. Enviaram uma multa, que nada adiantou. Ai então, fui a casa deles e con-versei o mais calmamente possível, a estas alturas do campeonado. Eles tentaram argumentar e, antes que dissesem "os incomodados que se mudem", taquei-lhes a Constituição e as regras do condomínio e disse-lhes que, se eles queriam ter cachorro, mas sem a devida responsabilidade com os bichos, meu próximo passo seria a ida à Delegacia de Polícia, fazer um B.O., chamar o Corpo de Bombeiros para retirada dos animais e abertura por irresponsabilidade com animais e desrespeito à Lei do silêncio e violação aos meus direitos de cidadã. Por fim, eles se comprometeram a recolher os cachorros durante a noite, o que de fato o fizeram. Mas eu me pergunto: por que deixar as coisas chegarem a este ponto? O mundo perdeu o bom senso e o respeito pelo próximo?
Abração, Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 18/11/2008 Meu avô, na sua simplicidade, era bem experto. Vai alugar? Vai comprar? Passe pelo local de manhã, de tarde e de noite. Se possível, de madrugada. Veja como é o fim de semana por lá...
É uma mão-de-obra, porém muito compensatória.
Amei a sua narrativa.
Natale
Enviado por Wilson Natale - wilsonnatal@uol.com.br
Publicado em 18/11/2008 Lygia. Eu agüentaria o cachorro, o papagaio, o calor, o barulho da padaria,etc. Agora, BARATAS, nenhumazinha, quanto mais um monte delas! Prefiro aranhas e escorpiões.
Muy Amigo esse tal de Edson, não?
Enviado por Tony Silva - silva.luiz2006@ig.com.br
Publicado em 18/11/2008 Cachorro latindo a noite toda acontece mesmo, mas os papagaios- aliás, pela descrição do seu caso era uma arara- não. São como tantas outras aves- dormem com as galinhas. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
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