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Categoria - Personagens Um português digno de ser paulista Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 02/12/2008

Agostinho Martins de Souza chegou de Portugal sozinho, vestindo um terno surradíssimo e carregando uma pequena mala de couro amarrada com uma corda. Veio de navio, parou em Santos e subiu para São Paulo, naqueles idos anos 20. Era um português magro, de bigodes (sem dúvida) e cheio de sonhos: iria construir uma vida nova no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo.

Dentro da mala de couro, Agostinho não carregava roupas. A mala estava cheia de dinheiro, notas e notas enroladas com barbante, tudo o que havia conseguido com a venda de uma quinta no Minho.

Dirigindo-se para a casa de um outro português que já residia em São Paulo, Agostinho teve de cruzar uma ponte sobre um riacho. Já escurecia e Agostinho não viu a tábua solta, tropeçou e... lá se foi a malinha, com tudo o que ele possuía na vida, pra dentro do riacho, perdendo-se na correnteza, no lusco fusco do dia. Agostinho correu pelas margens do riozinho, apanhou um galho de árvore, tentou alçar o tesouro, mas foi tudo em vão. A malinha se foi, e com ela, toda a esperança de Agostinho.

Este é o homem que foi meu avô paterno. Me orgulho de dizer que depois deste começo terrível, Agostinho se recuperou e chegou a possuir muitas casas e propriedades, algumas já vendidas e outras dadas em herança para os cinco filhos que gerou em terras paulistas.

Quando já havia feito dinheiro suficiente para comprar um terno novo e uma gravatinha borboleta, das quais ele tanto gostava, Agostinho foi a uma festa com amigos e ali conheceu Carmela, uma italianinha também recém-chegada da Europa. (É folclore em nossa família que Santos Dumont estava nesta festa, mas não sei se acredito). Carmela veio de Quiete, uma cidadezinha perto de Roma, para ser a governanta de duas crianças da família Cunha Bueno. Agostinho e Carmela se casaram e se estabeleceram na Aclimação, construindo o casarão da Rua Nilo que está lá até hoje, onde meu pai ainda mora.

Tiveram cinco filhos: Agostinho Filho, o Dudu; Dora (em homenagem à Dona Dora Cunha Bueno); Fabio; Julio; e Olavo, meu pai.

Meu avô Agostinho nunca mais retornou a Portugal. Amava São Paulo e amava o Brasil. Era trabalhador e bom pai, lutou com perseverança e não se entregou ao desespero quando sua fortuna sumiu nas águas. Quem a terá achado? Ou a mala ainda estará no fundo do rio?

Agostinho morreu quando meu pai completou oito anos. Minha avó Carmela viu-se, então, sozinha no Brasil, com cinco filhos para criar, mas isso foi possível usando os aluguéis das casas que Agostinho deixara. Os filhos estudaram, se formaram, se casaram e tiveram filhos, dentre os quais uma sou eu.

Gostaria de ter conhecido meu avô Agostinho e lhe dizer que gostei muito da sua escolha de morar em São Paulo, de ali criar seus filhos e do fato de que eu pude nascer paulista também, mas principalmente lhe dizer que admiro sua coragem, sua força e que com homens como ele São Paulo foi construída.

Vô, você é um verdadeiro paulista.

e-mail do autor: lymarsouz@live.co.uk

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Publicado em 05/12/2008 Lygia, que lindo texto! Você tem razões de sobra para se orgulhar do seu avô, da sua historia de vida, perseverança, do espírito de luta. Que situação a dele, meu Deus, como recém-chegado! Mas ele chegou lá! É um paulistano de verdade. Concordo que foi gente dessa estirpe, de raça, que fez São Paulo ser o que é. Um beijão, Vera Moratta. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 03/12/2008 O Agustinho é o exemplo da verdadeira célula-mater na formação dos legítimos paulistanos, nobre, trabalhador, incansável, valente, destemido enfim, tudo o que forma esse povo que habita e consagra essa bendita terra. E tem um item muito importante, casou-se com uma italiana... só poderia resultar nisso. Parabens, Ligia.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 02/12/2008 Que bela historia. Nao eh facil recomecar a vida em terras desconhecidas e ainda mais sem dinheiro. O seu Avo demosntrou a coragem que nossos antepassados possuiam em desbravar a nossa Sao Paulo rustica de antigamente. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 01/12/2008 Que depoimento lindo Lygia! A princípio, até chegar na travessia do rio e a queda da mala, achei que fossse ficção. Mas depois você mostra o símbolo da garra de um trabalhador otimista. Se fosse um outro qualquer já desanimaria. Quem sabe até não cometesse um ato de loucura(suicídiio) já que, vindo de tão longe, perde assim em questão de minutos aquilo que seria o alicerce de sua nova vida numa terra até então desconhecida. Não sei se é pelo fato de ser neto de português com alemã, mas admiro nossos patrícios lusos. É dificil encontrar um que veio para o Brasil e não tenha conquistado a sua independência econômica. A tua narrativa serve de lição para milhares de pessoas brasileiras. Afinal de contas,"nunca é tarde para ser feliz". Por mais fracassada que esteja a pessoa, sempre há uma luzinha no final do túnel. Basta ter a perseverança que teve seu avô. Parabéns. (Arlindo-Ligeirinho-Ribeiro) Enviado por Arlindo-Ligeirinho-Ribeiro - arlindoligeirinho@itelefonica.com.br
Publicado em 01/12/2008 Belo relato Lygia adorei a perseverança do seu avô, não é facil recomeçar tudo na vida em uma terra estranha, mas acho que a razão do sucesso de seu avô foi exatamente o fato do mesmo ter perdido aquela mala de dinheiro, Acho que quem achou aquela mala foi o mesmo que escondeu o dinheiro do mensalão na cueca,kkkk ou então o Marcos Valerio . Parabens. Enviado por arthur miranda - 27.miranda@gmail.com
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