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Categoria - São Paulo do século XXI O Natal das crianças excluídas Autor(a): Arlindo-Ligeirinho-Ribeiro - Conheça esse autor
História publicada em 23/12/2008

Ao caminhar pela movimentada Rua Silva Bueno, no Ipiranga, deparei-me, em frente de uma luxuosa confeitaria, com um menino, da raça negra, maltrapilho. Deveria ter uns dez ou onze anos. Estava com os pés no chão. Olhava fixo para a vitrine do estabelecimento onde estavam expostos os mais lindos e tentadores confeitos. Tinha queijadinha, cocadinha, brigadeiro, beijinho, quindim e tantas outras variedades de doces. Sem falar nos bolos. Cada um mais artisticamente decorado que o outro. Era bolo redondo ou quadrangular. Pequeno ou grande. Uns tinham até frutas secas em volta.

O menino permanecia ali parado. Seus dois olhos não desviavam da vitrine. Pessoas bem trajadas passavam por ele. Uns até arriscavam dar uma olhada rápida pela exposição da confeitaria. Talvez nem notasse a presença daquele garoto como se fosse uma estátua. Mas prosseguiam os seus trajetos. Dentro da loja, fregueses ocupavam os espaços das mesas e do balcão. E o pobre do guri dava uma desviada com os olhos e captava cenas de crianças, jovens e adultos saboreando aqueles quitutes.

O que será que estaria passando naquele exato momento na cabecinha do pobre, descalço e maltrapilho menino? Pensava ele em armar um plano no sentido de entrar e percorrer mesa por mesa pedindo que dele comprassem um daqueles doces? Ou arquitetava um meio de, discretamente, entrar e furtar os cobiçados confeitos para matar sua vontade?
- Furtar não. Minha tia uma vez furtou um remédio numa farmácia e foi parar na cadeia. Está lá até hoje. Pensava o garoto consigo mesmo. Certamente fazia também referência a tantos outros "ladrões do colarinho branco", que roubam milhões dos cofres públicos e continuam soltos.

Nesta época em que se aproximam as comemorações do Natal, data máxima da cristandade, muitos desses meninos estão espalhados pelas ruas de São Paulo. São pobres e inocentes criaturas que vivem diante das vitrines dos estabelecimentos comerciais com os olhos fixos nos doces, brinquedos, roupas, calçados, ou até mesmo num simples pão para matar a fome. São milhares de meninos carentes que, nesta época, ficam com as mentes massificadas de tanta propaganda dos meios de comunicação anunciando o Natal de Cristo e, por detrás, a figura universal do Papai Noel e um verdadeiro "enxame" de propaganda para atrair os consumistas.

Para essas crianças excluídas da sociedade, o "bom velhinho" dificilmente visitará suas casas erguidas com restos de madeiras nas favelas da periferia paulistana, ou até mesmo debaixo das pontes e viadutos onde vivem, como na Avenida São João, confluência com Rua Formosa e Vale do Anhangabaú, por exemplo.

Mais um Natal passará e a figura do Papai Noel ficará apenas na memória dessas coitadas criaturas. Resta a essa gurizada continuar sonhando, tendo como pano de fundo os acordes dos sinos que anunciam mais um aniversário do nascimento daquele que, em vida, não cansava de pregar que "Bem aventuradas as crianças porque elas alcançarão os reinos dos céus".

e-mail do autor: arlindoligeirinho@itelefonica.com.br

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Publicado em 09/02/2009 ONDE ESTÂO OS NOSSO POLITICOS?ESTOU COM 68 ANOS e SEMPRE A MESMA COISA, SO PROMESSAS E NADA ACONTECE, NEM EDUCAÇÂO, NEM SAUDE, NEM MORADIA, O JORNAL TRAS UM ARTIGO QUE O LULA, ESTA COM UMA MARGEM GRANDE DE APROVAÇÂO DA POPULAÇÂO. CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MEREÇE. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 23/12/2008 Trabalhei na antiga Secretaria do Menor, com crianca em situacao de rua, o problema social existe e esta longe de acabar. Eh muito triste. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 23/12/2008 Amigão vc. deve lembrar alvez melhor q."eu" qdo. o Pelé,falou: "olhai por nossas crianças",lá no RJ. Infelizmente as crianças de hoje serão os que nos asaltarão,matarão,sequestrarão,estruparão,e assim por diante,fui lider comunitario e pregava que deveriamos olhar nossas crianças para não sermos vitimas deles no amanhã,certa ocasião ao ver uma mãe mandando suas filhas pedir esmolas por alguns dias no farol,(ela sentada embaixo da àrvore,av. Sen. Tetonio Vilela cruzamento com Av.Belmira Marin)dei-lhe um corretivo e disse que caso estivesse ali no dia seguinte chamaria a policia,sumiu. E muito duro e revoltante vermos cenas diarias de crianças sendo usadas em SAMPA. Principalmente qdo. estão no centro do vale do Anhangabaú cheirando cola e assaltando ou então dormindo no chão.
Abs. vilton Giglio
Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio@hotmail.com
Publicado em 22/12/2008 Arlindo o seu relato me faz lembrar numa noite na Cidade de Itapolis(SP) fui a uma Lanchonete comer um Lanche e tinha um menino desse tipo que vc relatou na entrada na Lanchonete com uma carinha de fome e todos que entravam e saiam da Lanchonete não estavam nem ai com o pequenino, eu vendo aquilo chamei o menino e falei vc quer um Lanche se o Senhor me der eu quero mandei ele sentar do meu lado pedi um lanche e um refrigerante vc precisava ver a alegria dele e como ele comia com tanto gosto, o agradecimento dele valeu me lavou a alma.Abraço Adolpho. Enviado por Adolpho Adduci - adolphoadduci@yahoo.com.br
Publicado em 22/12/2008 Ligeirinho, seu texto é emocionante. Realmente, quando nos flagramos dentro de shoppings e lojas, com mão cheias de sacolas que mal podemos carregar, comendo as gulodices que lá estão, nem sequer nos lembramos daqueles que nada tem.
Certa vez presenciei, em uma loja do Pão de Açucar, na Avenida Washington Luiz, que ficava junto a Favela do Buraco Quente, crianças que furavam os pacotes de doces - cocadas, doces de leite, chocolate - para pegar um, seguranças que os escorraçavam ou que, com grosseria e palavras muito duras, tentavam impedir sua entrada. Deixei de ir àquele supermercado porque eu já havia me indisposto com os seguranças várias vezes e comprado doces para as crianças, mas eu não podia mudar aquela situação.
Feliz Natal para você e um aBRAÇÃO Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 22/12/2008 Arlindo não é só no Natal eles estão por ai olhando uma vitrine durante o ano todo e por vários anos.
Este é um país governado por um partido social imagino se não fosse.
Abraços

Falcon
Enviado por Marcos Falcon - marcosfalcon@uol.com.br
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