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Categoria - Outras histórias Sofunge, uma indústria pioneira - Vila Anastácio, Lapa Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 24/12/2008

Primeiramente, isto é mais que uma história, é acima de tudo uma homenagem aos operários pioneiros que fundiram as primeiras peças das indústrias de base metalúrgica no Brasil: os incansáveis operários da Sociedade Técnica de Fundições Gerais S/A, SOFUNGE, que são reverenciados nestas lembranças a todos que fizeram parte e contribuíram para construção deste documento histórico.

Pode ter havido anteriormente no Brasil uma pequena forja aqui, um forno catalão de fundo de quintal acolá, para fabricar pequenos utensílios domésticos, ferramentas usadas na lavoura, como uma enxada, uma foice, facas de charruas para abrir sulco na terra para semear uma agricultura também em formação.

A industrialização tardia do país tem o registro forjado na SOFUNGE e seus operários da Vila Anastácio, Lapa, na Rua Bartolomeu Paes, 136, um quarteirão inteiro, formado pelas ruas Camacam, Raimundo Pereira de Magalhães, onde também havia a Mafersa, indústria de trucks e vagões ferroviários, desativada em 1994 e que hoje é a empresa Alstom, grupo industrial francês.

Neste quarteirão onde estava instalada a Mafersa havia um galpão de madeira onde se montou um rinque, que nas sextas-feiras a casa enchia de operários em busca de divertimento, aqueles que apreciavam o boxe amador.

Fechando o quadrilátero estava a Rua Campos Vergueiro, paralela à Rua Bartolomeu Paes, por onde adentravam os trens de carga da indústria Moinho Santista, vizinha da SOFUNGE, e fazia parte deste complexo onde se implantou os primórdios antecessores do advento automobilístico nacional.

A Rua Camacam, na hora do almoço, era uma verdadeira legião de homens que transitavam sem parar. Os bares estavam sempre entupidos de operários, a tomar algum aperitivo para aguçar a fome, que era saciada nos restaurantes da empresa.

Essa massa, toda acinzentada pela cor do uniforme destes homens que transpiravam o odor do ferro saído dos "fornos cubilôt", abastecidos com um reagente calcário, o combustível carvão e a carga de ferro, que se tornava incandescente a jorrar pelas bicas de saída, enchendo as panelas de vazamento de líquido fundente transportado por gruas, pontes rolantes por cima de caixas previamente preparadas para fabricar um cabeçote de motor, um bloco, um coletor de escapamento, um diferencial de caminhão, uma roda de trem. As empilhadeiras removiam as peças retiradas das caixas para os pátios de expedição, para serem enviadas as empresas montadoras de veículos.

No saguão da entrada principal, onde se recebiam as visitas, estava a primeira roda produzida em ferro fundido cinzento, fabricada em 1942, exemplar de tantas quanto foram feitas pela SOFUNGE, e na parede estava exposta uma imagem entalhada de Santa Bárbara, protetora dos operários que manipulam a arte de fundição, daqueles que operam com o fogo.

Foi na SOFUNGE que o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, segurou o volante da panela de vazamento do primeiro bloco de motor do caminhão L 312, O Torpedo, encomendado pela Mercedes Benz, em 21 de dezembro de 1955, dando início à indústria automobilística do país, embora o país já montasse caminhões com peças importadas.

O preparo das caixas, preenchidas com areia, era feito em máquinas de compactação que martelavam a areia previamente preparada com alguns "ingredientes", como milho em farelo (mogul), açúcar refinado, separados em baias de madeira, ligados com algum aglutinante que unia essa massa. Duas caixas distintas, o fundo e a tampa, recebiam, no interior desta cavidade, outras peças, denominadas de "macho", também feitas de areia, como por exemplo, areia shell, finíssima, quando cozidas (curadas) em estufas, ficavam com tom amarelado. Depois, como um quebra cabeça, era montado e iria formar o corpo e as cavidades de um bloco, ou cabeçote de motor, ou outro componente automotivo. As areias eram recolhidas em compartimentos, vindas do interior de São Paulo, como da cidade de Descalvado.

Poder-se-ia citar nomes de grandes mestres desta arte, do setor de modelação feita em madeira, verdadeiras obras de arte, que faria inveja aos grandes escultores do renascimento, ou as curvas de entalhadores barrocos, mas eram mestres artistas da indústria, e esse é seu maior mérito, eram incansáveis incessantes na arte de produzir.

A indústria possuía uma mão de obra especializada que provinha de muitos lugares, imigrantes e migrantes, que se deslocavam para o maior pólo industrial a partir da segunda metade do século vinte, e que foram sendo lapidados como pedra bruta e se tornaram mestres fundidores do ferro.

O ferro fundido recebia muitas designações, maleável, nodular, cinzento, produzidos por uma gama de fórmulas, mas todos preparados com muito esmero por homens gabaritados na arte metalúrgica.

O desenvolvimento da indústria em expansão no Brasil muito contribuiu para o crescimento da cidade de São Paulo, e a SOFUNGE consolidou o moderno campo industrial, e seus colaboradores contribuíram de maneira incisiva nesta expansão.

Em 06 de agosto de 1996, foi anunciada a liquidação da empresa, um marco da história iniciada em 23 de dezembro de 1941 pelo certificado expedido pela Junta Comercial do Estado de São Paulo, sob registro número 15.924, e que representou a implantação das maiores indústrias automobilísticas no país e o pioneirismo na América Latina.

e-mail do autor: cafatorelli@gmail.com

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Publicado em 26/12/2008 Carlos, justa e bonita homenagem e importante registro de uma das principais industrias de fundição do Brasil, que vem enriquecer esse site e que abre um novo tema em SPMC e sinta-se homenageado também, pois voce foi projetista dessa empresa e agora como escritor vem divulgando, eternizando o passado recente na mídia,como nesse caso a SOFUNGE, um dos vagões da locomotiva chamada São Paulo, parabéns.Estan Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 25/12/2008 Bela homenagem. Realmente um registro para os anais da nossa historia. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 24/12/2008 Belíssimo registro histórico de um segmento industrial de nossa bendita e consagradora terra de iniciativas progrssistas. Teve seu tempo, sua era, sua produção e agora repousa em memórias muito bem descritas por vc., Fatorelli. Parabens.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 23/12/2008 Parabens meu chara, fiquei muito feliz em ler o seu relato Histórico de um marco do desenvolvimento marcante do Brasil, iniciado em São Paulo e poder reviver um pouco do meu feliz passado profissional.
Eu era o comprador de fundidos da Chrysler do Brasil, que fabricava os veiculos Dodge: Dart, Charger,D-100, D-400, D-700 e D-900. Da Sofunge eram adquiridos itens de segurança e qualidade fundidos e usinados.
Realmente a Sofunge representava um dos alicerces da implantaçao da indutria automobilistica brasileira.
Enviado por Carlos Heiffig - carlos.heiffig@terra.com.br
Publicado em 23/12/2008 Valeu Fatorelli otima lembrança,ainda bem que não tinha um metalurgico por lá chamado Luis I.L.da S.(ou tinha) senão seria o marco zero das greves no Brasil.(caso esteja errado corrijam-me por favor) Grande SOFUNGE e MAFERSA,tive um primo eng. q. trabalhou nessa empresa em S.J.do Campos. Bons tempos qdo. SAMPA tinha muitas indústrias inclusive multinacionais,mais do que honestas,a única "coisa de ruim" é que sugava muito o trabalhador brasileiro,era o velho dolar que muito mandava no Brasil ou "to errado". Vejam por exemplo algumas Burroughs do Brasil,Kibon S.A.,Atlas Copco,Monark S.A,Squibb,Laborterapica,etc e tal algumas até trabalhei,sei também que tiravam muito a nossa grana,hoje são falecidas por algum motivo ou então roubaram muito,foram vendidas,se juntaram e por ai vai.
abs. Vilton Giglio
Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio@hotmail.com
Publicado em 23/12/2008 Li uma verdadeira aula sobre a industrialização do Brasil. Ficou positivado no decorrer do tempo que o Brasileiro era o mais criativo ser do mundo. Podiamos muito bem ter continuado nesse modelo, apesar da modernização. Não sei por que cargas d´agua, tudo que era brasileiro foi passando para as mãos dos estrangeiros, e o Brasil perdeu o Bonde ga historia. Uma pena. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br