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Categoria - São Paulo do século XXI A cidade vazia Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 09/01/2009

De outra feita, tomei emprestado para um artigo um título de Rubem Braga, Apareceu um Canário.

Desta vez, nova liberdade, dou uma surrupiada em Fernando Sabino, tomando-lhe momentaneamente o título de seu livro, de crônicas sobre Nova Iorque.

Mas não é de Nova Iorque que quero falar; é de São Paulo de ressaca, após o tumulto todo do Ano Novo. É chocante, uma surpresa o contraste.

Na véspera, os rojões silvavam e explodiam sobre nossa tranquila ceia, embora minha rua continuasse deserta. Seria a nova família que mudou recentemente para nossa frente, dando sangue novo e animação a uma ruazinha composta quase só de vizinhos já idosos, amargos e aposentados?

Olhei para o escuro e o silêncio lá fora; não, não eram eles. Creio que os novos e luxuosos prédios em volta, extravasando sua euforia de alto faturamento, juros e dividendos mesmo num ano terminando em crise e agonia, para não falar de desespero, no Oriente Médio.

Saio pela manhã, esperançoso ao portão, aproveitando minha nova onda de boa vontade. Conseguiria desejar um bom ano a alguém? Nada, todo mundo parece dormir, apesar de a farra não ter sido tanta, acho.

Meu filho acede em levar-nos ao Parque do Butantã, deslizando pela Marginal do Pinheiros deserta. Mas, também lá os portões estão fechados; dormem as jibóias e cascavéis, dormem os macacos em suas jaulas.

Vamos então à Cidade Universitária, onde conseguimos entrar graças à sua carteirinha da USP. Estacionamos e saímos a caminhar pelos bosques e caminhos desertos. Não há vivalma, como se diria antigamente. É exagero: uma ou outra pessoa aparece, um carro passa, mas a sensação de vazio permanece.

Que quer dizer esta pausa, será a calmaria que antecede a tempestade?

Dizem que, nas tsunamis, a primeira coisa que acontece é o recuar da água, deixando vasta extensão a descoberto. Mas isto é só o prenúncio da onda gigante se formando, e logo ela desaba com toda a sua fúria.

O Ano Novo... parece haver uma hesitação, enquanto ele toma forma. Todo mundo aguarda, mudo e apreensivo, pois ninguém sabe o que nos trará.

Um ano surpreendente, com uma crise nunca vista desde o crack da Bolsa em 29; um dos países mais racistas e radicais do mundo com um novo presidente, e negro. O Oriente Médio novamente em chamas, e não é dos poços de petróleo. A poluição e o aquecimento global atingindo níveis alarmantes.

Que será de ti, mundo, em 2009? Talvez por isto essa estupefação, esse grande silêncio pelas ruas e avenidas. Novamente, o planeta está sendo medido, pesado e julgado, e tememos esse juízo, que não será o Final, mas parcial, com esperanças ainda de recursos e apelações.

Que ele possa se recuperar, que as esperanças possam voltar a todos corações; que a vida, mais conscientizada, siga em frente, imbatível e implacável como vem sendo, desde que o mundo é mundo.

E vâmo que vâmo!

e-mail do autor: lssaidenberg@gmail.com

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Publicado em 19/01/2009 SR.LUIZ, NATAL, ANO NOVO, FERIAS, A RESSACA E ,GRANDE, O PLANETA SEMPRE FOI JULGADO PELO MALDITO DINHEIRO, AS PESSOAS SO PENSAO EM SI, EM 2009 NAO SERA DIFERENTE, OS POLITICO,OS RICOS,OS EMPRESARIOS, NAO VAI MUDAR NADA,E VAMO QUE VÂMO VIVA A DEMOCRACIA. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.
Publicado em 12/01/2009 Miguel, o nosso AMADERRIMO presidente, para nosso azar não gosta de ler jornais. Aliaz não gosta de ler nada, ou não sabe.Se fosse o contrario ia ver que os senhores deputados tem aumento poupudo e mais auxilio paletó, verba de gabinete, e outros caucaus. E ele que gosta de imitar Getulio, ia ser o pai dos pobres, do mesmo jeito que a madame cara nova, é a mãe do PAC. Quando será que vamos ficar livres dessa PETEZADA, em? Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 11/01/2009 Caros amigos, muito obrigado. Espero, e confio mesmo, que apesar de tudo este será um ano melhor, pois muita coisa necessita consêrto imediato, e não pode se prolongar. Então, òtimo 2009 a todos ! Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 11/01/2009 Caro amigo Luiz, parabéns pelo teu belo texto neste início de ano, vamos elevar nossos pensamentos ao Criador e com certeza teremos um excelente ano, no dia 2 fui dar uma circulada pelo centro velho de São Paulo, na esquina da Av. São Luiz com a Ipiranga fechei os olhos e em minha memória vislumbrei o palacete onde ficava o Circolo Italiano, hoje lá esta o Edifício Itália e logo atrás a Vila Normanda, subindo um pouco mais chego à Rua da Consolação, trânsito de veículos quase nenhum, paro na esquina e me lembro da Rádio América e do antigo Cine Teatro Odeon, bons tempos caro Luis, abraços, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 10/01/2009 Se "Apareceu um canário" era poesia pura, esta crônica, caro Saidenberg, encheu-me de melancolia e preocupação, mas vamos torcer para que"as esperanças possam voltar a todos os corações" e...vamos em frente que atrás vem gente, como sentenciava sabiamente meu saudoso nono. Grande abraço.
Mancini
Enviado por Mancini - d-mancini@uol.com.br
Publicado em 10/01/2009 A vida tem o seu ciclo, altos e baixos como uma montanha russa, no final eh so alegria. Enviado por etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 10/01/2009 Em primeiro, digo amém aos seus votos de augúrio e esperança. Em segundo lugar, digo que adoro a cidade vazia. Maravilha: ´poucos carros, trânsito facílimo, chega-se rápido a qualquer lugar. Usufruir, nem que seja por uns dias, dessa tranquilidade (sem trema, atendendo à nova ortografia. Não sei se vou acertar todas). Este é um ótimo período para se rever antigos bairros onde vivemos, passear por todo o centro velho, retornar aos antigos barzinhos e casa de lanche e conhecer o que há de novo.
Contudo, passados alguns dias, desejamos todo o burburinho de volta, porque: São Paulo não pode parar.
Abração e Feliz Ano Novo Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 09/01/2009 Luiz:
Entendo e tambem compartilho de sua preocupação.
Estamos acostumados a pagar os prejuijos do mundo todo sem nenhuma crise image com ela.
Mas como tudo aqui é diferente só nos resta torcer para que a tal crise tenha efeito contrario para nós. É como torcer para o Arapiraca, mas fazer o que?
Um forte abraço. Pantarotte
Enviado por João Eduardo Pantarotte - pantarotte@hotmail.com
Publicado em 08/01/2009 Luiz otimismo amigo vamos ver os pontos positivos como a evolução da medicina e ......

Grande abraço e ótimo ano para você
Marcos Falcon
Enviado por Marcos Falcon - marcosfalcon@uol.com.br
Publicado em 08/01/2009 Luiz, o Marcos mostrou um ponto positivo, eu mais amargo e vivido, mesmo sem querer, te lembro que para enfrentar esta crise, teremos de esperar até Abril, quando nosso AMADERRIMO presidente promulgará a Lei e dará a cada um de nos, velhos e alquebrados aposentados, um aumento de 6% em nossas polpudas aposentadorias, restabelecendo assim o nosso poder de compra. Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
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