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Categoria - Personagens Barkev, um vencedor Autor(a): Antônio Ribeiro - Conheça esse autor
História publicada em 14/01/2009
Em 1915, quando nasceu Dirair Dirairian, aconteceu o genocídio pelo exército otomano de um milhão e meio de armênios. Aos treze anos, Dirair Dirairian fugiu da Armênia e imigrou para o Brasil, em busca de oportunidades e principalmente de paz.

Alguns anos depois, a Armênia fazia parte da recém criada União Soviética, e a nova república soviética era protegida pelo formidável exército vermelho criado por Trotski e dificilmente sofreria nova agressão.

Dirair era diferente de seus patrícios, porque não pretendia fazer fortuna. Desejava somente viver em paz com a família: Meliné, com quem se casara em 1942, e os filhos Barkev e Anahide, nascidos no Brasil em 1944 e 1946, respectivamente.

O imigrante autodidata tinha o hábito de freqüentar os sebos paulistanos à procura de literatura brasileira e gramática de língua portuguesa, e em cinco anos dominava o idioma português, depois de haver lido vários livros.

Não tinha vocação para a indústria ou para o comércio, colocando-se aos serviços de um patrício, estabelecido com pequena fábrica de calçados na Estrada do Chora Menino, atual Alameda Afonso Schimidt, em Santana, São Paulo, onde aperfeiçoou os conhecimentos profissionais, porque até então fora mestre remendão e artesanal no ramo calçadista.

Educou os filhos da melhor forma possível, impedindo que eles esquecessem suas origens. Narrava-lhes em português e armênio, dentre outros, os contos infantis "A nora maldita", "O rei e o camelo" e "O peixe que falava", escritos pelo consagrado Havanês Tumanian, morto em 1923, e sempre que tinha dinheiro presenteava os filhos, já crescidinhos, com diversas obras literárias, dando-lhes formação humanística.

A menina tinha o espírito calmo do pai, enquanto o rapazote vivia inconformado com a situação financeira da família.

Aos dezesseis anos, Barkev foi mascatear, vendendo roupas de porta em porta. De estatura média, possuía avantajado físico, suportando pesada mala. Viajava nos estribos dos bondes e, ágil, descia do veículo ao surgir o cobrador, repetindo a manobra até chegar ao destino. (Raras vezes pagou passagem).

O problema de Barkev era o gasto com alimentação, mas além de irrequieto, o jovem era sagaz.

A modesta moradia, na qual a família vivia, era pródiga em insetos. Barkev muniu-se de algumas baratas vivas e as colocou em um saquinho de papel. Nos restaurantes (escolhia os melhores, propositalmente), pedia ao garçom pratos ensopados. Consumia aproximadamente dois terços da refeição e, ato contínuo, lançava a barata no recipiente, chamava o garçom, reclamando em voz baixa, evitando escândalo. Preocupado, o garçom abortava a polêmica e se socorria do maître, que desonerava o freguês da despesa, após se desculpar mil vezes.

O adolescente vaidoso usava roupa social com gravata borboleta, para que este acessório não caísse nos ensopados. Bem trajado e educado, nunca despertou suspeita.

Havia dois anos, o golpe era aplicado com sucesso. Certo dia, Barkev resolveu almoçar no Restaurante Leão, localizado na Avenida São João, próximo à sede dos Correios, em São Paulo. A casa possuía cardápio com mais ou menos duzentos pratos, quiçá o maior da cidade de São Paulo.

Naquele restaurante, o golpe funcionou três vezes.

O armênio foi sempre atendido pelo garçom calmo e crédulo, Adelino, de origem baiana. Adelino contou a Raimundo, colega de trabalho, que ao freguês da mesa 234 sempre era servida refeição contendo barata, mesmo depois das dedetizações efetuadas no estabelecimento. O garçom cearense disse que na próxima vez iria atender o freguês.

Dito e feito. Raimundo era escolado, calejado e conhecedor de vários truques, alguns aplicados por ele, quando desembarcou em São Paulo, de mala e cuia. Gentilmente, ofereceu ao jovem dose grátis de arak, com a condição de que Barkev se servisse no balcão, situado nos fundos do estabelecimento, a quase cem metros de distância. O armênio aceitou, porque era grátis!

Enquanto o freguês ia servir-se do aperitivo, Raimundo remexeu os bolsos do paletó que Barkev colocou no espaldar da cadeira, descobrindo o saquinho contendo baratas. Substituiu os insetos verdadeiros por outros de plástico, que adquiriu de um camelô.

Barkev empanturrou-se com a dobradinha à moda do Porto.
Acabrunhado com o olhar vigilante do garçom, esperou um momento de distração de Raimundo e, quando este fingiu distrair-se, o jovem apanhou o inseto colocando-o no prato. O mascate chamou o garçom.

O freguês iniciou a costumeira encenação, porém, nervoso, não percebeu que se tratava de barata de plástico. Raimundo, acompanhado do maître, se dirigiu à mesa de Barkev. O garçom retirou a barata de plástico do prato, e admoestou o armênio:

- Que coisa feia e ridícula!
- Um moço bem aparentado, querendo dar este tipo de golpe, com uma barata artificial!

O inseto foi colocado nas mãos de Barkev. Humilhado, o armênio pagou a conta e nunca mais foi àquele restaurante. Deixou de aplicar o golpe.

As despesas com refeições não impediram que nos anos seguintes o imigrante acumulasse fortuna razoável.

Anos depois, Barkev tornou-se industrial do ramo de calçados. A sede de suas empresas está localizada em São Paulo. Inaugurou filial no sul do Brasil e moderníssima fábrica de calçados esportivos em Nova Serrana, Minas Gerais.

e-mail do autor: anthonnyribbwriter@hotmail.com
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Publicado em 15/01/2009 É a famosa Lei de Gerson já imperava. Não compraria um sapato dele. Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 13/01/2009 Prezado Antônio, os calçados da moderníssima fabrica eram de plasticos?abs.Rubens Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 13/01/2009 A barata sai caro ! Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 13/01/2009 Até um certo ponto o Barkev impressionou. Depois foi o o Raimundo. Eta cara bom!. E o Barkev ainda se deu bem!?. Será? Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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