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Categoria - Paisagens e lugares Ora, direis, ouvir estrelas... Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 15/01/2009

Não, não perdi o senso, mas sinto-me culpado. Eu deveria ter voltado a um lugar tão mágico, que tanta impressão me causou, décadas atrás.

Ao soar de uma melodia suave, o sol começava a descer no horizonte da cidade de São Paulo. Era o Angelus, o fim de mais um dia na metrópole, que se achava representada na abóbada circular pelo contorno de seus prédios.

E quando ele se punha no oeste, o céu ficava gradativamente mais escuro, e as primeiras estrelas começavam a brilhar.

Quando a noite atingia seu apogeu, geralmente um ooohhh!!! se ouvia na platéia embevecida. Era a noite paulistana, não real, mas idealizada, livre da poluição e das luzes artificiais.

No centro, uma enorme aranha negra articulada: era o projetor Zeiss, com mil olhos acesos na penumbra, desferindo sua teia de rastros luminosos, que cruzavam-se no teto para formar as estrelas.

O Planetário do Ibirapuera. Quantas vezes fui lá, era tranquilo, quase sem filas. E ao fundo, uma agradável locução comentava a mudança dos astros, as constelações viajando pelo espaço, conforme variavam as estações.

E todos viajávamos juntos, como numa nave estelar. A aranha se movia lentamente, às vezes fixando-se num astro. Próxima parada, a Lua, ou Marte.

E quando o passeio acabava, seu final anunciado pelo raiar de um novo dia, ficava aquele gostinho de quero mais, tenho de voltar aqui, quem sabe agora no verão!

Lembro-me duma vez; um amigo morava na Altino Arantes, e resolvemos ir ao Parque. Descemos a rua. Não havia a 23 de Maio, o Ibirapuera, sem grades, praticamente começava ali. Passamos sob uma ponte, que creio existir até hoje, irreconhecível, e pronto: aquele imenso verde, com as espetaculares estruturas de Niemeyer estava ali, aos nossos pés.

Fomos ao tranquilo Planetário e depois ao Museu de Aeronáutica, nos baixos da atual Oca. Era quase inconcebível ir ao Parque sem ver o Planetário; quase como ir a Roma e não ver o Papa.

Os tempos, os costumes... um belo dia o prédio foi fechado. Disseram que o projetor se desgastara, a construção pedia reformas. E anos e anos se passaram.

O Planetário já se tornara nostalgia, cartão postal meio desbotado.

E então, não mais que de repente, ei-lo reaberto, com novo projetor. O velho Zeiss, a aranhona, possivelmente mofando, atirado às traças, entre as teias das aranhas verdadeiras, nalgum depósito da Prefeitura.

Mas a cidade havia mudado muito; qualquer acontecimento virara megaevento, o que era simples e acessível se tornara problemático.
Demos um tempo antes de retornar lá, esperando talvez que a curiosidade das multidões diminuísse.

Mas não, na última tentativa havia uma imensa fila, e inútil:
só haveria lugares no dia seguinte, domingo. E teriam de ser reservados.

Desistimos. Mas, lá está a abóbada, com sua boca aberta, aguardando nossa volta, pois no seu céu, algum dia, haverá lugar para mais um, mesmo sem ser anjo.

e-mail do autor: lssaidenberg@gmail.com

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Publicado em 27/03/2009 Éh!! vamos olhar para o céu sem tirar o pé da Terra, Planeta que faz parte deste céu, faz parte desta beleza deslumbrante. Enviado por Helena - helena.ap18@hotmail.com
Publicado em 19/01/2009 Luiz, eu me lembro bem da primeira vez que fui ao planetário. Me lembro da surpresa que tive quando vi a constelação "Cabeleira de Berenice". Jamais esquecerei.
Um abraço e até sexta.
Enviado por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com
Publicado em 15/01/2009 Saidemberg, Quem procura encontra. Quem sabe, aqueles adéptos de que, em São Paulo não há o que se ver ou fazer, leiam o teu texto e descubram os tesouros dessa Cidade.
uitas vezes fui lá, como aluno do colégio, com amigos e sozínho. E à turma do "ora", eu digo: adoro ouvir estrêlas... Se não as ouvem, que procurem ofertas, lá na "Vienatone"! Abração- Natale
Enviado por Wilson Natale - wilsonnatale@uol.com.br
Publicado em 15/01/2009 Muito obrigado. E preciso mesmo voltar a ver esse espetáculo. O Céu Pode Esperar...mas não muito, aqui em São Paulo. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 15/01/2009 Saidenberg, só você mesmo para colocar poesia nas ações desta cidade. Parabéns. Pedro Nastri Enviado por Pedro Nastri - p.nastri@yahoo.com.br
Publicado em 15/01/2009 Um poetico texto do Sr. Saidenberg. Gostoso de ler. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.
Publicado em 15/01/2009 Ao contrário dos títulos de filmes... " o céu não pode esperar". Aproveite meu amigo e corra lá para matar a saudades e viver um lindo céu estrelado novamente. Hoje em dia, digo na vida real, temos muita dificuldade de ver esse tipo de coisa novamente. Abração. Enviado por Paulo Fábio Roberto - fabbito@uol.com.br
Publicado em 15/01/2009 Saidenberg, Fico feliz que haja fila para essa desgustação estelar. Sinal que as pessoas aprovaram as reformas.
Parabéns por mais um texto recheado de muita poesia.
Um abraço / Bernadete
Enviado por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@norwan.com.br
Publicado em 14/01/2009 Fui ao planetario uma vez, com a excursao da escola ha muitos anos atras.Me lembro com alguns detalhes, pois fiquei muito impressionada. Texto ao mesmo tempo poetico e informativo. Boa dica, vou voltar la. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 14/01/2009 Mesmo da queixa ou da denúncia o Saidenberg consegue “arrancar” canto e poesia. Ao ler seu magnífico texto veio-me à lembrança estes versos que tomo, com sua permissão, a liberdade de transcrever.

“E no entanto é preciso cantar,
mais do que nunca é preciso cantar,
é preciso cantar e alegrar a cidade...”
(Vinicius e Carlos Lira)

Canto apenas quando dança,
Nos olhos dos que me ouvem, a esperança.”
(Geir Campos)

Parabéns! E o abraço do
Mancini

Mesmo da queixa ou da denúncia o Saidenberg consegue “arrancar” canto e poesia. Ao ler seu magnífico texto veio-me à lembrança estes versos que tomo, com sua licença, a liberdade de transcrevê-los.

“E no entanto é preciso cantar,
mais do que nunca é preciso cantar,
é preciso cantar e alegrar a cidade...”
(Vinicius e Carlos Lira)

Canto apenas quando dança,
Nos olhos dos que me ouvem, a esperança.”
(Geir Campos)

Parabéns! E o abraço do
Mancini
Enviado por Mancini - d-mancini@uol.com.br
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