Leia as Histórias

Categoria - Personagens Conversa de botequim Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 19/02/2009

Quando desci as escadas da editora e entrei no boteco, vi que as coisas já estavam mal paradas.

O Zé estava lá com a turma, e já havia tomado uminha. Mas, para ele, isto já era suficiente.

O ano era 1960, e eu desenhava historias em quadrinhos para a Editora Outubro.

Não ia sempre lá; com mais três amigos, desenhávamos nossas páginas no Martinelli, e íamos, a pé, até a Rua da Mooca, onde ficava a editora, apenas nos dias de entrega dos trabalhos e, coisa feliz, nos de pagamento.

A Outubro era num prédio baixo, que ainda existe, nas proximidades da Rua Luís Gama. Em cima, os escritórios, onde nossos desenhos eram julgados por Cortez e Penteado, sócios e também artistas. No térreo, a gráfica - naqueles tempos as editoras, mesmo pequenas, tinham suas próprias impressoras! Ficávamos olhando, cobiçosos, as operárias, surgindo dentre as máquinas.

E o sócio encarregado das oficinas era o Zé. Filho de lituanos, seu sobrenome era tão incomum quanto ele mesmo. Dois metros de altura, louro e olhos azuis, era magérrimo e muito tímido, de pouquíssimo falar.

Era um anjo de gentileza. Isto quando não tomava a primeira.

E no dia de pagamento, a editora praticamente parava para festejar.

Como escapar da primeira, e de outras que se seguiam?

Quase todos colaboradores apareciam, até os desenhistas cariocas, a eles se ajuntavam os sócios, e toca todo mundo para o boteco. Claro que havia muitos por ali. Lembro-me de dois, um na esquina da Rua Itapira - ainda lá está! - onde os locais juntavam-se ao pessoal, um deles levando um violão e cantando lindamente "Não Chora", como um Silvio Caldas.

O outro ficava pegado à editora, e foi neste que eu entrei, quando o Zé tinha tomado a tal primeira. Aí era tarde: ele não tinha mínima condição de beber nada. Ao primeiro gole se transformava, como um Mr. Hyde. Lá se ia toda sua delicadeza. Tornava-se imediatamente um monstro, um gigante furioso, e queria beber sempre mais.

Os sócios tentavam dissuadi-lo, mas acho que pouco adiantava: não ficava sossegado enquanto não armava uma boa briga. Sou de pouco beber, e não apreciava aquele triste espetáculo, que não sei como terminava - Cortez e Penteado, bem falantes e bons copos, no fim davam um jeitinho nele.

Mas, nem sempre. Certa vez, desafiou um time inteiro de futebol que baixou ali, e no dia seguinte estava muito machucado. Parece que o tal time não estava para brincadeiras, perdeu a esportiva e desceu-lhe a botina.

Uns anos depois, a editora fechou, eu saí do mundo dos quadrinhos para a publicidade e vi o Zé só mais uma vez, num ônibus, com a noiva. Foi em frente a Caetano de Campos, e nos cumprimentamos de longe. Ele parecia perfeitamente sóbrio.

São Paulo mudava rapidamente, com ela minha vida, os amigos, os conhecidos.

Soube que mais tarde ele montou sua própria editora, e sobreviveu ainda um tempo a seus antigos sócios, mas não sei se deu um jeito na bebida.

Agora tudo isto é passado, apenas mais uma história de boteco entre tantos e tantos milhões, que cada um poderia contar.

e-mail do autor: saidenberg@ajato.com.br

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 27/02/2009 Não li a entrevista de Maurício de Souza. Mas foi mais um golpe de marketing, no que ele é gênio, transformar os personagens infantis que lhe deram fama e fortuna, mas estavam decadentes, em jovens heróis de mangá, a moda do momento. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 25/02/2009 Saidenberg, não é conversa de Botequim, ou será? mas, pergunto se chegaste a ler a entrevista do Maurício de Sousa, na Folha de SP,sobre a turma da Mônica, Jovem, oito anos a mais. Aqui, e no caderno Cultura, a Turma da Mônica cresceu! texto escrito por Gisele e Josiele Kaminski Corso doutorandas em literatura na UFSC. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 23/02/2009 Un choram, outros ficam violentos e muitos se tornam malas e que malas!Tin tin Saidenberg!
Abraço,
marcia ovando
Enviado por marcia ovando - marcia.ovando@bol.com.br
Publicado em 22/02/2009 Luiz belo relato.Abraço Adolpho. Enviado por Adolpho Adduci - adolphoadduci@yahoo.com.br
Publicado em 21/02/2009 Saidenberg, uma beleza esta história. Como viajar é obrigatório, imagino você com seus dotes de cartoonista colocando o Zé no contexto de Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Grande abraço. Parabéns. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 21/02/2009 Luiz, veja o que faz a "marvada pinga", tomara que ele tenha saído desta. Parabens pelo texto e um abraço Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 21/02/2009 SAIDENBERG SEU BEBUM É SAIDEBAIXO, GOSTEI PARABENS,

ABRAÇOS
FORTUNATO MONTONE
Enviado por FORTUNATO MONTONE - fortunatomontone@uol.com.br
Publicado em 20/02/2009 "A marvada pinga eh que me atrapaia", assim diz naquela musica, e atrapalha mesmo, nao eh?? Belo texto. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 19/02/2009 Você pensa que cachaça é água????
Cachaça não é água não.
Cachaça vem do alambique,
e água vem do ribeirão....

Luiz em tempos de carnaval sua historia me lembrou desta marchinha....
Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 19/02/2009 Narrativa com forte dosagem de pinga, Luiz. Isso é bom pra relachar mas, se houver abuso, só não é bom pro Zé. Parabéns, Saindenbrg, "te ringrazio con uno bichieri di vino" (agradeço com copo de vinho),
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br