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Categoria - Outras histórias Por onde andará a Shirley? Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 03/05/2009

Quando a gente sai da infância e adolescência, e isso se percebe quando não se pode mais jogar bola descalço, o time do bairro não aceita que se jogue sem chuteiras, na época chamada de chanca, ou então sem camisa.

Quando isso acontece, a gente se acha um homem feito, e é estimulado pelos mais velhos a fazer certas coisas até então proibidas a menores de dezoito anos, como ir ao cinema assistir fitas impróprias a menores dessa idade. Jogar bilhar, fumar cigarros quebra peito, sem tossir, fazer o cinco contra um, e o maior desafio: ir na zona.

Até então, a mente daquela juventude estava voltada ao futebol, jogado na rua, ou no campo, torcendo ou colecionando figurinhas de jogadores. Agora, a cabeça começava a se voltar a namoricos com a vizinha, ou roubar um beijo da prima, às escondidas dos pais e tios. Quando se brincava de pegador, mesmo já na transição para a juventude, quem ficava no pique, ou escondido num pé de goiaba no fundo do quintal, ficava à espera de que aquela garota do seu coração ficasse ali, mesmo que por segundos, para um beijinho ou amasso.

Aí já vinha na cabeça aquela piada do Zé Vasconcelos. Má que futebol que nada!

Já indo a caminho da liberdade, o local para se arrumar umas namoradas era o parque de diversão ou quermesse. Às vezes, quando menos se esperava, surgia do alto falante uma interessada em querer namorar por meio do pedido feito ao alto falante com o envio de uma música dedicada a gente, coisa que era identificada pela roupa que vestíamos, e que era descrito pelo locutor por meio do bilhete da moça ou do rapaz quando queria uma aproximação.

Eu não estava a fim de namorar sério, porque o pai da moça logo chamava a gente para saber se tinha profissão, e se fosse de torneiro mecânico, em seis meses tinha que ficar noivo e casar. Eu queria mesmo era liberdade para paquerar e jogar futebol.

Mas a irmã de um colega de futebol mexeu com minha cabeça logo aos vinte anos, e eu que tinha planejado me casar aos 28. Era a Shirley, uma moça alta, esbelta e de um rosto lindo. Passou ela a ser meu sonho do altar.

Éramos partícipes do mesmo espaço da religião católica, ela como filha de Maria e eu como congregado Mariano, então estávamos sempre próximos e conversávamos muito.

Quando tinha quermesse na nossa paróquia, a pipoca ou o algodão doce era repartido, tanto eu e ela como também os demais moços e moças, cada qual com seus eleitos, e assim os namoricos ou tentativas de namoros iam acontecendo.

Quando não tinha quermesse na Vila Olímpia, tinha no Itaim Bibi, igreja de Santa Tereza, Rua Tabapuã, e a quermesse era feita na igreja nova que estava sendo construída na esquina da Clodomiro Amazonas, ainda a céu aberto.

Foi lá que num domingo tive coragem e falei com a Shirley que estava a fim de tentar a sorte com ela. Afinal, esse negócio de dizer que queria namorar era para trouxa.

Naquele tempo a coisa não se resolvia na hora, tinha que ter paciência e esperar a madame resolver com a cabeça mais fria, afinal, como diziam as mães: Minha filha, você vai dar um passo muito importante na vida. Um passo mal dado, você pode jogar fora sua virgindade, que deveria ser de um único homem que tanto sonhou na vida, e que o casamento acabasse por vontade de Deus.

Então a resposta ficou para o domingo subsequente. Fui dormir aquele domingo com a idéia fixa de que tinha encontrado minha cara metade. Até a segunda-feira era de "céu azul", embora estivesse garoando. Ela ficava em sua casa, pois moça direita e prendada não saia à noite dia de semana, a não ser com a mãe. Eu, no entanto, estava fazendo a ronda das calçadas. E na quarta-feira, em frente a Endoquimica, laboratório farmacêutico, Avenida Santo Amaro, esquina com a Afonso Brás, eu e um colega estávamos saindo do bar do Maluf, onde tínhamos jogado bilhar e comido uns "pastel", já era 22 horas e duas moças passavam do outro lado da avenida, quando o amigo me instigou: - Você que diz que é o tal nas conquistas amorosas, vai bater um papo com aquelas duas e ganhar uma.

E lá fui eu para mostrar ao amigo que era mesmo o tal: - Oi. Posso fazer companhia às moças nessa noite esplendida de céu estrelado? No que respondeu uma delas: - Ué, você não disse que ama a Shirley?

Estava tão desligado que perguntei a ela:

- Que Shirley?

- Aquela para quem você se declarou no domingo na quermesse da igreja de Santa Teresa. Ela é minha companheira de trabalho no laboratório Biosintetica, Rua Quatá, Vila Olímpia.

Pronto, deu zebra, pensei, na certa até o domingo, e tinha ainda quatro dias pela frente, parecia que era um mês de espera.

Quando ele chegou, fui na esperança de poder reverter a situação daquele dia em que dei uma de trouxa. Fui sozinho comendo biju, para quebrar a tensão. A cada estralo que o biju dava era um pouquinho de balsamo que eu ganhava para receber na certa um tremendo esculacho.

Durante a quermesse eu fiquei sem dizer nada a ela, pois qualquer escândalo no meio da turma ia ser um estrago grande na minha reputação, que já não era das melhores.

Quando estávamos de volta, aí sim com toda a turma junto, descendo para a Vila Olímpia, chamei ela de lado e quis saber de sua decisão.

Ela, muito educada, disse que não queria por aquele momento, pois ainda era jovem e seus pais recomendaram que ela deixasse mais à frente esse negócio de namorar firme. Não falou nada a respeito das amigas.

Já a segunda-feira foi diferente da segunda-feira anterior, ela amanheceu com cara de cabo de guarda-chuva, o dia demorou a passar e chegar às 18 horas. Quando deu a hora da Ave Maria, que o cronista do coração, Pedro Geraldo Costa, mandava colocar o copo d´água em cima do rádio para benzer durante a reza do padre Donizéti, eu estava no bar do Fernando tomando umas pingas, curtindo uma tremenda dor de cotovelo.

E, para piorar o ambiente, o rádio tocava uma música de autoria de Lucínio Rodrigues, gravada por Jamelão, cuja letra dizia: Quando nos conhecemos / numa festa que estivemos / nos gostamos / nos juramos / um ao outro ser fiel / depois continuando / nos querendo e nos gostando / nosso amor foi aumentando / qual a torre de babel, e a construção foi indo / foi crescendo / foi subindo / lá no céu quase atingindo / aos domínios do senhor / e agora se aproximando / o nosso maior momento / eis que desentendimento / quer parar o nosso amor / Mas isso eu acredito isso não há de acontecer / porque eu continuo lhe adorando / e hei de arranjar um meio de lhe convencer / que volte meu amor / seu bem está chamando / Por um capricho seu / não há de ser que esta amizade / vai ter esse desfecho tão cruel / que tiveram por que se desentenderam / aqueles que pretenderam / fazer a torre de babel.

Falando com a irmã dela, a Zezé, ela me disse que eu tinha dado uma mancada bem grande. Falei que queria oferecer a música que tinha ouvido no bar, no domingo na quermesse. Zezé, que por ser bem mais velha que eu a tinha como uma irmã, e ela gostava muito de mim como tal. Então me disse: - Mário, não faz isso. A Shirley é de personalidade forte, na certa vai te chamar de babaca. Tentou me ajudar a reconquistá-la, mas sua tentativa foi em vão.

e-mail do autor: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 17/12/2009 Rapaz! A despeito da tua babaquice, admitida, és um escritor, como se dizia, DE PRIMEIRA! Vi-me nas tuas quermesses, ouvindo os sons dos autofalantes, paquerando... Aliás, até, fui locutor de um desses serviços... BELEZA! Enviado por Joás Dias de Lima (Jodil) - jodil2009@gmail.com.br
Publicado em 08/03/2009 O mais nobre é reconhecer "escorregadas" com essa e seguir em frente. Bela narrativa, Mario. Parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 06/03/2009 Mario\; Apesar de tudo não senti a menor pena de voce porque tenho a certeza de que depois dela vieram muitas outras. Mas é assim mesmo, aquelas que escaparam de nossas maos são sempre as que mais relembramos. Um abraço.Pantarotte Enviado por João Eduardo Pantarotte - pantarotte@hotmail.com
Publicado em 06/03/2009 Onde andará Shirley; Mariazinha; A professorinha que me ensinou o beaba´; Rosinha, Minha Canoa; Leda; Wanda; Leni; Inês; Maria Teresa; A Garota da Motocicleta, de Paris; onde andaremos nós todos ??? Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 05/03/2009 Lopomo: Iteressante e agradável narrativa. O mundo social e socializante das paróquias, nos tempos em que as pessoas estavam interessadas em conhecer pessoas. "Minha riqueza se mede pelos amigos que tenho." Lembra?... E a Shirley é uma lembrança dos tempos em que os nossos corações eram aventureiros. Abração, Natale. Enviado por Wilson Natale - wilsonnatal@uol.com.br
Publicado em 05/03/2009 Mário, pensando bem, que sorte a Shirley teve... risos. Um abraço. asciudeme Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 05/03/2009 Onde andará Mariazinha- meu primeiro amor, onde andará ? Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 05/03/2009 Lopommo, bela história, porém, rasguei a Cronica,Mario...O Homem que sabia escolher as mulhres.(rsrs).Rubens Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 05/03/2009 Mario, belo este momento de amor de sua vida. A Shirley...tomara que se encontre feliz!
Um beijo amigo.
Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 05/03/2009 Querido Lopomo,que mancada! Me lembrei de um namorado meu que deu a mesma... Depois eu conto! Enviado por lygia - lymarsouz@live.co.uk
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