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Categoria - Outras histórias Reflexos da Segunda Guerra Mundial em meu Cotidiano - 1939-1945 Autor(a): Neuza Guerreiro de Carvalho - Conheça esse autor
História publicada em 13/04/2006
O texto foi organizado com vivências do período de guerra, complementado com pesquisas principalmente do livro Guerra Sem Guerra de Roney Cytrynowicz.

Vivi o período de "guerra" no meu período de curso ginasial. Entre 1939 e 1945, eu tinha nove e 15 anos, já idade suficiente para sentir as interferências. E foram exatamente como estão comentadas. As que foram mais significativas e sentidas no cotidiano da população aconteceram em 1944, depois da entrada do Brasil na guerra, com a escassez de alimentos, de combustível, nas mudanças da situação da mulher, da falta de troco, com o problema da especulação e inflação. Senti na pele o problema com imigrantes que afetou relacionamentos antigos. E vivi o preparo da cidade para a defesa de ataques que nunca aconteceram.
Por isso, ao lado das minhas vivencias, pesquisei mais e aqui está o resultado.
Escassez de alimentos - Em 1944 a produção de trigo no Brasil, foi a menor entre 39 e 46. Havia escassez de farinha no mercado interno não só pela menor produção, mas também porque o país exportava seu trigo. A falta de farinha provocou em conseqüência a falta de pão.
Então, o governo federal lançou o "pão de guerra", integral, mais barato do que o feito com farinha comum. Para baratear a produção aumentou-se a extração da moagem do trigo, de 70% para 80 a 85%, aproveitando-se parte dos envoltórios da semente e do germe.(o atual e preferido "pão integral"). O pão feito com essa farinha era escuro e foi rejeitado pelo povo, que o chamava de pão de pobre. Segundo Jorge Americano, o pão era duro, com gosto de milho misturado com areia.
Faltava farinha e pão, mas havia macarrão (às vezes importado da Argentina), e a grande maioria das donas de casa fazia o "pão de macarrão", e este sim, ficou conhecido como "pão de guerra". Sua receita era simples: 500g de macarrão, dois ovos batidos, 20g de fermento fresco dissolvido em leite morno, uma xícara de açúcar, uma colher de chá de sal, duas colheres de manteiga ou banha.
Faltou também açúcar e tentou-se substituí-lo pelo açúcar mascavo (chamado de "sujo"). Em novembro de 1944 a quota de açúcar havia baixado de 1kg para 750g por pessoa. Em dezembro, para o Natal a quota foi aumentada para 1,5kg, mas ainda faltaram as frutas típicas, nozes, avelãs, amêndoas. A falta de açúcar foi também responsável pela proibição , em 3 de fevereiro de 1943, feita pela Comissão de Abastecimento do Estado, que proibia aos estabelecimentos que vendessem café em xícaras, deixassem açucareiros no balcão.
Faltou ainda leite e carne.
Conseqüência da falta de pão, carne, açúcar... foi o aparecimento das primeiras "filas" (demorou um pouco para serem aceitas pelo povo) que se formavam, impondo uma disciplina. Eram uma organização de massas e estas sim traziam para a cidade a sensação de guerra.

Falta de gasolina - Objeto de desejo de pobre e de rico, o automóvel em 1943 representava um ícone de ascensão social e objeto de consumo mais cobiçado, e quando começou a faltar de gasolina, a criatividade levou ao aparecimento do gasogênio , um equipamento movido a carvão vegetal (chamado gás pobre).. Eram equipamento anti estéticos, vistos como grotescos, tubos estranhos, colocados atrás do automóvel. O gás de carvão queimado reduzia em 50% a potência do motor do automóvel. Exigia mais manutenção porque os ductos entupiam facilmente com os produtos secundários da combustão. Sujavam o ar e o usuário.
No final de 1943 havia na cidade de São Paulo 7352 veículos movidos a gasogênio e a maioria de carros particulares porque o diesel e a gasolina eram prioridade de caminhões e ônibus. A indústria de gasogênio fabricou em dois anos 15 a 20 mil aparelhos.
Em pleno ano de 1944, realizou-se no autódromo de Interlagos (inaugurado em 1940) o I Prêmio São Paulo de Automobilismo com a vitória de Chico Landi. Os carros correram movidos a gasogênio e os automobilistas foram considerados heróis pela contribuição ao esforço de guerra brasileiro.
Apesar do gasogênio, diminuiu muito o número de automóveis na cidade, em 1944. Suas ruas ficaram limpas de automóveis que ficavam mais nas garagens (carros de luxo, Lincolns, Packards de até 3m de comprimento) ou em barracões (Fords e Chevrolets).

Falta de Troco - Um dos tormentos cotidianos da cidade de São Paulo nessa época, embora não diretamente ligado à guerra, era a falta de troco. Desde 1939 faltavam moedas, mas em 1944 a situação se complicou mais. Na falta de moedas alguns especuladores as recolhiam e vendiam aos comerciantes com ágio. Pessoas diziam que as moedas eram derretidas para fazer chaves e berloques, porque o valor real era menor que o valor metal.
A falta de moeda divisionária levou ao aparecimento de especialistas na agiotagem do troco. Circulavam vales, caixas de fósforo, passes da Light, selos do correio, como troco, e os arredondamentos de contas eram sempre para mais. Era tão grande a escassez do troco que a posse do dinheiro não era condição de compra. Era preciso ter dinheiro trocado.O jornal Correio Paulistano em 1944 promoveu uma campanha contra o inocente hábito infantil dos cofrinhos, que segundo eles, acumulavam muitas moedas.

Especulação e Inflação (começou por aí, já na década de 40)- A escassez de pão, carne, açúcar... fez nascer uma classe de intermediários aproveitadores que especulavam com os preços, explorando o povo, sonegando produtos para elevar os preços. O custo de vida em São Paulo subiu 110% entre 1939 e 1944. Entre 1942 e 1945 os preços subiram 75%, e considerando todos os anos de guerra a alimentação subiu 400%.
A especulação em São Paulo significou falta de produtos, preços majorados e todo tipo de pequenos golpes contra os consumidores. Retenção de estoques obrigava o povo a adquirir alimentos no chamado "câmbio negro"
Os especuladores e inflacionadores de preços aproveitando-se da guerra na Europa criaram uma situação que era atribuída à guerra em São Paulo. Na verdade, a alta de preços não tinha nenhum motivo baseado na guerra.
Alem da especulação de preços, havia a adulteração de produtos essenciais e o leite era acintosamente misturado com água nas próprias usinas. O tabelamento e controle de preços pouco adiantava e eram sempre burlados.

Para aliviar a escassez, o governo procurou incentivar a industrialização.
As Influência da situação de guerra na mulher paulistana.
A mobilização apelava para as mulheres, desde trabalhadoras, classe média ou elite, principalmente como enfermeiras, A enfermagem como profissão e as enfermeiras como modelo profissional para as mulheres de classe média, ocuparam importante lugar na mobilização da frente interna durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Em 1944 foram enviadas para a Itália 67 enfermeiras brasileiras junto com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) e com a FAB (Força Aérea Brasileira), sendo oito enfermeiras profissionais e o restante eram samaritanas, (que tinham feito curso de um ano), e voluntárias socorristas (curso de três meses, voltado pra situações de guerra).

Problemas com os Imigrantes - Dos imigrantes que viviam na cidade de São Paulo, italianos, alemães e japoneses, de um modo geral exigia-se durante a guerra, em caso de viagem, um salvo conduto obrigatório renovável a cada viagem.
A maior proibição para os italianos foi falar italiano em público, o ensino da língua pra menores de 14 anos e confisco de bens. Para depósitos inferiores a 10 contos, 10% eram transferidos ao Banco do Brasil e para os depósitos superiores a 100 contos, o confisco chegava a 30%. Foi imposta a obrigatoriedade da mudança de nomes de instituições. Por exemplo, o nome do clube esportivo Palestra Itália foi mudado para Sociedade Esportiva Palmeiras. Exigência cumpridas.
Mas, os italianos não sofreram perseguição aberta.
Já no caso dos alemães, somando-se a propaganda nazista e descoberta de uma rede de espionagem, as ações foram mais intensas. Eram vistos como o "perigo alemão", seus bancos nacionalizados (Banco Alemão Transatlântico e Banco Germânico da América do Sul) e foi obrigatória a mudança de nome de entidades, mas não se pode falar em perseguição aberta.
Há histórias de campos de internação de alemães no interior do Estado, mas sem registro de maus tratos físicos aos 244 tripulantes do navio alemão Winduck, que ficaram presos em Pindamonhangaba e Guaratinguetá, junto com a tripulação de um navio italiano.
Já em relação aos imigrantes japoneses (chamados de "amarelos") as atitudes do povo e dos poderes constituídos foram completamente diferentes. Foram intensamente atingido com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. A proibição do ensino da língua em escolas e jornais em japonês, foi o seu suicídio espiritual. Isso quebrou a espinha dorsal da comunidade japonesa.
Com o ataque a Pearl Harbor (Estados Unidos) em dezembro de 1941, os Estados Unidos entram efetivamente na guerra e o Brasil rompe relações com o Japão em 29 de janeiro de 1942. Imediatamente começaram as perseguições aos japoneses da cidade de São Paulo, já concentrados na região da Liberdade. Em fevereiro foram congelados seus bens. Moradores das ruas Conde de Sarzedas e Estudantes receberam ordem de deixar o local em 10 dias, mas ainda permaneceram até setembro, quando foi emitida nova ordem.
A polícia revistou casas das redondezas da rua Conde de Sarzedas a procura de documentação incriminatória, mas se aproveitando para levar rádios, dinheiro.
A idéia disseminada era que todo japonês era um inimigo, um quinta coluna e que as costas brasileiras estariam infestadas de japoneses disfarçados em pescadores, que forneceriam informações a submarinos que estariam rondando as costas brasileiras. Mas, jamais se encontrou qualquer evidência de espionagem ou sabotagem.
Essa repressão intensificou-se quando o Brasil envolveu-se militarmente com a guerra (1944) e em abril desse ano plantações de hortelã (menta) e galpões de criação de bicho da seda, de propriedade de imigrantes japoneses, foram destruídos no interior de São Paulo. A hortelã intensificava o poder de descarga das armas de fogo, aumentava a capacidade de penetração do gás tóxico e era um componente importante na refrigeração de motores de alta velocidade. A seda era empregada na confecção de pára-quedas. A destruição foi feita por japoneses fanáticos, nacionalistas, na defesa do Japão e contrários à venda da hortelã e seda pra países aliados e usados na produção militar.
A organização terrorista Shindo Renmei (A Gestapo japonesa) surgida no pós guerra, a partir de 1945, tinha como vítimas principais japoneses que acreditavam na derrota ou pessoas que esclareciam a população japonesa.

Nós perdemos muitos amigos por causa dessa perseguição Meus tios do lado paterno eram italianos e sentimos com eles todo o problema. Amigos alemães forma definitivamente descartados porque a simples companhia deles fazia o governo suspeitar da gente. Dos japoneses só sabíamos pelas notícias.
Preparativos de Defesa - além dos cursos de defesa, cartilhas, etc., a paranóia de ataques aéreos sobre a cidade, alimentado pela propaganda política do governo, levou a procedimentos impares na cidade. Corria na cidade, naquele ano de 44, que submarinos alemães rondavam o litoral de Santos e pequenos helicópteros bombardeiros decolariam desses submarinos para bombardear a cidade.
Um dos procedimentos adotados foi o exercício de Black Out, que pouca memória coletiva deixaram. Os exercícios de Black Out serviam como preparativos para enfrentar esse improváveis bombardeios. Na tarde do exercício moças voluntárias da Defesa Civil percorriam a cidade com lanternas na mão. Às 9 horas da noite assobiavam as sirenes, apagava-se a iluminação pública das ruas e das casas, desligavam-se os faróis dos carros, os bondes paravam e a cidade ficava silenciosa, só se ouvindo o barulho de aviões que fiscalizavam a escuridão.
Esse período de escuridão visto de um ponto de vista mais ameno, propiciava ao paulistano a oportunidade de ver o céu e se a noite era estrelada, as pessoas saiam de casa pra apreciar um céu para o qual nunca olhavam.
Ao lado desses exercícios de black out corriam preparativos para suportar um imaginário ataque aéreo: projetos de abrigos anti aéreos e treinamento no uso de máscaras contra gases nocivos.
Depois de agosto de 1945, quando, ainda durante a 2ª Guerra Mundial, os americanos atiraram sobre Hiroshima e Nagasaki as primeiras bombas atômicas, segui-se uma série de experiências atômicas, agora não mais secretas. Eram feitas no Atol de Bikini e eram amplamente noticiadas nos jornais e rádios. Mas, as notícias que nos chegavam não eram completas. Ninguém (do povo) sabia direito que energia era essa e só se dizia que ela se propagava em cadeia, e que não se sabia ainda como controlar essa reação. Os jornais sensacionalistas exploravam bem o assunto. Só sei que, em um desses testes, anunciava-se que a reação poderia não ser controlada e o mundo poderia acabar. Ainda consigo memorizar o "sufoco" que todos passamos, seguindo no rádio, minuto a minuto, segundo a segundo, a explosão, que foi em um domingo às 20 horas. Toda a população, a minha família inclusive, estava apavorada esperando o fim do mundo, que felizmente não aconteceu.
Essa foi a Segunda Grande Guerra para mim.


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Publicado em 28/09/2012 Nasci em 1938 no Brás, História real tempos difíceis. Parabéns por registrar estes momentos. Enviado por manoel linares pretel - pr.manoel.linares.pretel@hotmail.com
Publicado em 16/03/2012 muito bacana o seu depoimento,fiquei emocionado, nasci em dezembro de 44 minha mãe sempre falou do racionamento de alimentos. Enviado por waldir jose luciano - waldir.luciano@hotmail.com
Publicado em 09/07/2010 Maravilha de texto. Foi, realmente, uma época triste da história mundial e ^suas consequências no nosso país. Nessa época, meu avô, Major Luiz Valio,havia sido nomeado prefeito em São Miguel Arcanjo. O povo, até hoje, principalmente os adversários dele, guardam extremo ódio por ele, pelo racionamento do açúcar e a população não entendia o porquê, concluindo que ele é que era o carrasco. Enviado por luiza de jesus valio - trombettivalio@itelefonica.com.br
Publicado em 09/07/2010 Maravilha de texto. Foi, realmente, uma época triste da história mundial e ^suas consequências no nosso país. Nessa época, meu avô, Major Luiz Valio,havia sido nomeado prefeito em São Miguel Arcanjo. O povo, até hoje, principalmente os adversários dele, guardam extremo ódio por ele, pelo racionamento do açúcar e a população não entendia o porquê, concluindo que ele é que era o carrasco. Enviado por luiza de jesus valio - trombettivalio@itelefonica.com.br
Publicado em 29/06/2010 Olá Neusa, estou escrevendo um romance contando a vida da minha Mãe que nasceu em 1940, pude enriquecê-lo com os dados encontrados no seu artigo. Parabéns, seu trabalho será eternizado, daqui a 200 anos ainda vai ter pessoas lendo e elogiando. Enviado por Dirceu - dirceu@escolaprojetec.com.br
Publicado em 28/04/2010 Gostei de ler é uma história um acontecimento real. Eu tinha seis anos, quando junto com minha mãe me encontrava de madrugada na fila, para comprar o pão. A lembrança que ficou, foi dos soldados da cavalaria nos impressionando contra a parede para formar a fila antes do estbelecimento ser aberto. Enviado por Marice Palmyra Cordeiro - marice.Palmyra@hotmail.com
Publicado em 29/04/2009 por muito legal eu e minha amiga adoramos esses comentarios e estamos fazendo um trabalho sobre eles Enviado por hellem e rena - hellem_gatinha380@hotmail.com
Publicado em 10/11/2008 Noooooossa... máoh zoação, esse texto aí tá supimpa! Falow, Beijos mãe, saudades da Bahia! Enviado por Supimpa - supimpa_da.silva@yahoo.com.br
Publicado em 03/11/2008 eu e a minha amiga Evelyn achamos que ta massa...! Enviado por alexandra - alexandra_melechenko@hotmail.com
Publicado em 01/11/2008 Ficou Otimo seu documentario meu filho tem 9 anos e adorou Enviado por katia - kaizape@Gmail.com