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Categoria - Outras histórias Sapato marrom e o milagre Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 15/05/2009

Ela morava no prédio em frente á minha casa, na Aclimação. Era filha única, dona de um guarda roupa fabuloso que nos enchia de inveja. Não era minha amiga, mas gostava de me convidar para visitá-la, com o intuito de mostrar suas roupas, sapatos e objetos de enfeite, olhando bem no meu rosto para ver o efeito que tais coisas faziam para uma menina pobre como eu, que só possuía um sapato.

E o pior é que eu sentia mesmo a diferença das nossas posses. Meus pais eram pobres. Meu pai sempre foi muito trabalhador, mas o dinheiro não era suficiente para uma família com quatro pessoas. Minha mãe nem sonhava em trabalhar fora, isso não se fazia em famílias de bem naquele tempo. A mãe era ‘do lar’, lavando roupa no tanque, passando, costurando, tomando conta das crianças, e o pai, sim, era quem saía cedinho para ganhar o pão. Consequência de um salário só e bem pequeno era o meu único sapato marrom, que me servia para a escola, para brincar na rua, até para ir a igreja. Fiquei até com apelido de ‘sapato marrom’ ali na rua Nilo. Acho que até hoje alguém ainda se lembraria da menina do sapato marrom. Só quem teve um apelido assim como criança sabe a dor que isso significa.

E ainda vinha a Silvaninha abrindo seu largo guarda roupa para exibir dezenas de sapatinhos coloridos, saias e blusas combinando, vestidos que eu só vira antes na vitrine da Sears, ou seu quarto cheio de belezas, um abajur com pompons, uma caixinha cor de rosa cheia de fivelas e prendedores de cabelo,colarzinhos, brinquinhos...

Eu não possuía nada disso. Tinha três vestidos, três bonecas, um sapato já bem velhinho, muito consertado, meio caído para um lado em conseqüência do meu pé chato. Coisas bonitas enfeitando o quarto não tinha, mas meu pai jamais deixou que faltassem livros, os quais ele comprava quase que semanalmente, onde pudesse achá-los, novos se fossem baratos, mas também de segunda mão. Tínhamos livros em tudo quanto era canto da casa, eles foram o meu tesouro quando criança e só hoje sei que eram muito mais valiosos do que todos os tesouros da Silvaninha, pois tinham o poder de me transportar para outras terras e outras épocas e me fazerem conhecer o pensamento de homens e mulheres que de outro modo jamais conheceria.

Mas naquele tempo eu ainda não sabia disso da maneira que sei hoje, Eu queria ser como a Silvaninha, queria também ter vestidos vaporosos, sapatos com laços em cima, um quarto impressionante. Minha realidade era porem bem outra. O sapato marrom sempre me esperava á porta de casa.

Chegou o dia do aniversário da minha melhor amiga e minha mãe conseguiu comprar um vestido vermelho para que eu usasse na festa. Que felicidade ter aquele vestido! Porem, um probleminha... vou ter que usar o sapato marrom, não vou? O dinheiro não havia chegado para um sapato novo.

Três da tarde, eu prontinha para a festa. Vestido novo, cabelo lavado, pés no chão na sala de casa, tentando apagar o sapato marrom da minha cabeça. E aí, falei com Deus assim, do meu jeito de menina, pedindo socorro, pedindo em desespero um sapato, qualquer coisa que combinasse com o lindo vestido vermelho.

Quatro e pouco, hora de ir para a festa. Peguei o presentinho e fui me aproximando do sapato marrom, do inevitável sapato marrom. De repente, a campainha toca e minha tia Aurea entra pela casa á dentro como sempre, sem esperar que alguém abra a porta, carregando uma caixa. “Isso é pra você”, ela me diz. “Passei pelas Casas Eduardo e fiquei com muita vontade de comprar uma sandália para você”.

Abro a caixa, coração batendo forte. Dentro, uma sandália vermelha, do meu número, do meu gosto. Coloco nos pés e saio correndo, quase voando. Deus existe e Ele cuida de mim!

Essa foi a única vez que minha tia me deu um sapato. Outros presentes, sim, mas uma sandália e exatamente como eu queria, nunca mais.

Aquela foi de encomenda. Eu a encomendei de Deus.

e-mail do autor: lymms7@hotmail.com

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Publicado em 19/05/2009 A Bernadete lembrou bem da música da Evinha: Eu vou voltar aos velhos tempos de mim, vestir de novo o meu sapato marrom....
Adorável a sua história querida Lygia.
A propósito, hoje qual a sua cor preferida de calçado?
Abração
Enviado por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com
Publicado em 19/05/2009 Que linda crônica, Lygia. Você mesma concluiu hoje que sua riqueza foi bem maior do que a da Silvaninha. Sabe, acho que vou pedir sua intermediação para falar com Deus. Você tem prestígio junto a Ele.
Abração, Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 18/05/2009 Lygia, vc. tem razão, num momento imperdoável de extemporânea manifestação, fui um juiz severo demais na extrutura de sua bela dissertação. Esqueci completamente que vc. escreve no passado e as reações devem corresponder as da mesma época e eu, aqui e agora, com idade pra ser seu avô (da Lygia da época) fazendo uma apreciação totalmente distorcida. Criança que não inveja outra criança, não é criança. Me perdoa e um forte abraço.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 18/05/2009 Lygia,peço permissão para aplaudir o nosso amavel Modesto.Confesso que fiquei surpreso com o 1º comentario (15.05).Depois lí a sua resposta e agora o novo comentário do Modesto e,diante de sua explicação e um comovente "me perdoa", confirma o quê penso do Laruccia, meu querido você é NOBRE, MUITO NOBRE. Abraços (Marco Antonio (Marcolino) Enviado por Marco Antonio (Marcolino) - advancedtop@uol.com.br
Publicado em 18/05/2009 Lygia, adorei sua historia! Nossos anjinhos estão sempre intercedendo à Deus, a nosso favor. Você mereceu, por isso ganhou o que mais queria naquele momento.Parabéns e um grande beijo. Enviado por margarida pedroso peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 17/05/2009 Sra. Lígia, o nosso anjo da guarda procura dar uma assopradinha no ouvido de quem pode ouvir e no seu caso, foi a Tia Áurea. Deus cuida de quem abre seu coração à Êle. Parabéns. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 17/05/2009 Bela historia, Lygia.Esses problemas de infância marcam mesmo a gente.Como meus sapatos de adolescente não eram nemhuma maravilha, quando pude, passei a ter do bom e do melhor em calçados... Enviado por Luiz Simões - saidebberg@ajato.com.br
Publicado em 17/05/2009 Nem sempre o querer é sinônimo de poder. Voce teve a sua pobreza material mas, tinha a riqueza cultural com os livros que seu pai adquiria. Cresceu a menina pobre e tornou-se a rica mulher em valores culturais, com um patrimônio inalienável e que podem lhe calçar os pés com quantos sapatos quiser. Mesmo que sejam marrons. Enviado por nelson de assis - nel.som55@yahoo.com.br
Publicado em 17/05/2009 Queridos Modesto e Paulo Fabio,estou contando o que realmente aconteceu,como eu vi a situação com os meus olhos de 10 anos, como me doía a Silvaninha me esnobando dia após dia. Hoje não tenho dó de mim sobre este fato, isto está no passado, no entanto isso doi para uma criança. Os livros não eram jogados,não...eram encapados, guardados, relidos, temos todos até hoje.E acredito que Deus mesmo tenha ouvido, não um Deus exoterico 'eu superior',mas o Deus verdadeiro a quem amo até hoje. Enviado por lygia - lymms7@hotmail.com
Publicado em 17/05/2009 Tudo que se pede com o coração parece que chega mais rápido aos ouvidos de Deus. Ainda mais, quando o pedido vem de uma criança. Linda história. Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com