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Categoria - Personagens O cofre do tio Dudu Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 03/06/2009

Tio Dudu era o mais velho dos quatro irmãos do meu pai. Com a meia idade tornou-se excêntrico e passava muito tempo sozinho na chácara da Cantareira, tendo sido abandonado pela mulher, talvez pelas próprias excentricidades. Não sei se por preguiça ou por não saber cozinhar, suas refeições constituiam-se de leite Ninho e pão. O leite Ninho ele comprava às dúzias.

Lembro-me bem de certa ocasião em que ele apareceu lá em casa, na Aclimação, óculos de aro fino, cabelo muito liso empastado de brilhantina, carregando vários pacotes de papel pardo amarrados com barbante, pedindo ao meu pai que guardasse os tais pacotes até que ele pudesse vir buscá-los. Minha mãe colocou tudo no fundo da cristaleira e ali ficaram por mais de um ano sem que tio Dudu aparecesse de novo.

Nossa curiosidade estava já aguçada para saber o que o tio Dudu guardava dentro daquilo. Nós crianças começamos a furar os pacotes devagarzinho, um dedinho aqui, outro ali, até que conseguimos rasgar um pouco mais e vimos que era... dinheiro!

Chamamos minha mãe, que chamou meu pai, os pacotes foram colocados na mesa da cozinha e abertos, um por um. Todos continham dinheiro, maços e maços de notas de um, cinco e dez cruzeiros. Meu irmão se impressionou com a quantidade e mencionou que não sabia que o tio Dudu tinha tanto dinheiro, e o meu pai:

- “Pena que essas notas todas já perderam o valor que tinham quando ele trouxe aqui!”

Nós não entendemos muito bem como dinheiro podia perder o valor. Tudo foi embrulhado de novo e um dia o tio Dudu apareceu para pegar suas notas, que já não valiam muito mais do que dinheiro de mentirinha do Banco Imobiliário. Ele até nos deu um punhado pra gente brincar. Ainda é um mistério para mim por que meu tio deixou tanto dinheiro perder o valor. Ele era um homem culto, que havia cursado advocacia, um dos meus tios favoritos, alegre e bondoso, e sempre preparado a pregar peças nos outros. Mas desta vez quem levou a pior foi ele mesmo.

Bom, vamos ao cofre.

A família toda sabia que tio Dudu guardava um cofre de aço na chacrinha da Cantareira. Corria a lenda que ele realmente tinha muito dinheiro e não gostava de gastar, portanto o dinheiro todo deveria estar dentro do cofre. Os outros irmãos acreditavam também que ele guardava joias e até barras de ouro. Tio Dudu ficou muito doente, e, quando já estava para morrer, chamou um dos irmãos e disse que podiam dividir o que estava dentro do cofre assim que ele se fosse.

Quando ele morreu, os irmãos deixaram passar uns dias, por respeito, e num fim de semana resolveram se reunir na chácara para abrir o cofre.

Sem quererem parecer muito ansiosos, tio Fabio, tio Julio e tia Dora rumaram para a chácara, levando uma das minhas primas junto, a qual me contou a saga. O cofre era enorme, dando a ideia de que havia ali muita coisa boa guardada. Infelizmente o cofre só poderia ser aberto usando uma combinação de números, a qual ninguém sabia e tio Dudu não informara ninguém a respeito.

Os três irmãos, então, passaram a tarde tentando combinar números de datas conhecidas, aniversários, datas de casamentos, mas nada abria o cofre. Discutiram, brigaram e se cansaram no processo, mas o cofre não divulgava o seu segredo. Resolveram então arrastar o cofre para fora da casa, onde, com mais espaço disponível, atacaram a fechadura com uma picareta. Minha tia Dora, em frustração, até bateu no cofre com um galho de árvore. Alguém chutou o cofre em puro desespero.

Como já estava anoitecendo, resolveram empurrar o cofre para dentro novamente. Como era muito pesado, eles suavam muito e falavam coisas que não vou repetir aqui. Minha prima, que na época tinha quinze anos, disse que jamais viu coisa igual e que foi mesmo muito engraçado.

Tendo colocado o cofre no lugar certo novamente, resolveram tomar um café antes de voltar para casa. Minha tia então procura o açúcar no armário da cozinha e, abrindo o açucareiro (que estava vazio), ela vê um papelzinho lá no fundo... com uns números... A COMBINAÇÃO DO COFRE!!!

O café foi esquecido, os três em volta do cofre esperando o clique da abertura. Finalmente!

Quando a porta pesada se abriu, lá dentro só um envelope que foi agarrado e aberto com sofreguidão.

Tio Dudu havia deixado uma mensagem. Dizia apenas:

“Queridos irmãos. Espero que você tenham se divertido”.

O dinheiro e a barra de ouro ele havia posto num banco desta vez. Ele havia aprendido a lição quando os pacotes de dinheiro perderam o valor.

Quem recebeu sua herança foi sua filha Gladys. Meus tios não viram nem a cor do dinheiro do tio Dudu.

e-mail do autor: lymms7@hotmail.com

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Publicado em 18/06/2009 Cara Lygia.
Sua narrativa e conteúdo excelentes.
O cofre de sua história não serão os cofres da vida? Queremos sempre abrí-los para verificar o que la contém e nem (quase) sempre é aquilo que almejamos.A vida é isso.
Ótima sua narrativa.
Parabéns.Fábio
Enviado por Fábio Belviso - fabio.belviso@ig.com.br
Publicado em 10/06/2009 Lygia, como sempre, seus textos nos cativam. Meu marido também teve um tio Dudu, comentado num dos relatos do Lopomo. Abraços. mirça Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 07/06/2009 Mórbida herança deixada pelo tio Dudu, com apelos de pura gosação. Lygia, vc. diz que ele era bom, culto e gostava muito de brincar e no fim deixou tudo pra filha, só pra ela. Ela é filha, tudo bem mas... deixa pra lá. Começo a falar e depois...
Parabéns, Bradnick, texto respeitoso bem elaborado mas, que dá raiva ahhh... isso dá.
(desculpe a brincadeira)
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 05/06/2009 Muito obrigado, Lygia, por poucos minutos vc. me fez reviver a minha leitura predileta, na mocidade: Mistério Magasine, do Ellery Queen, a melhor e mais bem cuidada das revistas de mistérios, crimes e novelas policiais. Sua narrativa, um pouco mais alongada e com ingredientes ficcionais, daria uma novela e tanto. Parabéns, Bradnick.
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 03/06/2009 Poxa, muito boa estória essa! Enviado por Alexandre - frankfromhell@hotmail.com
Publicado em 03/06/2009 Lygia, conheço algumas dessas histórias. E elas, parece-me estão ligadas às desconfianças que os antigos tinham com relação aos bancos e aos traumas de guerra. Aqui na Mooca um senhor que morava num cortiço, quando morreu, tinha o colchão repleto de Réis, no tempo em que o Cruzeiro saia do Valor Recebido, para o Legal.Pessoas como ele não levaram o dinheiro no caixões, mas deixaram de herança histórias hilárias. Abração, Natale. Enviado por Wilson Natale - wilsonnatal@hotmail.com.br
Publicado em 03/06/2009 Lygia, muito boa essa do seu Tio, ele devia ser um gosador de primeira. Conte essa para os "ingleses ouvirem" Parabéns. Um abraço. asciudeme Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 03/06/2009 Lygia,seu texto é interessante e divertido. Digno de um folhetim.
Um abraço
Enviado por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@norwan.com.br
Publicado em 03/06/2009 Lygia, seu Tio Dudu, era de fato um numismata...nos "idos anos", tinha muita gente que "colecionava" moedas. Hoje garanto que este "dinheiro velho", valeria muitos reais...
LOPOMO... a sua historia do cofre do bairro de Santa Tereza, (inclusive no valôr em dolares) é igual ao assalto à casa da amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros, que se chamava Ana Capriglioni, onde os chamados "GUERRILHEIROS" levaram à cabo o plano da sra.DILMA ROUSSEFF e marido. Abração-Flavio
Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 03/06/2009 Lygia:Seu tio não passava de um grande gozador. Tenho certeza de que todas essas armações eram feitas de proposito. Ele sendo um advogado jamais deixaria cédulas envelhecerem a ponto de perder o valor.Prova disso é que ele comprava ouro e guardava em banco. Até o tal pacotinho que havia deixado em sua casa foi uma brincadeira. Um abraço.Pantarotte Enviado por João Eduardo Pantarotte - pantarotte@hotmail.com
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