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Categoria - Personagens Rua Mayrink Autor(a): Lygia Martins de Souza - Conheça esse autor
História publicada em 13/07/2009
Eu tinha uns dezoito anos quando fomos morar na Rua Mayrink, na Vila Mariana. Saímos da Aclimação, pois a casa ficara muito pequena para a família, e meu pai então alugou o último andar de um predinho cor de rosa que até hoje está ali, ao lado da Sena Madureira.

Para chegarmos a nossa casa precisávamos subir dois lances de escada, mas o apartamento era espaçoso, apesar de antigo, tendo uma enorme sala de visita dividida em duas partes por um arco e quatro quartos, dos quais dois ficaram sendo meus, um como quarto de dormir e outro como um escritorinho, com um tapete azul escuro uma escrivaninha colonial e minha estante de livros.

Eu me sentia a própria com dois quartos só para mim! Meu irmão escolhera o quarto dos fundos, com uma porta para um terracinho, porém era apenas um quarto, quando eu tinha dois! Que luxo para uma menina que sempre fora pobre.

Arrumei os meus ‘aposentos’ da melhor maneira possível, ali estudava para o vestibular e lia muitos livros do meu interesse. À noite, porém, era difícil dormir com o barulho dos carros na Sena Madureira e as minhas cortinas brancas ficaram logo cinzentas com a fumaça do trânsito. Logo percebi que meu irmão levara a melhor! Especialmente quando a japonesa que morava no apartamento de baixo resolveu abrir um negócio e colocou um enorme anúncio em neon em sua janela, que faiscava a noite toda sua luz azul dentro do meu quarto!

Ali nesta casa tive o primeiro dos meus namorados sérios, o Nelsinho.

Ele era irmão de duas amigas minhas e, de repente, se apaixonou por mim. Levei tudo na brincadeira no início, mas depois de um pouco estava caidinha por ele. Ele passava todo o tempo livre em minha casa (quase todo o tempo dele era livre), comendo tudo o que achava na geladeira, para o horror da minha mãe que estava sempre perguntando: ’Onde está o requeijão que eu comprei hoje?’ ou ‘Quem comeu o presunto?’, sabendo muito bem quem fora. O namoro só durou uns meses, o Nelsinho foi viajar com um grupo e ali começou a namorar a Leila, para o alívio da minha mãe e a minha tristeza por meio ano, até que aparecesse o André.

No tempo da rua Mayrink também arranjei meu primeiro emprego, como professora recém formada, na Escola Americana de Mirandópolis. Adorava minha classe de crianças de oito anos e nunca me esqueci do que comprei com o primeiro salário: um disco de vinil de tema de novela do qual só me lembro pedacinhos: ‘...procurei o meu par, só desgosto e pesar, encontrei, onde anda o meu rei que me deixa tão só por aí, e de tanto procurar, me perdi’... Gastei o primeiro salário inteirinho no mesmo dia, com o tal disco, sapatos, uma saia e várias blusas. Ah, que tempo bom.

Ali na rua Mayrink levei também o segundo namorado sério, André, que iria em breve para a Inglaterra estudar e é responsável por eu ter vindo atrás dele para esta terra distante e fria, deixando minha querida São Paulo, erro que não cometeria duas vezes se tivesse minha vida de novo. Não me casei com o André, o relacionamento morreu no aeroporto de Heathrow, em Londres, quando ele não veio me buscar como havíamos combinado. Permaneci em Londres por dois anos, voltei casada (com outro) e residi no Brasil novamente por uns anos, mas hoje ainda estou na Europa. Para minha grande tristeza.

Voltando ao assunto, na rua Mayrink eu fui feliz. Tinha meus pais comigo, meu irmão adolescente que sempre foi muito meu amigo, meus estudos e trabalho, e meus dois quartinhos de tapete azul. Tinha meus sonhos de mocinha, meus namoradinhos e amigas que estavam sempre comigo, Marina, Albana, Dora, Érica, Daisy, Cleide.

Tempo bom que não volta mais.

e-mail do autor: lymms7@hotmail.com E-mail: lymms7@hotmail.com
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Publicado em 12/07/2009 Como quase ex-vizinhos, confesso que gostei muito dos seus textos e das lembranças que as ruas e "points" que você citou me trouxeram à mente. "Next tea time... remeber and think of me"!!! Enviado por PAULO FÁBIO ROBERTO - fabbito@uol.com.br
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