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Categoria - Paisagens e lugares Turismo sexual Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 15/07/2009

São Paulo também teve seu turismo sexual. Havia o alto e baixo turismo. Até o início dos anos 1950 tínhamos a zona do meretrício ali pelos lados do Bom Retiro. Eram casas pequenas geminadas nas ruas Itaboca e Aimorés. Tudo muito organizado, com médicos fazendo exames nas mulheres toda semana como prevenção contra doenças venéreas.

Ali era terra de todos, era o chamado vai quem quer. Histórias mil.

O meretrício teve seu início na Rua Itaboca, quando foram retiradas as mulheres da Rua Timbiras, no centro da cidade, sendo elas levadas mais à frente. Isso ainda na década dos anos 1930, já ao seu final. O interventor era Ademar de Barros e o prefeito Prestes Maia. Tudo foi feito em uma madrugada, sem aviso prévio aos residentes e muito menos às prostitutas, que foram levadas em camburões, muitas das quais nuas, e atiradas ali. Na década de 50, no governo de Lucas Nogueira Garcez, a zona do meretrício já se estendia até a Ribeiro de Lima e as prostitutas foram novamente expulsas. As casas foram fechadas e ficaram vazias. Ninguém queria morar numa rua de "má fama", além de barulhenta. Os preços dos imóveis ficaram baixíssimos e foram comprados por pequenos industriais e comerciantes, que deram a Rua Aimorés e a ex. Itaboca. Prof. Cezaro Lombroso a sua fisionomia de hoje, sem conseguir apagar sua história. (trecho pesquisado)

Sem um lugar fixo para confinamento ficaram aquelas mulheres espalhadas pelas ruas da cidade à mercê "dos protetores", que nada mais eram os chamados cafetões.

Moças bonitas, feias, mais ou menos disputavam o seu "homem do amor". E aí, loirinho, quer fazer nenê? Quanto é o lance? Quer com teta ou sem teta? Eram perguntas e respostas, antes de definir o preço. De qualquer forma ali se vivia em boa harmonia. É verdade que às vezes tinha um arranca rabo. Era um cafetão que metia a mão na cara de uma mulher que não pagava a taxa de proteção. Era a mulher de alguém que ficou sabendo que seu marido não passava de um Gabiru, que tirava da boca dos filhos para dar às putas. Era a gritaria de mulher desesperada, a fim de capar o dito cujo. Mas sempre tem os estraga prazeres, e um dia a zona acabou. Dizem os remanescentes da época que foram os padres que fizeram de tudo para acabar com aquela pouca vergonha das ruas, Aimorés e Itaboca. Onde se viu ter um uma comunidade do pecado, era os comentários das carolas, que enchiam os ouvidos dos padres.

Quem tinha dinheiro ia ao Lalicorne no lado oposto da boca do lixo. Ali era a chamada boca do luxo. O fundador da casa, em 1965, e por muito tempo foi do senhor Hercilio Paiva, e sobreviveu até 1991, quando faleceu dona Laura Garcia, que seu Henrique conheceu numa delegacia. Dona Laura guardava os vestidos que comprou numa viagem feita a Paris, onde gastou 180 mil dólares em roupas. A maior parte para vestir as moças da casa. O Lalicorne era conhecido até demais principalmente pelos estrangeiros, pois mal colocavam os pés no chão tinha alguém pegando-o pelo braço e levando para o Lalicorni.

Com o seu charme e o charme de suas mulheres encantaram-se personalidades como o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, o então presidente do Chile Eduardo Frei, o piloto Niki Lauda, o cantor Julio Iglesias e uma comitiva da ex-primeira ministra Indira Gandhi.

Era também frequentado por altas autoridades Civis, Militares e criticado pelas autoridades Eclesiásticas. Até um famoso delegado do tempo da ditadura ia lá sempre. Sua mesa estava sempre à disposição com uma garrafa de Uisque 12 anos totalmente grátis, oferta da casa pelos "bons serviços prestados". Onde tem um delegado, como aquele, existe paz e harmonia em seu interior. Os preços eram de amargar. A garrafa de uísque 12 anos custava R$ 320, uma de 21 anos, R$ 1.200. (Lalicorne - trecho pesquisado)

Um amigo meu, sem muita grana um dia foi lá (aliás, muita gente tinha essa vontade, ou curiosidade). Disse ele: era uma boate caríssima, e frequentada somente por "altas autoridades" (inclusive deputados e delegados de polícia), que tinham "consumação franca". Lembro-me que ali só fui uma vez, para conhecê-la... assim esperei o "pay day" (dia do pagamento) no Laboratório Farmacêutico que trabalhava e nos fins dos ano 60 (mais ou menos em 68/69), eu já casado há uns 15 anos fui com um colega (propagandistas na época) até a tal boate da "elite" (como chamavam), ali na rua Major Sertorio, quase na esquina daquela praça (se não me engano Praça Dr. Vila Nova). Ficamos no máximo meia hora, pois não tínhamos "bala" para ali ficar... Só sei que a maioria das "garotas" que ali frequentavam (sem os pais saberem) eram estudantes do Colégio Mackenzie, que fica ali nas imediações, e muitas pagavam o colégio graças às “saídas" com "figurões" da época. Não era um prostíbulo e sim um local de "encontros", para depois saírem para os hotéis, com a autorização do "dono do negócio", que tinha participação também nos tais encontros, fora a consumação no local.

Já mais próximo à estação da Luz tinha o quadrilátero do pecado, formado pelas avenidas Duque de Caxias, Avenida Rio Branco e São João. Pelo interior dessas avenidas uma ramificação de ruas paralelas e transversais. Ao lado da Avenida São João tinha Praça da República, e do lado oposto o Largo do Arouche, que era frequentado tanto por prostitutas e homossexuais.

Na boca do lixo algumas ruas se destacavam: a Victoria, Aurora, Timbiras e Andradas. Tinham as que preferiam ficar no interior dos apartamentos, e outras fazendo o trottoir pelas ruas. Essas eram consideradas rampeiras, andavam mal vestidas, até sujas. Já as internas recebiam homens cativos, que botavam fé que indo com elas estavam livres de doenças. À noite aquelas ruas fervilhavam de homens à cata de alguma para "trocar o óleo".

Eu e alguns amigos íamos "molhar o pescoço" no sexto andar do número 69 da Rua dos Andradas. Um apartamento onde só entrava pessoas recomendadas por alguém que lá tinha ido. A cafetina, dona Carmem, uma mulher de seus 40 e poucos anos, que tinha seu homem fixo, portanto não mercadejava o corpo, era um tremendo mulherão cobiçado por todos. Mas ali era lamber com a testa e chupar o dedo. Era uma mulher que impunha respeito, coordenava a casa com muita simpatia e educação, que junto com seus belos atributos enfeitiçava mais ainda os homens. Parece que quanto mais difícil a coisa mais tesão se sente. Mas todos se continham, apesar de olhar para ela sempre com a mão no bolso. A frequência era sempre de homens de quarenta a cinquenta anos, segundo línguas mal casados, viúvos e separados. Jovens assíduos frequentadores eram eu, o Antonio, que por ser bonito era chamado de Belo Antonio, título de um filme italiano.

Já as consortes eram Sheila, uma loira, cabelos longos, alta, esbelta, de corpo bem definido, e que antes da transa gostava de mexer com um baralho comum. Quando tirava um Az, ficava bastante alegre. Às vezes a gente tinha que falar pra ela ir logo, antes que a coisa molhava antes da hora. Já Rosinha era gordinha, mas muito bonitinha e alegre. Carmem uma morena linda de seus 35 anos, tinha um jeito de dona de casa, que estava fazendo aquilo pela primeira vez, ou constrangida por estar chifrando o marido, apesar de ser veterana de cama.

Quando não íamos ao nosso habitat ficávamos vendo o movimento das ruas, pois sempre tinha algo que formava fortes emoções. O que tinha de briga por lá era uma festa. Faca, canivete e garrafa de cerveja quebrada no balcão para riscar a cara de alguém, tinha quase sempre quando lá estávamos. Mulher puxava gilete, quando uma delas colocava uma gilete por entre os dedos sai fora, porque a cara de alguém ficava cortada. Quando a briga envolvia bichanas a gilete também aparecia. Um dia, eu e o Tonho estávamos chegando na Rua dos Andradas vimos uma multidão olhando para cima. Falei: Tonhão, encrenca à vista. Mas não era encrenca, nada. Era uma linda japonesa que estava na sacada de um prédio e na rua um monte de babacas, olhando e babando. Naquele tempo corria um papo que as orientais tinham a vagina atravessada.

Outro lugar muito frequentado por prostitutas era o restaurante dançante Atlântico, Avenida Ipiranga, nos baixos do prédio, onde se localizava a sede administrativa do São Paulo F.C., e o escritório comercial da rádio Bandeirantes. Local preferido pela mais linda prostituta da cidade de São Paulo, Ângela Boneca, que misturada às mulheres que iam com os maridos não parecia ser uma prostituta, pela beleza, por estar muito bem vestida e pela discrição.

Não muito longe dali tinha outro ponto onde muitas iniciantes davam seus primeiros passos para ginástica na cama. Era o salão de baile Avenida Danças. Um salão diferente onde você não pagava ingresso para entrar. Mas pagava para dançar. Ao entrar a gente recebia um cartão com vários quadriculados, em que eram picotados os minutos dançados. Cada picote era um minuto. Caso fosse beber algo com uma bailarina, os minutos eram também picotados. Era um local onde muitas moças se escondiam dos pais, que pensavam que as filhas trabalhavam à noite. Na verdade elas trabalhavam, mas não do jeito que eles, os pais, pensavam. Era o caso de Sandra. Uma garota difícil de acreditar que tinha 18 anos. Nuns passos com ela na pista de dança perguntei se o pai dela sabia onde ela estava, e a resposta foi rápida: Lógico que sabe. Na Santa Casa de Misericórdia, onde "trabalho" de enfermeira.

Sandra saia às quatro da manhã e não ia para casa, sempre ia para o hotel com alguém para ganhar algo a mais, do que a comissão das danças e bebidas que ela incentivava os homens beber. As, vezes, tinha que obrigatoriamente ir com o cafetão que lhe tirava um pouco do que ganhava.

Em outros salões de baile, aí somente pagando o ingresso, também tinham belas mulheres para se esquentar debaixo dos lençois "bem lavados dos hotéis". Aí a despesa era somente pagar o hotel, que era muito vigiado pela polícia civil. Um hotel barra limpa era o Hotel Rialto, na Rua da Consolação, próximo à biblioteca. Dica de uma prostituta que tinha transado com um delegado que não saía de lá.

Cartola Clube, Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, Som de Cristal, Rego Freitas, e o Badaró, Rua 24 de Maio eram bailes que rendiam boas coisas. Tinha também aqueles que gostavam de tomar o Bola Branca e ir até o bairro do Socorro no salão de bailes Vila Shofia, Avenida de Pinedo.

Anteriormente o salão Vila Shofia era um cassino de jogos, no tempo em que o jogo era liberado, e que foi proibido pelo presidente Eurico Gaspar Dutra em 1946.

A desvantagem do Vila Shofia era que naquele bairro não tinha hotel naquele tempo, então as transas eram realizadas no mato, o chamado hotel das estrelas. Também não era bom gastar dinheiro com aquelas mulheres, porque além de velhas, cada uma mais feia do que a outra. E com uma maquiagem bastante grossa. O que elas tinham de bom é que dançavam maravilhosamente. Para quem queria aprender ou se aprimorar, o endereço era o Vila Shofia.

Mas voltando ao centro da cidade, um dia vi uma mulher de seus 35 anos numa loja de calçados, olhando vitrine. Pensei: É por aqui que eu vou. Fiquei surpreso com a facilidade com que o papo se iniciou e foi em frente. Quando dei por mim estava em seu apartamento na Avenida São João, em cima do cine Regina. Era o seu mocó. Somente aí que o trouxa aqui percebeu que se tratava de uma prostituta. Coisa difícil de acontecer comigo. Mas sempre tem uma primeira vez. Acho que estava embriagado pela beleza da mulher. Também tem uma coisa: era uma prostituta diferente. Bem falante, usava o português escorreito, era amável, com fisionomia feliz, diferente da maioria com cara de choro e reclamando muito da vida.

Papo vai, papo vem, um drinque, um bolero na vitrola e a festa teve início. Por incrível que pareça não teve transa. A figura estava mais a fim de conversar, e numa dessa não gastei meu rico dinheirinho. Nessa conversa ela foi dizendo que estava com o saco cheio daquela vida, estava mais a fim de se arrumar com alguém, pois já estava com o pé de meia feito. Apartamento de sua propriedade e outras cositas mais.

As visitas a ela, Maria Lucia, eram frequentes. Não trabalhava mais à noite. Numa quinta feira ela me convidou para assistir uma fita. Estava louca para assistir Doutor Jivago, estava passando no cine Metro, na mesma avenida em que morava.

Marcamos para o sábado dois dias após. Dias que custaram a passar. Em meu pensamento.

Murmurando, nossa como demora a passar o dia. Com é linda aquela mulher. Quando o sábado já era noite e a seção das oito se aproximava, bati na porta de seu apartamento, eis que surge ela, com um vestido azul turquesa, gola em V, numa estampa de fazer inveja a qualquer passante de ambos os sexos.

Não andamos cem metros e três homens nos cercam e um deles diz a mim: - Terceira delegacia com licença. Pronto, o sonho de uma semana foi por água abaixo.

Na segunda feira fui procurá-la, e ela rindo foi dizendo que não ficou mais de quinze minutos na delegacia. Tirou da bolsa um "alvará de funcionamento", assinado por Adhemar de Barros. É lógico que ela não passava de mais uma cupincha do ex-prefeito, e que mais tarde se tornaria governador pela terceira vez.

e-mail do autor: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 14/10/2012 Muito interessante. Me mudei recentemente para o centro da cidade, na rua guaianases, e meu interesse por assuntos referentes a este ambiente tão sobrepostos por temporalidades me levou a ler este seu texto... Isso só me estimulou a escrever mais sobre essas novas vivencias que venho tendo e percebendo no centro... (Obs: li seu texto com o google earth aberto.. rs)... Abraço Enviado por Ronaldo - kirilauskas@gmail.com
Publicado em 05/02/2012 Amigo Lopomo,você conheceu a Marcia do Atlntico,
abraços.
Enviado por antonio pinto alves - antonio.palves@yahoo.com.br
Publicado em 11/07/2011 Curtei muito. Na decada de 60 frequentei um apartamento na São João com a Duque de Caxias, a proprietaria era d. Vanda, Vc conheceu... Lindas garotas.... Enviado por Carlos - cebrc@ig.com.br
Publicado em 24/08/2009 Que saudades da Rua Aurora,meu 1 salario como infantil do corinthians foi gasto la eu e mais alguns amigos que aqui não vou citar o nome porque as mulhers poderam pegar corda.Eta tempo bom. Enviado por jose carlos passos - passos45@bol.com.br
Publicado em 20/07/2009 Não conheci, mas dizem que nas décadas de 10, 20 e 30, era famosa a mansão de Maria Polaca (no início do século 20, as mais famosas prostututas eram importadas da Europa)na rua Itaboca. Será que alguém poderia confirmar? Abração. Enviado por PAULO FÁBIO ROBERTO - fabbito@uol.com.br
Publicado em 19/07/2009 Puxa vida, que viagem. Fui em muitos desses lugares. Se Edson Leite fosse vivo, falaria assim para o Mario : Magistral narrativa !
Queria lembrar momentos engraçados do Avenida Danças. Um amigo dançou 15 minutos com a dançarina e foi para a mesa. A dançarina entregou o cartão para o "picotador" assinalar os furos do tempo dançado.
E ela voltou com 45 minutos "furados" ou picotados no cartão. Meu amigo levantou e falou uma pérola para o picotador: Você é um cafetão de furo!
Abs
Enviado por gilberto maluf - azermaluf@yahoo.com.br
Publicado em 19/07/2009 Mário : Voce revelou-se, foi um emérito navegador da noite paulistana dos anos 50/60. Um dancing que não foi lembrado foi o Maravilhoso, onde havia música ao vivo,se não me engano, orquestra do Tobias, do trombone. Outro dancing antigo era o Salão Verde, na rua São Bento ao lado do Martinelli. Na Av.São João havia um cabaré, mais ou menos de fronte onde hoje é o Bar
Brahma, me parece que se chamava Copacabana, com entrada proibida a menores de 21 anos. Vc esqueceu das primas da Carmo Cintra.EMP
Enviado por expedito marques pereira - marquespereira75@gmail.com
Publicado em 15/07/2009 Prof.M.Lopomo, excelente texto, do profícuo narrador historiador,uma verdadeira nênia às prostitutas.Belos tempos....belos dias. Supressão dos Catecismos do Carlos Zéfiro.Soldos para Quinzinho ou Hiroito. Redução da quiromania.Vaselina esterilizada. Tetrex para curar blenorragia e Neocid pra “chatos”.Seu admirador.Rubens Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 15/07/2009 Caro Lopomo. Há tempos venho lendo seus textos e admirandoos. Este aqui é surpreendente e delicioso! Como não falar dessas "primas" que fizeram a alegria de tantos rapazes virgens e que foram as professoras na arte do sexo para muitos pais de família de hoje.
Abraços do admirador.
Enviado por Rodrigo Ruiz - rodericus1974@gmail.com
Publicado em 15/07/2009 Mário. creio que vou perder o meu grande amigo virtual. Mas vou entregar; O SAIDENBERG, gastava todo o salário dele no La Licorne (era solteiro) e sempre que lá chegava era a alegria das jovens estudantes. risos. asciudeme Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
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