Leia as Histórias

Categoria - Paisagens e lugares Câmera virtual Autor(a): Lygia Martins de Souza - Conheça esse autor
História publicada em 04/08/2009
Quando fiquei sabendo que a 25 de março tinha câmeras que mostravam todo o movimento da rua pela Internet, imediatamente entrei no site e dei um bom passeio pela minha rua preferida. Foi emocionante descobrir que da minha casa na Europa eu podia ver as lojas de tecido na esquina com a Ladeira Porto Geral e o homem estátua que se posta na outra esquina, os carrinhos carregados de papelão no fim do dia e as barracas dos camelôs, se bem que um pouco distantes. Nos dias de chuva ficava daqui olhando a multidão embaixo dos guarda-chuvas, as calçadas brilhando na quase noite, alguém atravessando a rua rumo ao metrô, carregando sacolas e pacotes. Quem seriam essas pessoas? Jamais poderiam pensar que alguém do outro lado do mundo, uma paulistana, estava acompanhando seu andar pelas ruas de São Paulo por meio da Internet, apenas por saudade de uma cidade que também é minha e de um povo que também é meu.

Chegando em São Paulo no ano passado tive uma ideia: marquei com a minha filha dia e hora para que ela entrasse no site aqui no País de Gales e me visse em frente a uma certa loja na região da 25 que as cameras pegam bem claramente. Para ter certeza de ser vista, disse que ia usar vermelho e que ia acenar. As coisas que a gente faz para aparecer na Internet! Achei que ia ser uma brincadeira interessante.

No dia marcado lá fui eu para a 25 de metrô e, como ainda era cedo, andei de cá pra lá comprando bugigangas, como sempre faço. Localizei a câmera, já estava quase na hora. Podia imaginar a minha filha entrando no site e procurando ver a sua mãe de camiseta vermelha, toda feliz, num dos lugares que mais amo no mundo - no meio da confusão, das cores, cheiros e compras da 25 de Março.

Enquanto ainda tentava comprar mais algum badulaque dos camelôs (adoro colares com conchinhas, transfers para camisetas, pacotes de brincos, seis por 4 reais), o tempo começou a mudar e notei que o céu estava preto! Era chuva que vinha, e chuva brava. Plásticos foram colocados sobre as banquinhas, algumas foram rapidamente desmontadas e começou a correria para fugir da chuva. Um raio cortou o céu de São Paulo, um trovão se seguiu e a chuva despencou sobre nós todos, compradores e vendedores, todos correndo para todo lado, uma confusão digna da 25.

Parei na entrada de uma loja para me esconder da chuva. Olhei meu relógio, eram cinco para as quatro, o horário marcado com a minha filha era quatro horas da tarde no Brasil, uma hora em Gales. Não podia desapontá-la. Saí correndo dali, tentando passar depressa por entre a multidão que tambem corria, e fui ficar em frente da tal loja de onde a Deborah poderia me ver. A chuva era um verdadeiro dilúvio. Raios e trovões cortavam o ar. Quatro horas, eu de pé no meio da água, vestida de vermelho vivo, acenando com os dois braços em direção à camera no alto do prédio em frente. Ainda bem que em São Paulo ninguém liga para as esquisitices dos outros.

A chuva inundou parte da rua. Um carro da polícia fazia a travessia dos passantes que se agarravam do lado de fora do carro e eram depositados na outra calçada. A parte mais baixa da enchente era atravessada a pé, calças arregaçadas e calçado na mão. Todo mundo parecia pra mim estar de bom humor, achando graça na situação. Fiquei algum tempo dentro de uma outra loja com várias outras pessoas esperando o pior da chuva passar, a conversa ia animada e só faltou o cafezinho. Povo bom o povo paulistano!

À noite telefonei para a minha filha para saber se tinha me visto pela câmera.

“Olha, mãe”, ela me disse, “não deu pra ver nadinha. Choveu?”

Se choveu!

Decepção. Ainda apareço na Internet.

e-mail da autora: lymms7@hotmail.com E-mail: lymms7@hotmail.com
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 21/04/2013 quiria ver Enviado por ryan - rianrabelo@hotmail.com.br
Publicado em 08/08/2009 Situacao hilaria. Curiosa que sou, vasculhei a Internet e achei o tal site da 25 de marco ao vivo. Inventa-se de tudo nao eh??? Enviado por Etel - ebussbuss@gmail.com
Publicado em 05/08/2009 Que pena, Lygia, falta de sorte, mesmo. Gostaria de ver vc., de baixo de um temporal, acenando com os dois braços, pra quem...? É como vc. diz, nesta cidade tem de tudo. Hilariante e, ao mesmo tempo, muitíssimo bem redigida, com detalhes gostosos de se ler. Parabéns, querida.
laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 05/08/2009 Ah! Lygia, só você mesma... Fico imaginando a cena. Abração amiga. Enviado por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com
Publicado em 04/08/2009 0la Lygia...A sua idéia foi muito boa. Mas quem é que esperava uma chuva daquela justamente naquela hora... Fica para o proximo passeio na 25 de março.........
Luiz Garcia
Enviado por Luiz Gonzaga Simoes Garcia - gonzagagarcia@ig.com.br
Publicado em 04/08/2009 Porque voce não deixou para se expor no 'five o clock tea'? Esse horário britânco é muito respeitado e até São Jorge desce de seu cavalo e posso até arriscar que a chuvarada paulistana não demorou mais do que cinquenta minutos. Não foi?
Hilária narrativa. Abraços, Nelson.
Enviado por nelson de assis - nel.som55@yahoo.com.br
Publicado em 04/08/2009 Lygia, a Yvone ficou curiosa. Se por acaso você ainda tiver o site, informe por favor. Mas que chuva fora de hora, não? Um abraço. asciudeme Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 04/08/2009 Lygia, da próxima vez fique sempre perto de um camelô, pois nos vários "pegas" que os guardas dão neles, num deles vc aparece na tv. Se ser sorte, num noticiário da Globo. Mais fácil de ser vista no mundo todo. Nem chuva impede essas matérias. Abraços. Valeu a aventura. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 03/08/2009 Que azar, hem, Lygia: estava na sua rua paulistana favorita, ia ser filmada para a Europa, mas São Pedro resolveu não colaborar com São Paulo...abraço. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 03/08/2009 Sra.Martins de Souza, o bom velhinho S.Pedro abriu as torneiras e não concedeu a aparição de uma Lygia midiática; conforme a quantidade da precipitação é perigoso aparecer noutra mídia sendo resgatada pelo bote do Corpo de Bombeiros. Saúde! Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
« Anterior 1 2 Próxima »