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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Bexiga em que vivi, um Bexiga real Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 08/09/2009

Tenho lido muitas narrativas sobre o Bexiga aqui neste. São declarações de amor pelo bairro, nomes de pessoas aparentemente ilustres que, evidentemente, fizeram parte da vida dos autores e tudo fazendo acreditar que a Bela Vista era o paraíso sobre a terra. Mas as coisas eram assim mesmo, da maneira como são narradas? Será que eram?
Eu morei na rua Ruy Barbosa, 468, esquina com a rua Fortaleza, num cortiço que alugava quartos, até 1951, quando nos mudamos para a Vila Clementino, para uma casa de verdade que tinha um quintal enorme e cheio de árvores além de uma nascente de água cristalina. Pela primeira vez tive meu próprio quarto, pela primeira vez pude ter um cachorro, o Tenente, filho da Lelêta, uma cadela extremamente promíscua que pertencia a uma vizinha.
Mas voltemos ao Bexiga real, que é este meu intuito. Meu pai mudou-se para o bairro em 1930, vindo de um lugarejo do interior do Estado chamado Conceição do Monte Alegre. Lutou na Revolução de 32, foi lixeiro, pedreiro, carregador de sacolas de madames, entre outros serviços absolutamente braçais, já naqueles "felizes tempos" não havia empregos disponíveis para a juventude, assim como não os há hoje em dia. Sobreviveu precariamente até entrar para o serviço público estadual como telegrafista da radiopatrulha, o que terminou por afastá-lo do bairro e da cidade de São Paulo. Só voltou, já casado, em 1944, minha mãe com 22, 23 anos e eu com meus 4 mal vividos. Lógico que fomos morar no Bexiga que era um bairro de locações baratas, cheio de vilas e cortiços, muita pobreza digna e alguns poucos remediados que viviam na rua dos Ingleses, na Major Diogo e na parte da 13 de Maio que ia da Fortaleza até a Pça. Osvaldo Cruz, já no bairro do Paraíso. Lembro-me perfeitamente do frio, das pessoas que morriam asfixiadas por monóxido de carbono proveniente de fogões de carvão acesos nos quartos, lembro-me da falta de água, da falta de carvão para cozinhar, lembro-me da falta de comida, das filas para tudo, do racionamento na época da guerra, do preconceito contra negros e brancos pobres que eram maioria no bairro, lembro-me da falta de vagas nas escolas, lembro-me do choro nos velórios por morte pela tuberculose, sarampo e outras doenças, os velórios feitos nos quartos de cortiços e nos porões infectos do bairro.
As deslocações para o centro eram feitas a pé - idas e vindas -, as passagens do bonde custando 200 réis, o preço de meio filão de pão. Portanto, entre tomar o bonde e comer, melhor comer. Nas sextas-feiras havia a feira livre na rua Fortaleza, dia em que se comia um pouco melhor pois se aproveitava a hora da xepa para se comprar alguns produtos à tostão.
Peço minhas desculpas por escrever esse texto tão chato e negativo; é óbvio que eu gostaria de ter morado neste bairro de sonho das narrações dos outros autores, teria sido maravilhoso sem dúvida, mas por mais que me esforce não vejo paralelo entre o "meu Bexiga" e o Bexiga dos outros, e bem que eu queria!
Ah, sim! Ia me esquecendo: meu pai morreu em 1960, aos 48 anos de idade e terminou seus dias como encarregado do serviço de rádio do Palácio do Governo e chefe da estação de rádio da Vasp no aeroporto de Congonhas.
Falava fluentemente 3 idiomas e estudou até o fim de sua vida. Era conhecido pelos telegrafistas do Brasil todo como "o Professor". Apesar de tudo, sempre gostou do Bexiga, malgrado todas as dificuldades pelas quais passamos no bairro.

e-mail do autor: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 04/11/2011 Interessantíssimo o seu depoimento. De muito valor porque considera as dificuldades vividas como parte da experiência humana. Preciso de autorização formal para utilizar trechos em materiais didáticos para jovens, em estudos sobre a cidade de São Paulo? Agradeço se me responder! Enviado por Ronilde Rocha Machado - ronilderm@terra.com.br
Publicado em 11/01/2010 Sr.Ignacio gostei muito do seu texto e não achei chato e negativo, pelo contrario.E saiba que até hoje vivem pessoas no Bexiga precariamente nos cortiços e outras situações barra-pesada.Obrigado pela sua "bela" estória. Enviado por marino - betuscamarino@hotmail.com
Publicado em 13/12/2009 Apesar da pobreza,cortiços e diversidade circundante,o bairro criou uma história de vida repleta de cultura,tradição,eventos memoráveis e locais que guardam sua memória. Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 12/12/2009 Senhor Inácio,eu sei as dificuldades que todos nós passamos,todos os lugares que voçe for ve bem tem as suas crises,eu sou nascido em guarulhos mas eu sou descedente de italiano eu penso assim que o bairro do bixiga se voçe for ve bem não é tanto assim o povo do bixiga é um povo carismático e muito poéta bixiga é um bairro que é o pedacinho da italia é um bairro acolhedor,vamos falar coisas boas possitivas,para poder atrair coisas gostosas eu sei o quanto que voçe passou. Enviado por Robson Lazzarini - robson.belfast@hotmail.com
Publicado em 06/10/2009 caro Ignacio,

É realmente uma pena que sua memória tenha retido apenas, pelo seu relato, aspectos negativos do bairro. Creio que todas as experiências vividas por nós, seres humanos, sejam polares, ou seja, tenham visões, qualidades, características negativas e positivas. Resta-nos escolher quais queremos levar conosco.

Um grande abraço,

Ivan
Enviado por Ivan Tadeu de Moraes - ivan.tadeu@usmoema.com.br
Publicado em 14/09/2009 Prezado Joaquim,muito interessante e triste esta tua passagem pelo Bixiga.
O que me chamou atenção foi a tua narrativa sobre o teu pai,pela tua descrição acho que o teu pai foi colega de trabalho do meu,pois trabalhou até se aposentar como radiotelegrafista no Palacio do Governo quando ainda nos Campos Elisios,e eu me lembro quando papai ainda vivo,faleceu no ano de 2000 com 87 anos que tinha um colega e amigo seu trabalhava na Vasp.
O nome do meu pai É Arnaldo Grassmann.

Um abraço
Enviado por Guilherme Grassmann - grassmann@vivax.com.br
Publicado em 12/09/2009 Caro Ignacio. O que relatamos sobre o Bexiga são lembranças verdadeiras e felizes. Adoro esse Bairro e me desculpe, mas pobreza e riqueza, existem em todos os bairros, em todas as cidades e em todo o mundo. Acredito também que esse site deva levar aos leitores, leituras alegres e positivas, pois o mundo já têm violência e tristeza demais que podem ser vistas em outros sites. Desculpe, mas minhas lembranças nada se parecem com as suas, portanto, não poderia falar de algo que não vivi. Enviado por Nanci A Giannotti - nancigiannotti@ig.com.br
Publicado em 09/09/2009 o velho bexiga,
ver o bexiga, e depois morrer.
Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 08/09/2009 Correção: eu quiz dizer "...numa cidade com um colorário de..." Perdoem.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
Publicado em 08/09/2009 Ignacio, seja lá o que for que você tem nas suas lembranças que aqui tão bem descreveu. O importante é tudo retrata a verdade, meus parabéns.Um abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
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