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Categoria - Personagens Um cangaceiro na Neurologia do HC Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 22/09/2009

Vamos deixar por entendido que seu nome era Antonio Rocha, um nome qualquer escolhido a esmo, um codinome.
Era um dia de muita chuva e de muito frio quando ele foi internado na clínica de Neurologia do Hospital das Clínicas. Veio numa maca empurrada pelo Ditão, um negro muito forte e muito alto, uma espécie de guindaste de nossa clínica, uma máquina de trabalhar e um bom amigo.
Antonio Rocha tinha os olhos muito azuis que não piscavam e olhavam para o nada. Seus cabelos eram brancos, muito brancos e lisos, parecendo fios de seda. Ficou num leito da enfermaria seis da ala norte. Seu estado físico era deplorável, o corpo cheio de escaras infectadas, sujo, esquálido, aparentemente catatônico.
Dona Maria José, das maiores profissionais que eu já conheci, era a chefe de enfermagem da Neuro e ficou nos observando e orientando, naquele primeiro dia, enquanto higienizavamos aquele pobre velhinho. No dia seguinte, pela manhã, Antonio foi levado para tomografia em uma clínica particular que tinha um dos dois ou três tomógrafos que existiam no país, na Avenida Rebouças, um quarteirão antes da Faria Lima (o HC só veio ter esse serviço alguns anos depois)...
Todos os dias, após recebermos o plantão, íamos examinar as pranchetas dos pacientes. As prescrições do Antonio não mudavam: 1) Dieta p/SNG (sonda naso-gástrica), 2)Curativos nas escaras, 3)Cuidados c/ sonda Folley, 4)Cuidados Gerais, 5) Dipirona S/N (se necessário).
Um dia perguntamos para um dos médicos se o paciente não receberia nenhum outro tipo de tratamento ou uma medicação mais específica. A resposta do médico nos deixou meio atordoados... O paciente não tinha nenhuma doença física, era portador, de acordo com o histórico, de um estado depressivo absurdo. Ele tinha se fechado dentro de si mesmo... Qualquer dia desses, ele "ressuscita"... . Disse-nos o médico... Vão cuidando dele, conversem com ele, liguem o rádio perto dele, contem piadas, façam o diabo...
Pacientes como o Antonio eram banhados em uma mesa ou maca num grande banheiro que existia na Neuro. Os banhos eram feitos com uma mangueira por onde jorrava água temperada - mais fria, mais quente, morna. Um dia, durante um desses banhos, ouvimos um sussurro: - Essa água tá mais fria que a peste... - Antonio Rocha "ressuscitara"!
Os médicos que estavam passando visita foram chamados e foi uma alegria muito grande em todo o andar...
Em duas ou três semanas o velhinho, já curado das escaras, andava pelo corredor da clínica e falava, e como falava!... Ele tinha sido cangaceiro do bando de Zé Sereno e largara o cangaço, pouco antes do massacre de Angicos, para se casar... Contou-nos "causos e mais causos" do cangaço. Mas, por incrível que possa parecer, nem Zé Sereno, nem Corisco e muito menos Lampião eram seus ídolos. Ele tinha profundo respeito por Ângelo Roque, o Labareda. De acordo com Antonio Rocha, o "Anjo" Roque era uma fera, uma força da natureza que metia medo até em Lampião...
Através de uma reportagem na TV, um médico veio saber que Zé Sereno estava vivo e tinha um pequeno comércio em São Miguel Paulista. De posse do endereço, foi pessoalmente buscar o velho chefe de bando para visitar seu antigo comandado. Foi uma loucura. Mais histórias e mais "causos" foram contados, muitas gargalhadas, muito sangue jorrando, muito tiro, muitas correrias pela caatinga do Razo da Catarina...
Apenas no dia de sua alta ficamos sabendo que, após o assassinato de um filho seu no Carira, Sergipe, ele entrara em depressão chegando a ficar naquele estado, parecendo um cadáver que respirava!
Perguntamos prá ele:
- E aí, Antonio... O que você vai fazer de sua vida agora?
- Eu?... Faz mais de 40 anos que eu não mato ninguém... O homem que matou meu filho "tá" vivo e mora no Carira, pertinho do meu sítio... "Tô" véio e a policia não vai nem ligar se eu começar tudo de novo...
Só espero que a vingança não tenha se consumado... Existem mecanismos legais para fazer a justiça: além do mais quem já ouviu falar de um cangaceiro de cabelos brancos, fugindo pela caatinga?

E-mail do autor: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 23/02/2012 Joaquim, eu fico só imaginando o baú de histórias que você tem para contar. De fazer inveja. Além do mais, todas elas muito humanas. Parabéns Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 23/05/2010 Interessantissimo!
Estou buscando material desse tipo. Seri otimo que profissionais de areas diferentes a "letras" escrevessem suas experiencias como vc fez.
Parabens!
Enviado por Isac Galvao - igalv@hotmail.com
Publicado em 26/09/2009 Hitória muito interessante, herióis anônimos são aqueles, médicos, enfermeira e operadores de equipamentos que colocaram o nosso cangaceiro em pé, em condições de fazer, se tiver oportunidade, novos derramamentos de sangue. Gostei da sua história, vi como o Hospital de Clínicas e seu corpo de funcionários fazem o bem sem olhar para quem, Que bom saber que temos a quem recorrer se a nossa saude falhar, não é? Viva São Paulo a mãe de todos os seres viventes, Oh terra santa! Enviado por carlos heiffig - carlos.heiffig@terra.com.br
Publicado em 24/09/2009 Muito legal ! Só em SP pra acontecer uma história dessas. Parabéns. Enviado por Alfred Delatti - alfredpd@gmail.com
Publicado em 22/09/2009 Muito boa sua narrativa, pitoresca e com final inusitado. O sertanejo, já disseram, é antes de tudo um forte. Nós, os paulistanos, devemos muito a estes nordestinos que encararam e transformaram e construiram nossa selva de pedra, sob as mais duras e adversas condições.São nossos irmãos guerreiros que nos ensinaram como se sobrevive apesar e diante do nada...São Paulo, a cidade de todos agradece. Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 22/09/2009 Notável história, Ignácio. Deus e o Diabo na Terra do Sol !Abraços. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 22/09/2009 Ignacio. Para sorte do seu personagem, as tais 'volantes' que deram caça aos cangaceiros já não mais existem. Agora, temos a 'caatinga'. Força policial mais 'incisiva'. Perto dela, o tenente Bezerra é escoteiro. Abraços. Nelson. Enviado por nelson de assis - nel.som55@yahoo.com.br
Publicado em 22/09/2009 Gostaria de saber em que ano este fato ocorreu (internação do sr Antonio Rocha) Enviado por Edileuza - leuzinha31@ig.com.br
Publicado em 22/09/2009 Gostaria de saber em que ano este fato ocorreu (internação do sr Antonio Rocha) Enviado por Edileuza - leuzinha31@ig.com.br
Publicado em 21/09/2009 Não sei, não, Ignacio, cangaceiro, respirando é como siciliano, "la vendeta é bruta ma, neccessaria" (a vingança é feia mas, necessária). O Antonio, se puder vai lá, podes crer...
Conto emocionante, Joaquim, parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@terra.com.br
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