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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Baixada do Glicério - Todas as ladeiras que vem do centro levam a ela Autor(a): Áurea Regina Dias Amaral - Conheça esse autor
História publicada em 20/01/2010
Para quem não sabe existe um bairro, diria mais uma pequena cidade com vida própria chamada Baixada do Glicério. Tirando o romantismo do passado, ela hoje é um lugar, digamos... minimamente inóspito aos que são estranhos a ele. Vou falar do passado que conheci, pois o presente... infelizmente pode ser facilmente visto nas páginas e programas policiais.

Morei na baixada por quase 20 anos, nasci ali, estudei ali, vivi meus melhores anos correndo em frente ao bar do meu pai. O bar ficava na Rua Helena Zerrener, o Beneomar, junção dos nomes de dois irmãos. Benê, meu tio e Osmar, meu pai. Um lugar que sempre teve e ainda tem toda a infra-estrutura de um grande centro, apesar de ser um bairro... Está localizado no centro da cidade, a menos de 10 minutos da Sé.

Encontrava-se de tudo no Glicério, de coisas boas a não tão boas assim, mas no passado ele era poético, hoje infelizmente não mais... Tinha a Farmácia Drogamano, que até hoje existe por lá, o dono é um japonês muito simpático e querido o "Kamei", local de primeiro emprego de muitas pessoas por ali. Todos procuravam o Kamei, para passar por uma consultinha, que era melhor do que qualquer médico.

Existia a papelaria da Dona Lurdes e seu esposo ambos lusitanos, onde comprávamos por anos nossos matérias escolares, presentes para as festinhas de aniversários dos coleguinhas. Como bons portugueses nada de fiado. Estudávamos todos em sua maioria na escola Duque de Caxias, que ficava na Praça Margarida Maria (e ainda hoje existe), era uma escola de "primário e ginásio o antigo 1º grau", que tinha um porteiro conhecidíssimo.

Acredito que ele ainda está por lá... Sr. Francisco, “Chico”, que andava com um molho de chaves pendurada na calça e gritava "Vou fechar o portão!! Se chegar atrasado não vai entrar". O Glicério é um aglomerado de prédios com muitos andares e mais tantos apartamentos e kitnet's, casas antigas do tempo dos imigrantes italianos e japoneses (que na maioria viraram cortiço).

Lá tem uma Vila chamada "Vilinha Suíça" é uma pequena cidade sem dúvida e a maioria dos moradores do passado, eram pessoas que tinham um bom trabalho, alguma formação ou até mesmo formados, mas que ao longo do tempo se debandaram dali. As crianças, brincavam em uma pracinha que ficava no final da Rua Helena Zerrener com a Rua Oscar Cintra Gordinho, tinha gangorra, trepa-trepa, tanque de areia, mães, filhos, bolas, cachorros e uma banca de jornal onde comprávamos figurinhas.

Também brincávamos muito na Igreja da Paz, era um espaço enorme, ainda está por lá, você pode ver do Elevado Costa e Silva a cruz da igreja e os prédios... Mas continuando, a igreja era muito legal, com o espaço enorme, para brincar de pega-pega, bicicleta e o melhor... Uma vez por ano ali aconteciam às festas juninas. Quem organizava no passado era a comunidade italiana que frequentava o local.

Tudo nesta festa era uma delícia, as pizzas, as barraquinhas com os desejados brindes e enquanto ficávamos correndo de lá pra cá, nossos pais ficavam no bingo, que acontecia dentro do teatro da igreja. Tinha o supermercado Pão de Açúcar, que depois virou Compre Bem, onde todos faziam as suas compras do mês. Tinha uma revendedora de carros (Volkswagen, se a minha memória não me trai) que eu via da minha janela.

Se precisássemos de posto de gasolina tinha lá, bancos também, açougue, "vendinha de doce" do casal de velhinhos japoneses que ficava na frente da escola, que era disputadíssima na hora da entrada. Tinha o "Alemão Frangueiro" que vendia frango assado e todas as outras formas que vocês possam imaginar. As lojas de móveis usados que fazia sucesso com o pessoal, pertencia a um nordestino com dentes de ouro, óculos quadrado e amarelo. Muito engraçado!

Tinham muitos bares, mas não eram apenas botecos, eles serviam almoço, jantar, lanches... e alguns tinham ovos coloridos e um monte de outras coisas dentro de potes de vidro que ficavam na conserva, que até hoje eu tento imaginar o que seriam. Havia também uma loja de sapatos do turco "Sr. Jorge", que eram caros, mas vendia muito. O Glicério era palco de todas as raças, todas as gentes e todos os credos religiosos. Ainda é!

Ali encontramos católicos, evangélicos (muitos da igreja Deus é Amor, com suas lojinhas de discos, hoje cd's), os templos japoneses na Rua dos Estudantes. A loja do "Pedrinho Magnata", que vendia ternos chiques para a sua clientela, inclusive personalidades da política, que deram o ar da graça no Glicério. Ele ainda está lá por incrível que possa parecer.

É um lugar ligado ao centro e a todos os outros bairros primos do seu lado, a Liberdade, Aclimação, Cambuci, Brás e Mooca. Todas as ladeiras que descendem do centro mergulham no Glicério. Existiu uma pizzaria na esquina da Rua João de Carvalho, era a sensação do pedaço, pois suas pizzas eram maravilhosas. A Baixada tem um filho ilustre o autor de novelas globais Silvio de Abreu, que sempre se lembra dela em suas novelas...

O Glicério tem outras coisas tristes também, infelizmente, mas quem viveu, cresceu e trilhou um caminho "branco", pode contar o lado maravilhoso que aquela micro cidade tem... As coisas ruins como falei, tem bastante gente para contar, então conto eu aqui os pedaços sadios da minha querida e distante Baixada do Glicério, que ficou guardada em um passado que não volta mais...

Meu tio aquele lá, o Benê, hoje é dono de um bar que foi montado no lugar da pizzaria, mas o lugar não é nem a sombra do que foi no passado... Saudades... de um lugar em que vivi e que meus pais imigrantes, portugueses e turcos, também viveram.


E-mail do autor: auregina@gmail.com E-mail: auregina@gmail.com
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Publicado em 23/04/2013 Aurea, parabéns por nos ajudar a fazer uma viagem no tempo com essas lembranças maravilhosas. Morava em Curitiba, mas todo fim de ano eu estava lá, mais precisamente no Ed. Bahia e Ouro Branco, onde moravam minhas tias. Brincava na pracinha, tenho um album de fotos tiradas alí...alguém lembra do cabelereiro Fran, o japonês do mercadinho...que saudades e saber que não podemos mais ir rever esses locais. Que saudades... Enviado por Katia - katiakohns@hotmail.com
Publicado em 05/04/2013 Aurea...gostei muito da história que vc. contou sobre o bairro e principalmente de Escola Duque de Caxias,pois dei aulas lá por 20 anos,imagine vc. como eu gostava de lá,pois tive muitas oportunidades de sair de lá,mas não queria.Amava aquele lugar,tinha como aluno o Rafael,filho do Roberto Carlos,que com muito custo ele o assumiu,conheço toda a triste história dele,e de muitos alunos que passaram por lá.Mas histórias felizes tb. como vc. disse,o CHICO,que saudades!!!Fiquei lá desde 1974 à 1990,onde fui pra outro cargo na Escola Faria Lima na Aclimação,onde me aposentei!!!!!!Abraços!!!!!! Enviado por maria ines canatto nucci - inescanatto2011@Outlook.com
Publicado em 26/02/2013 Cheguei até este assunto baixada do Glicerio, depois de ler o livro "Meu Velho centro" da Heródoto Barbeiro, que relata perfeitamente este centro velho MARAVILHOSO, fala das ruas das igrejas, da Igreja da Paz, Da Boa Morte, da Sé...Recomendo o Livro. Enviado por Neusa Rosana - neusarosana@ig.com.br
Publicado em 11/02/2013 morei no cambuci e convivi tambem no glicerio infelizmente o que aconteceu com o bairro é lamentavel mas não é só o glicerio que esta assim o brasil inteiro esta se tornando um país decadente onde quem domina são traficantes parabéns as nossas autoridades. Enviado por sergio - srg_fontes@yahoo.com.br
Publicado em 08/02/2013 morei na Baixada do Glicério em 1980 e estudei na EMEF Duque de Caxias 2 anos,minhas professoras são inesquecíveis,Laura,Márcia e Zoraide.Minha irmã Cláudia também estudou na primeira série com a professora Ines ,sala 16 !!!Muitas saudades!!!hoje tenho 41 anos,na época eu tinha 8 anos!!! Enviado por vangerly - vangerlyejesiel@yahoo.com
Publicado em 08/02/2013 morei na Baixada do Glicério em 1980 e estudei na EMEF Duque de Caxias 2 anos,minhas professoras são inesquecíveis,Laura,Márcia e Zoraide.Minha irmã Cláudia também estudou na primeira série com a professora Ines ,sala 16 !!!Muitas saudades!!!hoje tenho 41 anos,na época eu tinha 8 anos!!! Enviado por vangerly - vangerlyejesiel@yahoo.com
Publicado em 28/01/2013 ADOREI sua cresci no glícerio, nops anos 80, talvez vou dar aula no DUQUE DE CAXIAS, estudei lá foi uma fase gostosa apesar de ser um lugar considerado submundo. Enviado por sonia leite - sleite1974@bol.com.br
Publicado em 28/01/2013 ADOREI sua cresci no glícerio, nops anos 80, talvez vou dar aula no DUQUE DE CAXIAS, estudei lá foi uma fase gostosa apesar de ser um lugar considerado submundo. Enviado por sonia leite - sleite1974@bol.com.br
Publicado em 03/01/2013 Essa historia me fez recordar de um passado muito feliz. Os locais relatados casam exatamente com minha infancia. Bons Tempos. Parabens pelo texto... Alias acho que estudei com uma colega com teu nome..de 1981 a 1988 Enviado por Everaldo Martins Leite - technosystem.p2p@gmail.com
Publicado em 21/12/2012 Eu amo a baixada do glicerio nasci creci ai conheco o miguel a dona lurdes e seus filhos já fui muito no bar antes quando era menor isso de 1997 quando era feliz e nao sabia pois ja vivi muito nas vilinhas como era bom mande um salve para todos Enviado por Joyce - jgabriela10@yahoo.com