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Categoria - Personagens Os desvairados Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 22/01/2010

Se a Vila Olímpia tinha seus “maus elementos”, a Vila Nova Conceição, não ficava atrás. Pelo menos um cara marcou seu nome naquele que sempre foi um bairro nobre, e muito bem freqüentado. Era Ceboleiro e seu nome de batismo ninguém sabia. Como vendia cebola seu apelido foi incorporado como nome próprio. Ceboleiro não ficou devendo nada a Coló, Lito e Armandão, os valentões do Itaim. E muito menos para Pelocha, Gegê e Gato da Vila Olímpia.

Como malandro de boa xepa, Ceboleiro nas horas vagas fazia o que todo malandro gostava. Tomava umas pingas, jogava bilhar e baralho no bar do Maluf, “que não se perca pelo nome” e tinha mulheres as pampas. Dizem que ele gostava de mulheres “mocorongas”. Aquela que mal abria a boca para comer. Porém na sua vida apareceu Zoraide. Uma mulata de porte físico avantajado, não era gorda, e sim alta, ombros mais estreitos do que as ancas, cabelos nos ombros, liso naturalmente.

Era a mulher que todo homem gostaria de ter. E foi Ceboleiro quem a teve. Não que a tenha pegado na marra. Ela que gostava dele. Marruda, boca dura, não mandava recado. Ceboleiro podia ser o valente que fosse, mas na frente de Zoraide se derretia. Um dia jantando no Zé Carioca, o melhor restaurante dos anos 1950, Avenida Santo Amaro em frente à Rua Heloisa, Ceboleiro ficou com graça na frente dela, levou um copo de vinho pelo meio da cara. Sua camisa branca ficou grená.

Daí por diante é que ele se tocou que tinha uma parada dura pela frente. Mas ele que nunca foi de levar desaforo para casa e, metia a mão na cara de qualquer um sem olhar quem era e, o que tinha as mãos, mudou de estratégia com Zoraide. Sabia que com ela não podia mijar fora do pinico, pois podia perdê-la para sempre, dado o gênio espaventado que ela tinha. Certa ocasião ela deu um toco num guarda civil em pleno Anhangabaú, fazendo o “trouxa” rodar que nem um pião. Só porque o “azulão” fez uma gracinha para ela.

Para tirar um sarro anotou o número de uma placa do distintivo que os guardas civis tinham no peito para jogar no bicho. Ceboleiro pensou: - “Se ela fez isso com o Guanapa, porque não faria comigo”. Afinal ela veio do Bixiga. Participava das rodas de candomblé, com a negrada da Rua Rocha. Desafios na Praça 14 Bis. Jogava as duas mãos ao chão e mandava os pés na altura da cabeça dos adversários. Zoraide era uma mulher da pesada.

Ambos se amavam mutuamente. As turras é verdade. Quanto mais brigavam mais se amavam. Com o tempo, Ceboleiro achou de tratar dos papéis, e o mais rápido possível. Zoraide estava muito folgada para seu gosto. Começou a não dar moleza para ela. É que quando ela ficava enfezada, partia para cima dele com tudo. Ela podia ser corpulenta, mas a sua força física não se poderia comparar a de um homem.

A Partir daí virava e mexia, lá estava ela com a cara inchada na 15ª Delegacia de Polícia, Rua Macuco (Indianópolis). Pedia ao delegado para deixá-lo atrás das grades por algum tempo até ele amansar. Devido às agressões que estava sofrendo. Já havia cinco ocorrências registradas. Um domingo daqueles ordinários, de tempo ruim, sem futebol, Ceboleiro a levou no bar do Maluf, que ficava na Avenida Santo Amaro. Perto da Rua Firmino Ladeira, Santa Justina, Vila Olímpia.

Conversa vai conversa vem, ambos com a cara cheia, Ceboleiro tirou o revolver da cinta, e disse a Zoraide: - Quer apostar que te dou um tiro no meio da boca? E Zoraide, na bucha responde: - tu não és homem para fazer isso! Mal acabou de dizer e o dedo mole de Ceboleiro estava dando partida no gatilho. À bala ricocheteando nos dentes, imagina-se, saiu pela lateral da boca. Ficando ela fora de perigo.

Ceboleiro que já estava chapado ali mesmo ficou, enquanto ela era socorrida por uma ambulância do Sandú. Enquadrado como tentativa de assassinato. Ceboleiro estava atrás das grades, já algum tempo. Foi quando o delegado recebeu a visita de Zoraide. Que o disse:

- Doutor, eu vim aqui pedir para o senhor soltar o Ceboleiro.
- Mas dona, a senhora sempre veio aqui me dizer que era para deixá-lo preso por algum tempo. Agora que ele quase a matou, me pede para soltá-lo.
– Doutor. Sabe o que é? Eu não consigo viver sem este “sem vergonha”. Ele é a vitamina que necessito para viver. Eu o amo. Amo de verdade doutor. Depois que ela saiu da delegacia, o delegado o soltou.


E-mail do autor: mariolopomo@uol.com.br

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Publicado em 27/01/2010 Mário, os teus causos são sempre ótimos. Só você mesmo para relatá-los. Eu adorei também o texto "Maria das Cabritas". Meus parabéns e um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 26/01/2010 Lopomo, sei que mulher de malandro gosta de apanhar, mas de levar tiro é a primeira vez.Abs. Enviado por Ailton Joubert - ailtonjoubert@hotmail.com
Publicado em 25/01/2010 Mário: Belo relato. E aí; o Ceboleiro e a Zoraide foram felizes para sempre ?
O amor é lindo sem barreiras.
Um abraço
Heitor
Enviado por HEITOR IÓRIO - hiorio@imjm.com.br
Publicado em 25/01/2010 Prof.Lopomo, agradeço o seu amável e-mail e também ao nosso amigo Rubens pelo convite para o jantar dos veteranos dia 05/02 p.f. no Clube Pinheiros. Conte comigo. Prof.Lopomo, gostei da sua estória. Coisas do nosso Brasil.Belo relato. Parabens. Enviado por ivanildo Vieira Gonçalves - ivvig@uol.com.br
Publicado em 23/01/2010 Mário, meu grande amigo gostei de sua estória. Aqui no Braz tínhamos o Tomateiro, que vendia verduras com uma carrochinha puxada por um burro velho que dava dó. Uma vez se engraçou com uma mulatona e apanhou no meio da rua na frente de todos. Parabéns pela narrativa e um abraço do Rubens. Enviado por Rubens Ramon Romero - rrubensrr@bol.com.br
Publicado em 22/01/2010 Mário, como sempre com as "Histórias que a Vida Escreve". Pelo jeito Nelson Rodrigues fez escola. Boa narrativa! Parabéns! Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 22/01/2010 SR.MARIO LOPOMO, EM FÉRIAS NO LITORAL, LI NO MEU LAPTOP SEU BELO CONTO E LEMBREI DE MEU “VELHO E QUERIDO BRAZ”.ESSES PROBREMAS SOCIAL OCORRE EM TODOS OS BAIRROS, INCLUSIVE NO MEU VELHO E “QUERIDO BRÁS”. RECORDEI UMA MULHER QUE GOSTAVA DE APANHAR DO MARIDO,NO MEU VELHO E QUERIDO BRAZ.PARABENS.FRANCESCO Enviado por Francesco Bujardo - francesco.bujardo1@gmail.com
Publicado em 22/01/2010 TODOS OS BAIRROS TIVERAM OS SEUS VALENTÔES, NA
CONSOLAÇAO, TINHA O CARIOCA, BASSIT, ORLANDAO.
todos ja morreram.
Enviado por JOAO CLAUDIO CAPASSO - JCCAPASSO@HOTMAIL.COM
Publicado em 22/01/2010 Mario, em todos os tempos e em todos os bairros havia esses fanfarrões gabarola valentão, como esse Ceboleiro. No bairro onde eu morava, também, havia algumas raridades como o Fóca, o Xepa, o Gasolina, o Galináceo, o "BTL" (Bafo de Tigre Louco) e tantos outros babacas. Mario, como sempre, uma bôa crônica. Abraço Grassi. Enviado por J. Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 21/01/2010 Barbaridade, tchê ! Sai dessa, meu ! Enviado por Tomás Figueiredo - tafig@gmail.com
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