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Categoria - Personagens ... me espere na Avenida Autor(a): Lygia Bradnick - Conheça esse autor
História publicada em 23/03/2010

Ali na Sena Madureira, em meados de Maio de 73 apareceu um homenzinho franzino de chapéu de matuto, que se sentava ora num degrau ora em outro, sempre olhando com interesse os carros que passavam, virando a cabeça para acompanhá-los. Por vários dias o vimos quase no mesmo lugar, vestido do mesmo jeito, usando o mesmo chapelão.

Como eu passava por ali frequentemente para ir e vir da escola ou das casas das minhas amigas comecei a ficar intrigada pela presença constante daquele homem, ás vezes comendo um sanduíche, ás vezes apenas acompanhando os carros com o olhar. Uma vez passando com um primo, o homem nos dirigiu a palavra. Dizendo:

- Aqui tem uma avenida maior do que esta? Perguntou baixinho.
- Aqui onde? Perguntamos.
- Aqui nesta cidade.
- Sim, disse meu primo. Aqui tem muitas avenidas grandes, bem maiores do que esta. O Sr. não conhece São Paulo?
- Sou do norte de Minas. Ele disse. - Estou esperando um parente meu.
- E onde ele mora? Perguntamos.

- Olha, eu não sei, eu perdi o papel com o endereço, mas ele me disse que era perto de uma avenida grande. O nome da avenida eu não me lembro, mas peguei um táxi que me deixou aqui quando eu disse que achava que era na Vila Mariana, só que eu não tenho certeza se é Vila Mariana ou Vila Maria. Meu primo tem um carro vermelho, estou esperando pra ver se ele passa, ele tem que passar por aqui a qualquer hora.

Olhamos para o mineirinho, boquiabertos. Meu primo se ofereceu para pagar um café. Ficamos sabendo que ele estava numa pensão ali na vizinhança e seu dinheiro estava quase no fim. Aconselhamos o sujeitinho a voltar para Minas Gerais no primeiro ônibus. Ainda coletamos o que tínhamos nos bolsos para ajudar a partida. Creio que ele seguiu o nosso conselho, pois na manhã seguinte não estava mais na Sena Madureira. Nunca mais o vimos.


E-mail do autor: lymms7@hotmail.com

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Publicado em 13/05/2012 Cheguei agora neste site,e descobri esta pessoa incrível que é voce.Li seus textos e me encantei Só me entristeci ao verificar que voce não escreve mais e que no site está faltando histórias lindas como as suas. Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 25/03/2010 Lygia, essa nossa São Paulo atrai e acolhe, mas as vezes assusta por sua grandeza. Tomara, ele tenha encontrado grandes e belas avenidas em sua vida e muitas pessoas solidárias, como você e seu primo.
Um abraço
Enviado por Bernadete P Souza - bernadete.pedroso@gmail.com
Publicado em 24/03/2010 São Paulo é grande, demais pra absorver tantas ocorrências desse tipo. Era só ter por escrito o endereço e não haveria problema. Pobre homem. Parabéns pelo relato, Lygia.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/03/2010 Lygia, esses acontecimentos são típicos de pessoas que não fazem idéia do que é uma cidade grande. Nosso dever é sempre orientá-los, assim como vocês o fizeram.
Entre em contato comigo. Niderce
Enviado por Niderce Teresa - nideerceteresa@bol.com.br
Publicado em 23/03/2010 Lygia, infelizmente há muitos migrantes que passam por situação semelhante e nem sempre tem a mesma sorte. Vocês mostraram que a aproximação e a solidariedade estão presentes em nossas ruas. Há muitos anjos como vocês espalhados por São Paulo. Lindos gestos! Enviado por Consolata Panhozzi - tpanhozzi@ig.com.br
Publicado em 23/03/2010 Lygia.Nunca encontrei um mineiro bobo, acredito até que na realidade ele vivia disso, mas... parabéns por sua historia e gesto. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 23/03/2010 Excesso de ingenuidade, às vezes é muito triste. (foi muito bom conhece-la). Parabéns! Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 23/03/2010 Coitado ! Era, literalmente, um caso perdido. Perdido no espaço, no tempo, nas quebradas da cidade enorme, onde até nós conseguimos nos perder. Abraços. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 23/03/2010 Lygia, aconteceu com um primo do meu pai vindo de Piracicaba, deu o endereço para o motorista do taxi, ainda na rodoviaria velha.
rua visconde de itaborahi no tatuapé.
o taxista o levou para av.itaborai na agua funda.
abraço, Beira
Enviado por Jose Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
Publicado em 22/03/2010 Lygia do céu, que lindo relato!Que bondade a de vocês: juntaram um dinheirinho que foi muitíssimo providencial. Parabéns pela sensibilidade e respeito ao mineirinho tão inexperiente em cidade grande. Eu estava com saudades de você. Estava sumida, menina! Um beijo. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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