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Categoria - Outras histórias Nervos de aço e fígados de alumínio anodizado Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 19/04/2010

Bebo pouco. Nada errado com meu fígado; o índice Gama GT é bastante baixo. Apenas falta de resistência. Uns nasceram para beber, outros não. Já contei de meu primeiro porre, coisa inevitável de principiante. Saíra do Colégio de Aplicação, R. Gabriel dos Santos, com uns amigos. Logo ao lado, o belo Cine Sta. Cecília. Entre o colégio e o cine, um também inevitável boteco.

Ali tomei minha primeira cerveja, Brahma ou Antártica, não importa, o efeito foi o mesmo. Saí tonto, mal sentindo as pernas, mas perfeitamente o enjôo. Deitado no apartamento, o teto girava como um helicóptero. Foi o primeiro não o único, mas tive poucos porres memoráveis. No ambiente publicitário bebia-se muito, ao menos naqueles tempos. Mas eu só dava umas bicadas, de vez em quando.

Certa vez, no almoço natalino de uma generosa agência carioca, tomei não menos de seis ótimas doses de Buchanan´s, para acompanhar a cavaquinha com champanhe. Cheguei em casa com muito sono, mas tinha descido muito bem. Em compensação, velhos amigos convidaram-me, há poucos anos, para um happy hour, num bar aberto, montado numa praça perto do Ibirapuera.

Quando lá cheguei, eles já tinham emborcado algumas doses do escocês. Estavam alegrinhos:
- O Cutty Sark está em promoção, vamos aproveitar! Tomei duas doses, talvez. E comecei a sentir-me mal. Mal sentia os pés tocarem o chão.
- Para mim, chega!
- Vamos à saideira, então! Estupidamente, acompanhei-os nessa.

Quando o valet trouxe meu carro, vi que não estava nada bem. Mas, já era hora avançada, com pouco trânsito. Guiando cuidadosamente, cheguei incólume em casa. E, ao deitar, novamente o efeito helicóptero, como no bar do colégio, tantas décadas atrás. E a ressaca, no dia seguinte? Liguei para os dois, e nada. Não tinham sentido nada de mal. - Não é possível, exclamei. Esse Cutty Sark (uma espécie de veleiro) aportou e foi batizado em Puerto Stroessner!

Não tem jeito, alguns têm fígado de alumínio anodizado, eu não. Como um poderoso chefão, que comandou equipes de criação em várias agências. Trabalhei com ele, algumas vezes. No fim do expediente, sempre chamava uma garrafa de uísque, e era capaz de vertê-la sozinho. Fumava muito e há alguns anos teve sério problema intestinal, sendo operado no Sírio Libanês.

Na verdade, o problema devia-se menos ao álcool que ao fumo, vasoconstritor. Então, ele diminuiu o cigarro, mas bebe mais para compensar. Bem que eu gostaria de ser como um Hemingway, charmosamente tomando uns drinques na Closerie des Lilas, enquanto escrevia. Ou no Harry´s Bar, em Veneza.

Nada feito, mas consola-me ter participado de umas rodadas no saudoso Paribar, da Pça. Dom José Gaspar. Que mesmo sendo poucas as doses, era grande a felicidade de ver desfilar na varanda toda boa São Paulo da época.


E-mail do autor: saidenberg@ajato.com.br

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Publicado em 27/04/2010 Olá, Luiz!
Boas recordações.
Hoje, os jovens experimentam o alcool muito cedo e gostam dele. Embebedam-se. Tem porres homéricos, infelizmente.
Mas, você fez a todos nós, nos lembrarmos dos primeiros ou dos únicos porres que todos tomamos, com certeza.
Brindemos! Saúde!
Drink to your text!
Enviado por Sonia Astrauskas - soniaastrauskas@uol.com.br
Publicado em 25/04/2010 Mais uma vez, muito grato. Conheci o Florian, o Quadri, o Neri, da Piazza San Marco, Carmen. Bons tempos. Boa notícia, Lourdes Cecília. Estive lá, há algum tempo, e o proprietário, tb Luiz, disse que pretendia mesmo reassumir o nome Paribar. Vamos conferir !
Abraços.
Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 21/04/2010 Saidenberg, o Paribar foi reinaugurado. Soube por um primo que era frequentador assiduo e lá esteve no dia. Ele encontrou velhos conhecidos e disse que tb. havia muita gente jovem. Esse meu primo, quando o Paribar fechou, comprou todas as louças com o nome do bar. De vez em quando no sítio dele, nós comemos naqueles velhos pratos que teem muitas histórias para contar. Que saudade!!! Enviado por lourdes cecilia bove ciavata - lucebove@ig.com.br
Publicado em 21/04/2010 Luiz , muito bem lembrado, quem não começou a beber assim como voce narrou, bom texto, pena que muitos extrapolam na bebida, mas esse site está virando uma delicia, muitas bebidas do Luiz e muitas Pizzas do Capasso, parabéns a ambos,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 20/04/2010 Saidenberg, com porre ou sem porre, esse texto merece um brinde. Parabéns. Alaíde Enviado por Alaíde Santos - alaide.santos2010@hotmail.som
Publicado em 20/04/2010 A ultima vez que fiquei cachaço, foi em 1968. Até ali bebia bem. No futebol quando ganhávamos a taça ela vinha cheia de pinga e era goles pra quem ti quero. Mesmo com o caco cheio quando saia do trabalho, ia pra casa de bicicleta e nunca cai. Porem naquele dia de 1968 aconteceu algo que até hoje não consigo entender. Com apenas duas doses normais de pinga, foi o bastante para que na hora de ir embora tudo rodou a minha volta. Estava a 300 metros de casa, e a bicicleta teve que ficar no bar. E fui carregado por dois amigos. Muito Bebacho dei um trabalhão para minha mãe e irmã. Café amaro, chá de carqueja também amargo, café sem acura e bem forte e nada fazia para a bebedeira. Lembro-me que há meia noite estava ainda bastante bêbado. A vergonha foi tanta que jurei nunca mais beber. Por incrível que pareça, mas nem cerveja eu bebo, e não sinto falta alguma. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 20/04/2010 Mais um lindo texto, como sempre. Parabéns ! Concordo, também, que seria muito bom saborear uns drinques na Closerie de Lilas de Montparnasse ou no Harry’s Bar de Veneza e ir imaginando ver ao nosso lado Hemingway , Oscar Wilde, Fitzgerald, Sartre, Picasso ... quem dera ! Bom, melhor irmos ficando com um gostoso cafezinho brasileiro tomado em uma das charmosas cafeterias da nossa querida São Paulo e que nada fica a dever ao servido no Florian ou no Quadri de Veneza, a não ser – é claro – no preço. Abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
Publicado em 20/04/2010 Luiz, console-se. Uma vez bebi um quarto de uma garrafa pequena de Malzbier. Fiquei bebinha bebinha. Abraços, Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 20/04/2010 Luiz, um "brinde" ao seu maravilhoso texto. O álcool pode ajudar a soltar a imaginação e a criatividade, às vezes, mas é bom saber que a arte não depende disto e a prova está aí, com o exemplo do seu sensível fígado. um abraço. Vera Enviado por Vera Lúcia de Angelis - deangelisgomes@terra.com.br
Publicado em 19/04/2010 O Saidenberg, depois de todas essas tomadas, você ainda conseguiu chegar em casa? Então está ótimo, continue assim, quando você errar o endereço da sua casa, ai é melhor parar.
Não de beber; de ir de carro.
Enviado por Ailton Joubert - ailtonjoubert@hotmail.com
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