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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Fazendo e empinando pipas Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 13/08/2010

No meu tempo de garoto, anos 50, pipas eram mais conhecidos como quadrado ou papagaio. Para se construir essas peças voadoras era preciso ter bambu, papel de seda e linha. As varetas eram tiradas dos bambus, que tinham aos montes, na chácara da dona Ângela, ou no terreno em frente, onde morava a dona Virgínia, mãe do dado. Quanto mais verde fosse o bambu, melhor. O que facilitava o trabalho de se construir os quadrados.

A garotada que morava na Rua do Porto e João Cachoeira, no Itaim, faziam quadrados de vários tipos, que eram Peixinho, Barrilete e Maranhão. O peixinho era o mais fácil de fazer, tinha o formato de um losango, no qual se colocavam duas varetas em forma de Cruz, com a vareta horizontal mais acima do meio da vareta vertical, aí vinha a linha por toda a volta, que podia ficar em linha reta ou vergada, para facilitar sua permanência no ar, sem ficar balançando para os lados em sentido vertical.

Podia também construir um peixinho sem as linhas em volta, para poder empinar sem o rabo, que naquele tempo era de pano. Tinham muitos que usavam só papel, de preferência jornal, que em “V”, no horizontal, com um estirante nos bicos, tinha o nome de Capucheta.

Já o barrilete era mais trabalhoso, tinha uma vareta em sentido vertical e duas em sentido horizontal em tamanhos diferentes. A vareta horizontal, que ficava na parte de cima, era maior do que a que ficava embaixo. Esse quadrado ou Pipa não podia ser menor do que 40 centímetros. O Rabo tinha que ser maior porque tinha mais força, principalmente quando o vento era mais forte.

O barrilete era um quadrado que podia ser feito até com um metro de altura, mas tinha que ser empinado com barbante e com bastante pano para fazer o rabo. Já o Maranhão tinha o mesmo sistema do barrilete, mas com uma diferença, o papel era colado tanto com goma arábica quanto com cola de farinha de trigo na vareta horizontal, de cima para baixo, e a linha de cima ficava livre. Colocava-se um papel colado naquela linha e com vários cortes, como uma franja, que dava um barulho como se fosse um zunido; e quando se dava muita linha, era por ela que se sentia aquele zunido excitante.

Para laçar outros quadrados, os peixinhos eram os mais usados, porque seu formato facilitava que ele embicasse de cima para baixo, para executar o laço. Mas para ter sucesso nessa operação, o laçador tinha que ter a linha nº 24 e a certeza de que o outro tinha uma linha mais fraca, no caso a nº 50. Não existia o Cerol e para tentar cortar uma linha era colocada uma Gillette numa rolha e amarrada na ponta do rabo e ainda tentar fazer a ponta do rabo com a Gillette ir de encontro à linha do outro quadrado.

Correr atrás dos quadrados quando uma linha era cortada não tinha o mesmo perigo de hoje porque não havia muitos carros transitando, e também não havia muita fiação elétrica.

e-mail do autor: mlopomo@uol.com.br

 

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Publicado em 10/01/2011 Caro Mário, você me transportou na minha infancia nos anos 60 , onde após construir uma pipa, soltar e vê-la subindo no céu, era de uma alegria indescritível.
Era o nosso "Santos Dumont" interior voando com aquele brinquedo colorido, feito por nossas pequenas mãos, isso sempre teve uma representação muito forte, mesmo quando falhavamos em alguma, não desistíamos, mesmo quando eramos "laçados", voltavamos a desafiar e também tentar "laçar" outra pipa.
Assim aprendemos a brincar em nossas vidas
Enviado por Jose Jacinto Mosquera Andrade - jose.jma@ig.com.br
Publicado em 23/08/2010 Bons tempos dos quadrados, Mario mas essa de amarrar lamina de barbear Gillete, na ponta do rabo, eu não conhecia. Parabéns, texto enxuto, bem redigido.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/08/2010 Mario, nessa área, os meninos reservavam a nós, meninas e aos "café com leite", como eram chamadas as crianças pequenas, as capuchetas. Lembra delas? feitas de jornal, enganavam bem a gente e deixavam os meninos competirem em paz suas guerras com quadrados. Boas lembranças. Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 19/08/2010 Sr. Mario, quando menino, devemos ter a mesma idade (71) fazíamos quadrado mas com bambú seco para não ficar pesado. Hoje fazem assim também. Parabéns pela sua estória saudosa. Enviado por Luiz Carlos de Oliveira Bastos. - lucaol@hotmail.com
Publicado em 18/08/2010 Mario você fez lembrar um período gostoso que era soltar pipas ou quadrados, eu gostava de dar toda linha e batizar os mesmos, outra coisa que adorava fazer era deixar a pipa dormindo, naquela época não havia cerol, parabens, recordar é viver e que tempos bons foram esses, abraços Enviado por achilles liparelli filho - achillesliparelli@hotmail.com
Publicado em 17/08/2010 Genial,como consegue descrever os detalhes sobre a construção de uma pipa,que em São Paulo é conhecida como quadrado,estranhei o termo,quando cheguei à São Paulo,menina.Ficava olhando para o céu para procurar o quadrado.Lembro também da famosa cola de farinha de trigo preparada pelos meninos nas panelas velhas das mães.Parabéns pela criatividade e originalidade do relato,excelente! Um abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 15/08/2010 Lopomo, pipa é um brinquedo de 8 a 80 anos. Bravo! Não foi uma história foi uma aula. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 15/08/2010 Feliz lembrança e ótima crônica,Mario. As capuchetas que eu fazia eram horríveis e os quadrados piores ainda. Mas eu nunca desisti, passei a infância tentando fazer um que prestasse. Abraços, Abílio. Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 13/08/2010 Sr. Lopomo, que maravilha de descrição ! Por momentos, me vi fazendo ‘quadrados’ e ‘capuchetas’, junto com meu irmão. Isso, sem falar na cola de farinha com água que, às vezes, ficava um desastre – de tão grossa e pesada !!! Que tempo bom !!! Parabéns pela sus narrativa. Abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
Publicado em 13/08/2010 Caro Mario, vc. transmitiu uma verdadeira aula técnica na apresentação, na construção, formatação e no uso das linhas especiais para a soltura dos vários tipos de "pipas" existentes na época. Seu texto é primoroso. É uma pena que a meninada de hoje, não tem a mesma oportunidade de criar esses objetos que tão bem marcaram a nossa geração. Parabéns pelo excelente texto. Abraço Grassi. Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
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