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Categoria - Outras histórias Tempos do bonde Autor(a): Nicanor Alves Monteiro - Conheça esse autor
História publicada em 16/08/2010
Lá pelos idos de 1953, eu morava no bairro da Água Fria e conheci uma moça que se chamava Maria Augusta e residia nos Jardins, bem perto do Trianon, onde hoje se encontra o Museu de Arte, na Paulista. Naquela época não existia a facilidade e a liberdade que o jovem tem hoje em dia. O namoro e a possibilidade de dar uns beijinhos e uns amassos só eram possíveis na sombra da noite e, no meu caso, nas alamedas do jardim do Trianon. Apesar dessas dificuldades o desejo do jovem era tanto ou maior que agora, pois havia planejamento, estratégia e muita adrenalina rolando para um simples atraco, que geralmente não passava disso.

Naquela época, o fato de uma garota engravidar era o suficiente para virar uma tragédia, às vezes levadas ao extremo, o que obrigava os pombinhos a se casarem diante do delegado de polícia, do sogro babando de raiva do futuro marido de sua filha e não era tão raro quando simplesmente o pai expulsava a filha de casa, muito mais preocupado com a reputação da família do que com a própria filha. Num sábado à noite, lá estava eu, ansioso e com a boca seca, à espera da garota que iria aliviar, com os seus suspiros e seus abraços, aquele fugaz momento que justificaria a confissão na missa do domingo, como se tudo fosse necessário.

A absolvição assim transcorria; em geral esse tipo de situação, naquela São Paulo tão ingênua, graciosa e sem maldade. Isto posto, deixei a garota na porta do seu edifício e saí tremendo as pernas e o corpo, todo aliviado e incompleto, porém muito feliz em busca do bonde que me deixaria na Praça do Correio. Faz-se necessário dizer, para muitos que não conheceram os bondes, havia dois tipos deles; o fechado, que era chamado de camarão e o bonde aberto, no qual os bancos para sete pessoas eram voltados um para o outro, de forma tal que passageiro sentado ficava cara a cara com os outros passageiros.

Pois bem, eu tomei o bonde e fiquei cara a cara com cinco freiras que me fitavam com olhar disfarçado e divertido que provocavam coxixos entre elas, e eu não me dava por vencido, pois sempre fui muito extrovertido; as encarava também, sorrindo até que uma delas me ofereceu um lenço, sugerindo que eu o passasse no rosto. E qual não foi a minha surpresa quando o lenço aparece tingido de batom avermelhado que devolvi, surpreso, com cara de cachorrinho que peidou na igreja.

e-mail do autor: nicanoralvesmonteiro@hotmail.com
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Publicado em 22/08/2010 Amores nos tempos do bonde. Nostálgico e emocionante. Belas lembranças, Nicanor. Parabéns. Enviado por PAULO FÁBIO ROBERTO - fabbito@uol.com.br
Publicado em 17/08/2010 Caro Nicanor, somente para ficar claro para a "mocidade" que não conheceram os bondes...somente os assentos da primeira "fila" tinha "este inconveniente" de ficarmos voltados uns para os outros...os demais não o eram, tanto assim que ficavam passageiros "em pé" entre os mesmos...e eram "reversíveis" - abraços de um ex-lighteano - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 16/08/2010 Boa narrativa, sobre amores no belo Trianon, mais belo ainda nessa época, com sua pérgola e suas estátuas. Só achei estranho o final, vc podia ter escapado dessa escatologia à Capasso. Abraços. Enviado por Alberto Mastrangelo - almaster@terra.com.br
Publicado em 16/08/2010 Acho que as freiras ficaram com vontade de dar uma bicóca na sua face. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 15/08/2010 Gostei muito de suas lembranças. Belo texto. Enviado por suely aparecida schraner - cgestorveleiros@gmail.com
Publicado em 15/08/2010 SAUDADE DOS BONDES, ESCREVI UM TEXTO O BONDE AV> ANGELICA. TEMPOS MARAVILHOSOS. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
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