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Categoria - Outras histórias Festas de aniversário eram as nossas em “Sampa” Autor(a): Lygia Martins de Souza - Conheça esse autor
História publicada em 24/08/2010
Dia de aniversário na minha família era coisa de louco. Já no dia anterior minha mãe cozinhava o dia todo, ficando com o rosto vermelho, do forno, e o avental coberto de farinha. Eram fornadas de coxinhas, empadinhas e pasteizinhos deliciosos que iam saindo e sendo guardados no alto da cristaleira para a criançada não mexer. No dia da festa, de manhãzinha, tia Amélia chegava para fazer o bolo e vinha com uma sacola cheia de corantes, baunilha, açúcar de confeiteiro, enfeites prateados. A gente se ajuntava para dar opinião quando o bolo estava pronto.

'Faz a cara do palhacinho amarelo!’ 'Faz cabelo nele com o chocolate que sobrou de enrolar o brigadeiro'. Faz isso, faz aquilo, e a tia Amélia fazia. O bolo era enorme, recheado de leite condensado, e ia para o centro da mesa. Ao lado do bolo, docinhos de tudo o que era coisa, de abóbora, de xuxu, de batata doce, de coco, de milho verde.... E o brigadeiro, é claro, o rei dos docinhos de festa.

Quando o aniversário era meu, que alegria! À tarde começavam a chegar os parentes. Era a tia Nati e seus cinco filhos, a tia Dora com seus dois endiabrados, a tia Ju, que era freira e vinha com presentes caros, dados a ela, que os passava para nós. A tia Matilde, com minhas duas priminhas e a vó Carmela. A festança começava mesmo quando os pais chegavam, tio Nelson, meu pai, tio Fábio e tio Dudu. Os homens se reuniam na cozinha, fumando e tomando cerveja, e as mulheres na sala, comentando a vida alheia e comendo docinhos.

As crianças subiam para os quartos e reviravam tudo, mas tudo era permitido em dia de festa. Aos meus primos se juntavam alguns amiguinhos da rua e algumas colegas do Grupo Escolar Rodrigues Alves; a bagunça era incrível. Quando todos se cansavam de destruir a casa, íamos para a rua brincar de virar a garrafa, meninos beijando meninas e vice versa. Até que um pai mais zeloso saísse lá fora atrás da sua filha e acabasse com a brincadeira de beijos...

Dez horas e ninguém ia embora, onze horas e a conversa ia longe, só depois disso é que alguém decidia se despedir. Muitas vezes alguém da família dormia ali mesmo, em nossa casa, no sofá da sala, em colchões no chão, especialmente quando bebera demais ou perdera o último ônibus. Minha cama ficava forrada de presentes: livros, sabonetes, roupas, lancheira nova, bijuterias etc. Que felicidade! Outro dia estava me lembrando destas festas e comparando com as daqui da Inglaterra.

Aqui a festa tem hora para começar e acabar. Começa às três e acaba às cinco. São convidadas, no máximo, oito crianças. E os pais que trazem os filhos não são servidos com coisa alguma, nem um suco. O bolo (pequeno, comprado no supermercado) só aparece no final da festa, e desaparece em seguida. Foi levado para a cozinha, onde é cortado em pedacinhos do tamanho da palma da mão de uma criança e embrulhado em papel prateado, para ser entregue no final para cada criança. Ninguém nunca viu um brigadeiro e se come pedaços de cenoura e pepino. Eu sei, é mais saudável, mas “cadê” a festa nisso?

Não. Festas eram aquelas. Festança para nunca mais se esquecer. Até hoje elas aquecem o meu coração.

e-mail do autor: lymms7@hotmail.com
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Publicado em 28/08/2010 Lygia, a sua comparação entre o Brasil e a Inglaterra no quesito comemorar datas me fez lembrar uma amiga que foi trabalhar numa cidade da França por um ano e levou as filhas. Quando perguntado sobre o que elas achavam de lá, a filha menor assim descrevia o lugar: "não vejo a hora de voltar, aqui tudo é branco e preto". Parabéns pelo seu texto, que mais uma vez emocionou. Abraços Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 25/08/2010 Quanta felicidade nestes aniversários, Lygia, realmente a gente se esbaldava. No final do texto vc faz uma comparação com uma festa de aniversário na Inglaterra, é o mesmo que comparar um aquecedor com uma geladeira. Parabéns, Lygia.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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