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Categoria - Paisagens e lugares O velho Cemitério do Araçá Autor(a): Alvaro Glerean - Conheça esse autor
História publicada em 10/09/2010
Na época em que estranhos fatos me aconteceram, a linha verde do metrô ia apenas da Estação Ana Rosa até a Estação Clínicas, não atingindo, como hoje, a estação Vila Madalena. De sorte que, para ir ao trabalho, eu tomava um ônibus na Avenida Pompéia que me levava até o ponto, onde, após atravessar a Avenida Doutor Arnaldo, eu chegava à entrada do metrô Clínicas.

Mas, sistematicamente eu cumpria uma velha aspiração, a de entrar no cemitério do Araçá e aí dar um agradável passeio pelas alamedas do dito cujo. Além de gozar do agradabilíssimo aroma da exuberante vegetação própria dos cemitérios, eu dava um banho de satisfação aos meus olhos e ao meu cérebro ao ler avidamente as placas dos túmulos em que constam os dados íntimos de seus habitantes, ou seja, nome, muitos dos quais pertencentes a ilustres famílias; e principalmente, o que sempre me deu um arrepio, as datas - a célebre estrelinha referente à data do nascimento e a cruz, relativa à da morte. Isso sem falar sobre o fascínio das fotografias. - Isto, me lembro bem, sempre, desde criança quando ia com meus pais todos os dias de finados, muito me impressionou, principalmente as datas do século dezenove e lá me metia eu a calcular quantos anos havia vivido aquela criatura cujos restos lá estavam, como tal pessoa havia vivido, quem teria sido, etc. e tal.

Com certeza a minha paixão por cemitério era devido ao fato de eu sempre ter sido um sonhador e por ter dado total liberdade à imaginação. Muitas vezes surpreendia-me imaginando como teria sido a vida daquele ser (ou ex-ser) que estava agora enterrado exatamente frente a mim. Era capaz de ficar muitos minutos nessa elucubração. Portanto, creio estar plenamente justificada a razão de eu ter ficado profundamente satisfeito quando tomei conhecimento do fato de que teria de descer da condução, em frente do cemitério para me dirigir ao metrô. Creio também não ser necessário dizer o porquê de eu sair de manhã de casa meia hora antes do necessário. Lógico que esse tempo seria por mim utilizado para o passeio pelas alamedas citadas.

Nos primeiros dias, foi como que um reconhecimento do terreno. Andava lentamente, examinava atentamente túmulo por túmulo, guardando na memória os que me chamavam mais a atenção por alguma razão até o momento desconhecida para mim.

Não sei dizer por quanto tempo agi dessa maneira, talvez por uns cinco ou seis dias. Mas esse detalhe não importa. Importa sim que num determinado dia em que estava entregue às minhas costumeiras ruminações, ouvi nitidamente uma voz, que não era aquela da minha cabeça, que disse: "Não, não foi exatamente assim que aconteceu. Eu a amava profunda e lealmente e tivemos de nos separar porque fiquei muito doente e não queria me tornar um fardo pesado para ela. Foi por um motivo muito forte, como vê".

Claro que levei um susto; isso nunca me havia acontecido e, principalmente, porque na minha farta imaginação, estava exatamente pensando a razão pela qual não havia naquele túmulo a clássica "saudades de sua esposa e de seus filhos". Imaginava eu que ele, vamos dar aqui um nome fictício, o “senhor André”, havia abandonado a família e, portanto, não havia qualquer boa lembrança, daí a ausência da placa. Constava nela a data da morte, 1943, e estávamos em 1993, portanto há cerca de 50 anos.

Contei um dos episódios passados comigo naquelas andanças tão saudosas; outras mais aconteceram durante vários anos. Nossa memória de velho sempre nos lança episódios passados, os quais, como esse, parecem para os demais pura fantasia, sem maior significado. Mas, felizes, e eu me incluo, graças a Deus, nessa categoria, os que têm a possibilidade de recordar, pois não dizem que recordar é viver? E isso é maravilhoso, principalmente agora que se tem um veículo que nos permite dividir nossas alegrias e nossas histórias com tanta gente que também, com certeza, escrevem, recordam e são muito felizes. Obrigado pela oportunidade mais uma vez.

E-mail: alvarogle@terra.com.br E-mail: alvarogle@terra.com.br
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Publicado em 26/02/2011 Estranho,pois tambem tenho um fascinio por cemiterio,conheci o do Araça,da Consolação quando criança,e realmente é um lugar para fazer uma reflexão do que somos e para onde vamos. Enviado por CARLOS ROBERTO DA SILVA - roberto.aguia@hotmail.com
Publicado em 26/11/2010 Alvaro pode ser conhecidencia,mas eu sempre tive um fascinio por andar no cemiterio,pois e um local para se fazer uma reflexão sobre o que somos,e para onde vamos,so faz mal os vivos. Enviado por carlos roberto da silva - roberto.aguia@hotmail.com
Publicado em 08/10/2010 Texto bem escrito e curioso.Minha mãe também relatava sobre as belassepulturas e alamedas dos cemitérios de São Paulo:Araçá,Vila Mariana,etc... E,também das histórias de pessoas consideradas como santinhas ou protetoras como A. da Rocha Marmo. Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 26/09/2010 Só hoje, quando setembro finda é que tive coragem de retornar ao seu magnífica e assustador relato. É curioso encontrarmos de repente com um nosso extremo oposto. Tenho tanto medo de cemitérios que costumava sonhar e me ver pairando sobre estes e , em outros sonhos, as fotos dos túmulos sorriam e falavam comigo e eu acordava molhada de suor. Com os tempos e a própria vida eu fui levando e encarando certas situações- mortes, enterros, velórios, etc, mas sempre com um pé atrás...coração disparado. Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 19/09/2010 Álvaro, concordo com você que cemitério é lugar de grandes e profundas reflexões.A gente imagina a vida ali com mais detalhes e com mais disponibilidade para amar, porque a vida passa. A gente leva o que viveu. Adorei o seu texto. Mues parabéns. Abraços. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 13/09/2010 O cemitério deu-me uma das maiores lições de minha vida. Quando ainda um jovem executivo, sentindo-me imprescindível, fomos ao sepultamento de um colega e ao meu lado estava o meu chefe quando avistamos uma lápide onde estava escrito:
" Aqui jaz um imprescindível " ou algo parecido, aí me chefe falou: É, o cemitério está cheio de gente imprescindível... Parabéns!
Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 13/09/2010 É fascinação pela morte, o inadmissível final da vida. O Nada absoluto para alguns, e o início de outra existência para outros. Mas, sempre tema radical. Abraços. Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 12/09/2010 Essa predileção por cemitérios não é privilégio seu, Alvaro, eu também gosto, principalmente os mais antigos. Se vc for nestes "modernos", com uma pequena placa com o nome do(a) defunto, é só, não tem a emoção que vc teve. Não duvido do que vc contou mas, como sou um tanto incrédulo, acho que alguém quiz lhe pregar uma peça e, escondido atraz de algum túmulo, "emprestou" sua voz afim de te assustar. Seu texto está ótimo, bem distribuido, compreensível e claro. Parabéns, Glerean.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 12/09/2010 Lembro-me de quando levava meus filhos à faculdade de Higiene para tomarem vacina. Depois atravessávamos a Doutor Arnaldo e íamos passear no cemitério! Vou repetir o que escrevi em um outro comentário: lendo texto como o seu me dá uma estranha sensação de normalidade! Lia. Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 12/09/2010 Alvaro, bela história, mas além de tudo, cemitério é um lugar mágico, cheio de história, de arte,aventura, paz, é um lugar para quem quiser saber um pouco de historia complementar real e só visita-los, parabéns,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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