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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades De fato, recordar é viver Autor(a): Alvaro Glerean - Conheça esse autor
História publicada em 27/10/2010
Passei minha infância na Rua General Osório, inicialmente na casa de número 415. Já antiga, com dois dormitórios, sala e um pequeno quintal. A cozinha de tamanho bom possuía forro de madeira, com ripas trançadas que deixavam espaços entre si.

Meu pai descascava laranjas de modo que formavam tiras contínuas as quais eram arremessadas para o forro e lá ficavam presas por certo tempo até secarem. Eram então utilizadas para acender o fogão a carvão.

No quintal havia o tanque, o banheiro e um local elevado e coberto de zinco onde a roupa era secada.

Próximo à casa, no térreo de um dos únicos prédios da região, ficava o salão de barbeiro, salão Remo, do qual nos servíamos, meu pai e eu apenas, pois não havia os unissex.

Mais adiante, num prédio menor, um dos apartamentos era habitado por uma "senhora" que recebia cavalheiros. Nunca soube se isso era real ou invencionice da meninada de mais idade e sedenta de "aventuras". Também, para um garoto como eu com cinco ou seis anos de idade, isso não fazia muito sentido na cachola em formação...

Ficou indiscutivelmente marcado em minha memória o dia em que nos céus do bairro surgiu o tal Zeppelin. Ninguém poderia imaginar que pouco tempo depois eclodiria a horrenda Segunda Guerra Mundial. Lembro também a terrível apreensão de minhas tias com primos mais velhos em relação à sua convocação ou não. Durante o conflito, eu colecionava, retirados de O Cruzeiro, mapas muito bem elaborados e coloridos que mostravam a situação dos aliados frente aos exércitos do eixo.

Meu pai, juntamente com meu primo, Nico (Roberto, Tonico, Nico) montavam rádios e os vendiam; tenho certeza que meu pai fazia tal coisa unicamente para ajudar meu primo a ter uma obrigação. Isso funcionou, pois mais tarde esse primo juntou-se a um senhor chamado Damasio e aí sim, criaram uma firma cuja marca do rádio era Roberdam (Rober+Dam). Depois, Nico e seu irmão Osvaldo foram os pioneiros a importar e embalar uma novidade chamada detergente: Asseiol.

Após alguns anos, mudamos para o número 248 da mesma rua, agora mais próximo da Rua Santa Ifigênia. Aí, já com pouco mais de idade, as lembranças são mais nítidas.

Ainda o fogão a carvão, mas sem o forro de madeira... E a casca de laranja foi substituída por jornal. Por isso, com frequência eu era convocado para ir comprar carvão na carvoaria na mesma rua, próximo a Avenida São João. Ela era de propriedade de um senhor, Corsino. Seu filho era meu colega do Liceu Coração de Jesus. Na ampla e longa entrada, ele, eu e mais alguns colegas jogávamos futebol com bola de meia. Durante todo o dia eu via meu colega, seu pai e os empregados, totalmente enegrecidos, corpo e roupas pelo pó do carvão (imagino hoje o estado de seus pulmões). Só via o rosto desse meu colega, no dia seguinte no colégio, após naturalmente um banho caprichado.

Quase que diariamente minha mãe sentava-se frente à sua máquina de costura PFAFF para consertar nossas roupas; ou então, remendava meias introduzindo em seus interiores um ovo de madeira. Quando tinha tempo, fazia tricô para nós ou para doar para crianças carentes.

Tive a oportunidade de aprender a tocar um instrumento musical. De início, foi o piano, primeiramente com o professor Donato Notari, depois com o professor Carlino Crescenzo. Como sempre, até hoje adoro música, mas para ouvir e não para executá-la.

Durante a guerra, houve racionamentos, e minha mãe, e até eu, às vezes, ficávamos na fila do armazém (na época chamado de venda) para comprar alimentos (principalmente, farinha de trigo, que creio que, na época, era totalmente importada).

Minha mãe tinha por hábito fazer um delicioso bolo (quando havia farinha) chamado “bolo areia”, cuja receita está guardada por nós com carinho. O interessante é que ela não usava forno para tanto, mesmo quando já se tinha fogão a gás, mas sim, uma espiriteira a álcool, cuja chama penetrava pela abertura inferior da forma.

À tarde, eu costumava com frequência ir caminhando pela Rua Conselheito Nebias e depois cruzando a Rua Rio Branco, para a Praça Princesa Izabel. E assim, com os amigos, jogava bolinha de gude. Lembro-me que fazíamos no chão de terra quatro pequenos buracos, o que deixava a terra com uma forma de L. Em certos momentos do jogo, dávamos o que se chamava "estecada", ou seja, com forte movimento do polegar, atirava-se a bolinha contra a do adversário. Confesso que esqueci como era o resto do jogo...

Todas as quintas e domingos havia a tradicional macarronada, com macarrão feito em casa mesmo. Para isso, era utilizada a máquina de fazer macarrão, que consistia basicamente em seis cilindros metálicos, um central para trabalhar a massa e dois laterais para cortar o macarrão em tamanhos diferentes. Essa máquina, que podia ser comprada em loja, foi feita por um tio meu chamado Bidoca (apelido, claro; apesar de que eu nunca soube seu nome). Eu fazia questão de virar a manivela. Era um macarrão feito em sociedade. Ah! Mas com aquele molho inesquecível!

Aos sábados, na hora do almoço, minha mãe e eu (meu pai saia para o trabalho) ouvíamos pelo rádio uma peça no chamado rádio-teatro, com Manoel Durães, sua mulher Dulcina de Moraes e elenco. Em outros dias à tardinha, ouvíamos com imenso prazer Nho Totico e sua escolinha.

Sistematicamente, até o início de minha adolescência, os sábados à noite eram destinados a ir à casa de uma amiga de minha mãe, dona Vicentina, jogar tômbola. Às vezes, eu namoricava com sua sobrinha, a bela Bijú.

Outro prato que era feito em casa e muito bem saboreado era rim, com um delicioso molho. Nunca mais comi essa especialidade, pois nunca mais alguém se dispôs (ou teve coragem) de fazê-lo.

Mais um prato que teve a mesma sorte era feito por minha tia Tereza, ou seja, miolo à milanesa. Anos depois, quando estudava Anatomia e contava a meus colegas, mostrando os dois órgãos que os comia e que eram deliciosos, todos me olhavam e torciam o nariz, como se eu estivesse dizendo uma enorme heresia (Será? Ou porque eu esquecia de dizer-lhes que não eram órgãos humanos que eu comia?.

Tínhamos uma geladeira, que na verdade não passava de um armário metálico com uma porta, pois ela funcionava com gelo (mas não o fazia). Com frequência, batia à porta o entregador de gelo. Comprávamos, conforme a época, meia pedra ou um quarto. Quando as coisas melhoraram, apareceu em casa um refrigerador de verdade.

Nem tudo, porém, eram rosas. Ouvi por mais de uma vez (sem que soubessem), minha mãe com voz chorosa dizer algo que eu não entendia bem, mas entendia a parte de que minha tia Mariquinha poderia ajudar-nos. Certamente isso acontecia. Além disso, essa tia, casada com tio Artur, tinha posses, pois ele era dono da firma que introduziu e fabricava o anil Colman. Sempre, de suas viagens à Europa, ela trazia de presente para a irmã não só bijuterias, como também, miniaturas de bonecas típicas das regiões visitadas. Ainda hoje estão bem guardadas pelas minhas filhas.

Tudo melhorou muito quando meu pai conseguiu um bom emprego. Tanto que ganhei um trem elétrico Lionel, que muito desejava.

Na época de carnaval, junto com outros familiares, íamos para a Avenida São João ver o corso e ficávamos na loja de meu tio Salvador, dono de uma loja de autopeças. Com lança-perfume e confete, fazíamos nossa festinha particular. Nunca participamos do corso, pois ninguém tinha automóvel. Mas, além disso, por muitas vezes fui à matinê carnavalesca do Cine Coliseu para "pular" o carnaval.

Frequentávamos o Cine Broadway, na Rua São Bento. Quando completei 14 anos, muito orgulhoso por entrar sozinho no cinema e para ver um filme antes interdito para mim, fui assistir no Cine Paratodos, situado no Largo de Santa Ifigênia, o famoso "E o vento Levou"; quatro horas de pura emoção.

Desde pequeno, meus pais sempre incentivaram o fato de eu ler. Quando criança, lia a "Gazetinha", "O Tico Tico"; depois, livros como os da coleção Saraiva, Clube do Livro e coleções da Editora Jackson.

Telefone? Sim, tínhamos, mas creio que com certa dificuldade, pois como me lembro, era quase que um artigo de luxo. Houve gente que o comercializava e custava caro (vendido a prestações). Para se ter idéia da quantidade de aparelhos na cidade, o seu número era de apenas cinco dígitos.

Televisor? Sim, só no final da década de 50, um Emerson, de quatorze polegadas, preto e branco (claro). Amigos meus vinham em casa assistir jogos de futebol.

Música? Sim, meus pais sempre gostaram muito de música! Meu pai comprava com frequência discos; quando ele chegava em casa com os ditos cujos, era uma festa e logo os colocávamos para ouvi-los (na época de 78, rotações) numa rádio-vitrola Atwater Kent, o fino da época, com ondas curtas. Era necessário trocar frequentemente de agulha, sempre metálicas. Fizeram sensação na época as agulhas de cactus.

Num certo dia da semana, eu acompanhava minha mãe à feira (não tínhamos condições de pagar uma empregada) do Arouche a fim de fazer compras para a casa. Para mim, era uma diversão prestar atenção não só nos feirantes (hoje eu diria que eram umas "peças"), mas também nas freguesas, pois aconteciam, além das costumeiras pechinchas, discussões por causa dos preços e da qualidade dos alimentos. Marcou-me muito quando, por mais de uma vez, vi uma das feirantes comer pão com mexerica.

Como consequência disso tudo, tornei-me um incorrigível apaixonado pela música, teatro e pela leitura. Já nesta fase bem avançada de idade, tenho certeza que são muito importantes na vida da gente a família unida, os amigos, as conquistas, as dores, as decepções, as inúmeras dificuldades e até as doenças, mas principalmente o respeito e o amor. Tudo isso colocado num cadinho, resulta, após cuidadosa mistura, na felicidade e confiança no futuro. Recordar é isso tudo e ainda mais (esse site tem a enorme importância de fazer com que a gente recorde)!

Com certeza terei mais alguns anos de vida muito felizes, pois vi que não fiz tudo que queria, mas creio que fiz o suficiente. Todas as recordações não caberiam aqui. Infeliz daquele que não crê nisso e ou não tem o quê ou não quer recordar. Obrigado. Espero que eu tenha incentivado mais ainda a soltarem suas recordações e as divulgarem.

E-mail: alvarogle@terra.com.br E-mail: alvarogle@terra.com.br
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Publicado em 16/11/2012 ADOREI A HISTORIA DE SUA INFANCIA....FOI UMA AULA DE VIDA E UMA VISAO DO PASSADO MUITO BEM DESCRITA. Enviado por CLAUDIO PARDAL - PURIFICALL@HOTMAIL.COM
Publicado em 02/11/2010 Caro Álvaro, belas e nítidas recordações de alguém que viveu uma vida plena e marcante. Suas lembranças são, em parte, as lembranças de todos nós. São, também, registros vivos de uma época que vivenciamos em nossa querida São Paulo. À propósito, fiquei curiosa por conhecer o ‘bolo de areia’ que sua mãe fazia... é segredo de família ou você poderia nos dar a receita algum dia ? Parabéns pelo texto. Um abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
Publicado em 31/10/2010 Recordar é tão bom quanto ler as recordações dos
nossos colegas... e as recordações são sempre
felizes porque as ruíns a gente deleta.
Realmente, quem não tem o que recordar é porque
não viveu!!! Gostei! Lia
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 30/10/2010 Que maravilha Alvaro, enfim uma historia original e verdadeira falando de coisas comuns do nosso tempo. Como foi bom vc relembrar os sábados com Manuel Durães, que minha mãe não perdia. E o bolo feito na espiriteira de álcool e na forma com o buraco no meio!
São historias que as gerações mais novas nem acreditam que sejam verdadeiras.
Espero que escreva muito mais.
Um forte abraço.
João Eduardo Pantarotte
Enviado por João Eduardo Pantarotte - pantarotte@hotmail.com
Publicado em 27/10/2010 Álvaro. tenho uma amigo que morava ai bem pertinho de você naquela época. Uma das ruas que você citou. Aquele tempo essas ruas do centro se confundiam com as ruas dos bairros. Inclusive o cantor Peri Ribeiro, Filho de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, era amigo dele e tambem morava pelas imediações. Anos 1950.Hoje infelizmente ali é uma área degradada, como boca do lixo e de fumo. Que pena. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 27/10/2010 As novelas naqueles anos 1940-50 era uma "praga" não havia quem não ouvia aquele monte de novelas o dia inteiro que vinha da Radio São Paulo, Com Odair Marzano, Laura Cardoso, e seu marido Fernando Baleroni, Geraldo Cunha, com textos e direção de Manuel Durães.As novelas começavam logo pela manhã, mas era a novela das 14 horas que tinha uma audiência maciça. Talvez pelo fato de as mulheres ter ja feito a comida e lavado a louça. Quando a gente que estava na rua jogando bola sentia aquele cheiro de álcool queimando na espiriteira. Era sinal que a novela tinha acabado e, as mulheres estavam fervendo o leite. Logo depois elas saiam da toca e gritavam os nomes dos filhos. Fulano vem tomar café. Quando minha mãe via que eu não estava em frente a minha casa sabia que eu ia tomar café na casa onde esta estava em frente jogando bola. Assim como os moleques que estavam jogando em frente a minha, sentava na mesa e mandava ver o café com leite. Eita vida boa. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 27/10/2010 Interessante resumo histórico de um paulistano que sempre viveu no centro desta formidável cidade. Parabens, Álvaro.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 26/10/2010 Alvaro, maravilhosas lembranças dos anos 40...era assim mesmo...só não concordei com o cine "Broadway" na rua São Bento...ou você troca o nome do cinema, ou então da rua São Bento, para a av.São João...rsrsrsrs e a grande atriz Dulcina de Moraes, era casada com Odilon Azevedo,inclusive tinham a Cia.de Teatro Dulcina/Odilon...nada a vêr com o Manoel Durães, da Radio Record...Com minhas desculpas, pelas correções. Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 26/10/2010 ALVARO BELO TEXTO, SO UMA PEQUENA CORREÇÂO, O CINE
BRODWAY FICAVA NA AV. SAÔ JOAO, NA RUA SAO BENTO ERA OS CINES ROSARIO E SAO BENTO.MAS VALEU, UM ABRAÇO..
Enviado por joao claudio capasso - jccapasso@hotmail.com
Publicado em 26/10/2010 Alvaro, como o espaço anterior não deu para continuar, escrevo aqui que, Manoel Durães, não era casado com a atriz Dulcina de Moraes e sim, com sua irmã, Edith de Moraes e de fato,os dois trabalhavam em uma Cia.de Teatro, junto com a Dulcina e se separaram dela, indo os dois, Edith de Moraes e Manoel Durães, trabalharem juntos, nos "radio-teatros" da Radio Record... assim sendo o Manoel Durães não era marido e sim, cunhado da Dulcina...espero ter ajudado. Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
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