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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Sessão corrida Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 11/11/2010

Vi, há muito tempo, um belo filme. O astro era Burt Lancaster, e o título, como quase sempre ruim com a tradução em português, era “Enigma de Uma Vida”. “The Swimmer”, no original. “O Nadador”.

Era a respeito de um homem que retornava à sua cidade e refazia seu caminho, físico e espiritualmente, até sua casa, nadando pelas piscinas de seu passado.

Tentarei algo muito diferente, -afinal, não sou bom nadador- mas, de certa forma, relacionado, mergulhando de cinema em cinema, de filme em filme, também talvez à procura de mim mesmo, de quem fui e do que sou agora.

Então, não esperem aquelas frases manjadas com relações de filmes -ah, que saudade da “Noviça Rebelde”, do “Doutor Jivago”... Não se fazem mais filmes como aqueles... Nada disso, mesmo porque não é verdade.

O cinema evoluiu e continua modificando-se, com ótimas produções. Mesmo porque não me congelei nos filmes desses tempos, e continuo um cinéfilo.

Mas se tenho de restringir-me a uma época do cinema, ela é a de ouro da Cinelândia e dos belos cinemas de bairro. Não dá para escapar. Então, o que estou fazendo é pensar num cinema e ver que filme me vem à mente. E um só, dos milhares que assisti.

Foi, com certeza, no Paissandu que vi o excelente “A Princesa e o Plebeu”, com Audrey Hepburn e Gregory Peck. Apaixonei-me por Roma, no ato.

A cena em que Greg mete a mão na “Boca da Verdade” despertou-me o fascínio pela arqueologia e mistérios da cidade.

Gesto que eu viria repetir, vários anos depois com meus sócios do Martinelli, adentro o Pedro II, em pleno Anhangabaú. Ali Christopher Lee barbariza, como “O Vampiro da Noite”.

Vejamos... O Marrocos, que me lembra? Na sua enorme fachada, um também gigantesco cartaz: “Giant, Assim Caminha a Humanidade”, último filme de James Dean. Fui ver, mas achei fraco. Continuo achando.

No Ipiranga, um grande choque: a linda Janet Leigh morre de forma brutal bem no início de “Psicose”. Tomei o ônibus para casa traumatizado. Arrrghhh!

Acho que não fui muito ao Marabá. Mas lembro-me de um bang-bang, com colegas do colegial. Desta vez, Peck fazia um vingativo e infalível pistoleiro, todo de negro. Ah, “The Bravados, O Estigma da Crueldade”.

O Metro... Lembro-me de estarmos, minha mãe, meu irmão e eu, cruzando uma noturna Praça Marechal Deodoro, bela e tranquila. Rumávamos para ver Miguel Strogoff, o “Correio do Czar”.

No Aurora, dos vários que assisti ali, fico com “O Trono Manchado de Sangue”, de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune, uma versão japonesa de Mac Beth.

No poderoso República... “O Poderoso Chefão, Primeira Parte”. É justo.

No Regina, ficarei com “Gunga Din”, com Cary Grant. Mais adiante, está o Cinerama. Então, o filme de apresentação do sistema – “Isto é Cinerama”! Os sustos começam num carrinho de montanha russa e outros efeitos assim se seguem no imenso telão.

Como “The Swimmer”, nadando das profundezas de um cinema a outro, aproximo-me da Santa Cecília de minha juventude. Já estamos quase lá.

No Itamarati, R. Barão de Tatuí, muita coisa boa. Ali vi “Meu Tio”, de Jacques Tati, num dos raros retornos de minha mãe aos cinemas, pois, num passado distante, havia feito uma promessa de nunca mais fazê-lo. Mas esta já é outra história.

O Miami, antes Plaza... Fico com “Trapézio”, com Tony Curtiss, Burt Lancaster e Gina Lollobrigida. No São Pedro, diante da casa de Tia Zilda? “Les Amants”, de Louis Malle. Chocante para a época.

Seguindo em frente, o fantástico Santa Cecília. Que as estátuas indonésias e cabeças de elefantes não nos desviam a atenção de “Matar ou Morrer”, com o heróico Gary Cooper em sérios apuros.

Depois, o Esmeralda, primeiro cinema a que fui, recém-chegado a São Paulo. Ali vejo, com bastante atraso, “Shane”, onde Jack Palance dispara um verdadeiro tiro de canhão contra um pobre camponês, que voa sobre a lama do vilarejo.

Finalmente o Haway, na R. Turiassu, já bem distante de casa. Ali Rock Hudson, o meloso galã da moda, tenta levar para a cama a eterna virgem Doris Day. “Pillow Talk”. Lembram da musiquinha?

Vou escapar do roteiro para, saltando para o futuro, ver no Cinesesc, na Augusta, o maravilhoso “Nós Que Nos Amávamos Tanto”.

Desculpem, mas o filme e o cinema merecem. O ano é 74, e estamos longe não só da Cinelândia, de Santa Cecília, mas de nossa tumultuada juventude...

E “Assim Caminha a Humanidade”, para voltar a Giant, no início do texto.

E-mail: saidenberg@ajato.com.br

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Publicado em 30/11/2010 Luiz, eu também gosto muito de cinema e você, sempre de forma elegante, nos levou a uma bela viagem. Muito bom! Enviado por Luiz Ramos - slramos@bol.com.br
Publicado em 16/11/2010 Caro Saidenberg, seu modo de escrever é empolgante. É como se suas palavras fossem ‘carregadas’ de uma emoção-fria, pois são envolventes e precisas. Até os que não tiverem oportunidade de ver os filmes citados, se sentem movidos a correr até uma locadora e matar a curiosidade. Belo registro. Parabéns e um abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
Publicado em 16/11/2010 Desta vez um agradecimento especial a Carmen de León, minha amiga no Facebook. Vc observou muito bem, Carmen. O método do que gosto de ler- e escrever- apelidei de "precisa paixão". É o que procuro desempenhar, na escrita e na vida.
Numa festa recente, alguém comentou sobre a novela Passione. Eu declarei:- Passione, la preferisco al vivo! Muchas gracias, amiga, e um abração.
Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 15/11/2010 Agradeço novamente. Mas, de minha extensa lista de filmes, que continua, houve um pelo qual tenho enorme carinho. Talvez por gostar da Itália, talvez por tratar tão bem da essência humana, talvez por ser divertido, crítico, e até triste, como disse uma amiga. E uma grande declaração de amor ao cinema italiano. Mas, antes de tudo, por ser um baita filme!! ! Aí está - Nós que nos amàvamos tanto- C´eravamo tanti amati.
De Ettore Scola, 1973, com Vittorio Gassman, Stefania Sandrelli, Nino Manfredi.
Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 15/11/2010 Agradeço tb os acréscimos lembrados, alguns deles muito bons mesmo, e dos quais assisti a maioria. Mas, lembrem-se, amigos, me propus a falar de um cinema e só UM filme dele. Senão, não teria fim. Por exemplo, no Itamaraty, donde citei Meu Tio, lembro-me de muitos outros: Orfeu da Conceição,
Les Tricheurs, Os Deuses Vencidos, quase todos da Brigitte, Quanto Mais Quente Melhor, e por aí vai. Abraços.
Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 13/11/2010 Que bom que "de filme em filme" você tenha se
encontrado! Adorei... nadando pelas piscinas de
seu passado! Acredito que enquanto vocês assistiam
filmes... eu vegetava! Isto é incrível!!!
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 13/11/2010 Acrescentando aos italianos do Capasso: o dollar
furado, o candelabro italiano, ou melhor eram produções italo/americanas e os assisti no Cine Haway não era bons filmes aos olhos da maturidade, mas na época fizeram vibrar os adolescentes. Parabéns. Mirça
Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 12/11/2010 Agradeço muito os comentários. Os cinemas e os filmes os mereciam. Quero fazer uma correção e um adendo:
Quando digo- Gesto que viria repetir, anos depois- estou falando da Boca da Verdade, em Roma, com minha espôsa e não os sócios do Martinelli. E quero acrescentar mais alguns cinemas da época; no Windsor, Av. Rio Branco, vi A Patrulha Perdida; no Ouro, Bad Day at Black Rock; no inevitável Art Palcio, meu escolhido é Spartacus, de Stanley Kubrick. No Bijou, o magnífico Amor e Anarquia.
Enviado por Luiz Simões - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 12/11/2010 Luiz, essas lembranças - dos cinemas e dos filmes marcantes - traduzem a cara de uma São Paulo em permanente transformação. Muito lindo e desafiador o seu texto, pois nos remete a bons e alguns difíceis momentos da vida! Um abraço, Vera. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 12/11/2010 Pena que nos dias de hoje as tais tecnologias cinematográficas exilaram as grande películas dos filmes com grandes enredos, iguais aos que voce narrou. Sorte de quem os assistiu. Abraços. Enviado por Nelson de Assis - nel.som55@yahoo.com.br