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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Família x família Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 19/11/2010

Essa disputa se deu no bairro do Itaim Bibi, lá pelo inicio dos anos 1950. Apesar dos meus 11 anos de idade, lembro-me perfeitamente das refregas entre essas duas famílias. Ambas de origem italianas, que viviam brigando e sempre ficavam de bem novamente. A família de dona Laura contra a família de dona Elvira.

Dona Laura era uma tremenda fofoqueira, mas dona Elvira não ficava atrás. Os maridos de ambas, Seu Antonio Tavares, pedreiro, e Seu Salvador, marceneiro, não participavam das confusões. Dos dois, quem mais se saia e se dava com os vizinhos era Seu Antonio, um tremendo gargantão que dizia ter passado do primeiro para o terceiro ano da escola por ser muito inteligente. Já Seu Salvador era mais resguardado, ficava dentro de casa, gostava de ouvir radio; o pouco que falava era do programa Cadeira de Barbeiro e da Festa na Roça que ouvia aos domingos à tarde já anoitecendo; nas noites quentes do verão, ficava na calçada de sua casa na Rua do Porto, bem em frente à nossa casa, com o rádio ligado, ouvindo Lulu Belencazzi apresentar o programa da Rádio Tupi.

Dona Laura era useira e vezeira em fazer fofocas. Sabia da vida de todo mundo. Apesar das minhas peraltices, ela gostava de mim. Cada vez que eu ia à venda para ela, ganhava uma gorjeta, assim como duzentos réis, trezentos réis, de vez em quando, uma “pataca de quatrocentão”, como se dizia na época. Uma mixaria, e mesmo sabendo que eu tinha dito que era uma tremenda mão de vaca, ela me perdoou. Pra falar a verdade, ela gostava muito de mim. Um dia, sabendo que eu não ia poder ouvir o jogo de futebol, Palmeiras e São Paulo em janeiro de 1951, ainda pelo campeonato paulista de 1950 ("Ano Santo"), por ter ido ao cinema com minha mãe, ela ficou esperando eu voltar só para me abraçar e dizer que o Palmeiras tinha sido campeão ao empatar o jogo. Só uma vez ela ficou brava comigo, porque a xinguei com um palavrão. Foi pelo fato de que, ao invés de me dar uns trocos depois de ir à venda, me deu linha para empinar quadrado (pipa). Mandei, ela para “aquele lugar” e ela ouviu, mesmo já estando um pouco longe. Na verdade, eu disse: “Velha muquirana, filha da...!”.

As brigas com Dona Elvira eram por causa das fofocas que ela fazia por causa da Pina, filha da dona Elvira que tinha ficado viúva do Paquito, e pouco depois, estava se enroscando com o Orlando (diziam), um cara que não saia de lá, e todos os domingos, até lavava a louça depois do macarrão da Mama, só com a intenção de faturar a viúva.

Na verdade, esse tal de Orlando era um Gabiru, termo que se usava na época para homens que não podiam ver mulher que já botavam a mão no bolso!

Minha irmã, com 14 anos que tinha a incumbência de lavar a louça aos domingos, enquanto que minha mãe ficava numa boa, deitada depois do almoço, e saia no terraço e ficava de bobeira olhando a rua. Orlando já imaginava que a menina estava olhando para ele e ficava fazendo gestos para ela, no que meu pai viu. Então, ele atravessou a rua e foi falar para ele não ficar fazendo aquilo, pois ela era ainda uma menina. O idiota, então, deu uma de bacana e fez gesto de pugilista, como quem ia desferir um soco no meu pai.

Mal ele piscou, tomou uma pancada pelo meio da cara que foi ao chão. Quando estava começando a ser chutado pelo meu pai, adivinha quem chegou para apartar? Acertou quem pensou na Dona Laura. Com um tremendo faro de coisa ruim acontecendo, lá veio ela gritando: “Seu Ângelo, o que é isso?”!

Entrou no meio da briga e, corpulenta como era, e meio gorda, jogou meu pai para um lado e o Orlando para o outro. E “ai” de quem desobedecia ela; tinha o chamado “braço de açougueiro desossador de carne”. Cada qual foi para seu lado. Ai o problema estava resolvido.

Outra encrenca feia foi quando a Dona Ângela, dona da nossa casa, foi perturbar meu pai, querendo aumento do aluguel. Meu pai, muito folgado, não estava nem aí. Um dia ele disse para minha mãe: ”Qualquer dia vou estourar essa italiana”.

E num domingo, ela foi lá na hora do almoço e não saia de lá se não resolvesse a questão do aumento do aluguel, que era de Cr$ 200,00. Falou, falou e falou; meu pai ouvia, mas nada dizia. Quando ele ta estava em seu limite, pegou a picareta e foi pra cima dela. Bem, aí ela viu que a coisa estava ficando tensa e correu.

A sorte dela que até meu pai abrir o portão, deu chance para que ela se distanciasse um pouco, já que ela morava uns cinquenta metros de casa. Ambos gordos, a corrida era mano a mano, ou seja, ninguém ia chegar a nada.

Nesse momento, vem chegando Dona Julia, a tia da minha mãe que, junto de Dona Laura, conseguiram segurar o velho totalmente enfurecido. E a coisa ainda continuou com uma chuva de pedras voando por parte da família dela com as pedras passando por cima de dois quintais entre a nossa casa e a casa de dona Ângela, que era conhecida no Itaim de "Chorenga".

Mas, voltando às duas figuras... Dona Elvira e Dona Laura tinham um amor de ódio e paz. Brigavam e logo em seguida estavam de bem, coisa típica de família de italianos. Eram vizinhas de muro e, por cima dele, trocavam favores. Uma xícara de açúcar, uma caneca de arroz, outra, alho e cebola; estavam sempre abastecidas. Não faltava para nenhuma das duas. Mas quando algo não ia bem aqui ou acolá, sempre tinha alguém que ficava sabendo através da língua solta de uma das duas. Era um tremendo frege quando isso acontecia. Mas havia uma diferença entre ambas. A religião.

Dona Elvira era uma tremenda carola, vivia na barra da saia do Frei Bento da paróquia de Santa Teresa, do Itaim Bibi. Sempre que o via, beijava sua mão. Se descalço ele estivesse, ela beijaria os pés.

Já Dona Laura que eu visse, ou tivesse ouvido, nunca tinha se manifestado em termos de religião, a não ser quando fez 50 anos de casada em que deu uma tremenda festança, com missa e tudo, e um disco de 78 RPM de Carlos Galhardo na vitrola...

Dona Elvira tinha um filho que era doente, e sei lá quem botou na cabeça dela que ele tinha encosto espiritual e ela tinha que ir num centro espírita. Como a dor leva as pessoas até “o diabo que os carregue”, que é o “quinto dos infernos”, lá foi ela num centro de espiritismo, chamado de “mesa branca”, que não era muito perigoso, segundo as línguas, levando ao seu filho um tremendo xarope. Infelizmente, meu xará Mario.

Acho que lá no centro espírita fizeram a cabeça de dona Elvira, pois foi dito que ele tinha o dom espiritual de um bom "cavalo", apto a receber espíritos.

Ela, então, fez em sua casa um centro em que seu filho era o "cavalo" que recebia os espíritos. Quando Frei Bento soube que sua puxa-saco tinha virado a casaca, expulsou-a da igreja e ela ficou sendo vista como uma pessoa não grata e foi excomungada.

Sua casa, ou melhor, o centro onde baixava espíritos, funcionava quase todas as noites. Dona Laura ficava quietinha em seu canto, pois tinha medo dos que vinham do além, ultrapassando o muro, invadindo sua casa.

Nesse ponto, Dona Elvira tinha um pouco de sossego, pois estava um pouco longe das fofocas da vizinha. Porém, Seu Túlio, o irmão de Dona Laura, que enxugava vários copos de pinga, foi o X da história. Numa noite que ele tinha tomado todas, chegava às 23h em casa, totalmente bêbado, pra lá de Bagdá. Ao se aproximar, ouviu os murmúrios espirituais que vinham da casa ao lodo da sua. Aí entrou o espírito etílico do seu Túlio, e gritava feito louco em voz alta: “Mário, vem curar a minha bebedeira”!

Ai foi um fuá. Dona Elvira, que também tinha a boca suja, soltou todos os palavrões impublicáveis naqueles anos 1950, de "muita educação".

Passado esse episódio (o centro não tinha dado certo e Dona Elvira já tinha feito as pazes com Frei Bento, que revogou tudo o que tinha colocado contra ela na Santa Madre Igreja), a paz voltou aos lares da Rua do Porto. Valsa lenta, na voz de Carlos Galhardo, através de um disco que Seu Antonio tinha comprado por causa das bodas de prata. Vinte cinco anos de veneração e prazer, lá, lá, lá.

Quando Ana Maria, neta de Dona Laura, estava fazendo um ano de idade, e a festinha estava programada, Dona Laura convidou sua vizinha de muro para selar em definitivo a amizade, que ia e voltava. Para nós, crianças, era uma festa, no sentido literal da palavra. Sim, porque além dos doces e refrigerantes, sempre sobrava algo para morrer de rir.

E nessa festinha não faltou. Tudo quanto era evento ou solenidade que acontecia naquele pedaço, lá estava o professor, Seu Alfredo Cunha, pai do radialista Geraldo Cunha das novelas da Rádio São Paulo, que fazia as novelas das 14h junto de Laura Cardoso e Odair Marzano. Seu Alfredo era o orador das solenidades. Nunca tinha nada anotado no papel, falava de improviso. E como falava o cara.

Nesse aniversário, ele falou até pelos cotovelos e a gente com uma tremenda fome de doces, sanduíches e refrigerantes. Todos apostos em volta da mesa com a velinha acesa e Seu Alfredo falando. Quando, num gesto intempestivo, esbarrou a mão num copo que se espatifou no chão. Seu Túlio, já irritado, não perdoou. Soltou diversos palavrões. Risos por toda parte e até demais, o que fez com que Seu Alfredo parasse de falar. Aí que a festa começou.

Em 1951, já estava no meio do ano, e meu pai e a Irene, filha de Dona Laura que moravam nos fundos da nossa casa, resolveram se mudar. A Irene e Seu Osvaldo compraram uma casa na Vila Sonia. Meu pai, na Vila Olímpia. Mudamos num domingo, 1º de Abril, e não foi mentira.

Na segunda-feira, quando eu e meu irmão fomos à escola, passando em frente de onde morávamos, a Dona Ângela estava na rua conversando com vizinhos. Ao nos ver, falou alto para a gente ouvir: “O Seu Ângelo, que foi homem, veio entregar a chave na minha mão. A ‘Irena’, aquela mulherzinha, deixou a chave na porta".

E-mail: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 24/11/2010 Bela e típica crônica que tão bem expressou o cotidiano das famílias descendentes de italianos,principalmente.No final,tudo era resolvido:tutti bonna gente! Acho que se escreve assim,pelo menos era assim que chegava aos meus ouvidos,após memoráveis confusões.Parabéns por sua rica contribuição ao site com histórias fantásticas,pitorescas,históricas,etc... Um abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 22/11/2010 "Dona Laura era useira e vezeira em fazer fofocas", mas você não fica atrás em Lopomo, falou de todo mundo rs, deliciosa crônica, eu parecia estar lá observando tudo, thanks. Ivan Pinheiro Enviado por Ivan Pinheiro - ivan-pinheiro@uol.com.br
Publicado em 21/11/2010 Alegre e comovente retrato de uma época. Sempre com a presença do Mario, é claro. Parabéns, Lopomo.
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 21/11/2010 Prezado Sr. Mario, imagino que suas crônicas, sempre interessantes e divertidas, também são fonte de consulta para historiadores, antropólogos e outros estudiosos sobre costumes e comportamento. Abraços, Abílio Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 19/11/2010 Você é excelência nesse tipo de narrativa. Parabéns! Meu lado italiano ( família Ferolla) sempre viveu no Brás e nós sempre por lá estivemos na casa de minha avó e você detalhou fielmente como eram os " entreveros" de então que, invariavelmente, terminavam em "pizzas", todo mundo abraçado, cantando o "Sole mio" ! Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 18/11/2010 sr Mario, que legal a sua historia! E que personagens curiosos! Em 1951, eu completei 2 anos na vila Olimpia ,justamente, quando seu pai comprou casa aqui!Quem sabe ate fomos vizinhos...!Escreva mais!!!! Abracos meu irmao contemporaneo! Enviado por Gerson Gloucester Cordeiro Ferreira - gersongferreira@hotmail.com
Publicado em 18/11/2010 Mario, ainda bem que seu pai se mudou, já pensou se hoje voce fosse morador lá! O pau que ia sair entre voce e a Dª Angela, por ela querer aumentar o aluguel? abrs... Enviado por Ailton Joubert - ailtonjoubert@hotmail.com
Publicado em 18/11/2010 NA RUA DA CONSOLAÇÂO, TAMBEM TINHA VARIAS FAMILIAS, ITALIANAS, PORTUGUESA, E ESPANHOLAS, ERA
UMA FOFOCA GERAL, CERTA VEZ TRES MULHERES, BATERAM NO COITADO DO FRANQUEIRO.( ELE VENDIA FRANGO DE PORTA EM PORTA) UMA DELAS NÂO PAGOU O FRANGO, ELE FOI COBRAR E LEVOU UMA SURRA, AS ITALIANAS ERAM BEM FORTES, FOI EM 1953.
Enviado por joao claudio capasso - jccapaasso@hotmail.com
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