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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Salve Santo Antônio Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 02/12/2010

Na cidade de São Paulo, como em todo o interior, as fogueiras ardiam, as batatas doces estavam em panelas à espera das brasas ficarem cobertas de cinzas, e seriam colocadas depois que pés cascudos pisavam sem que eles ficassem queimados. Mas a festa gostosa mesmo era no interior.

As igrejas distribuíam o pãozinho de Santo Antônio que as pessoas comiam somente quando estavam em perigo, ou então, colocavam, na lata de arroz como expectativa de prosperidade e que não faltasse alimento pelo ano todo.

No ano seguinte, no dia de Santo Antônio, haveria a São João e São Pedro, as pessoas oravam e cantavam cânticos religiosos e modinhas de culto popular. Tinha também parodias com respeitos às modinhas; por exemplo, na PRK-30, Lauro Borges e Castro Barbosa cantarolavam no programa: “Salta o Antoninho, Salta o Joãozinho, Salta o Pedrinho em cima de titicas de galinhas”.

A partir de 1953, o publicitário João Doria organizou o dia dos namorados, e como o santo casamenteiro era Santo Antônio, ele achou por bem fazer o dia dos namorados para 12 de junho e, assim, no dia 13 repercutiria as promessas de namoro e amor. Os salões de bailes, que já faziam o baile dos namorados, ganharam uma publicidade a mais para os bailes dos muitos salões.

Mas era no interior do estado que as festas juninas tinham brilho maior. Fogueiras enormes, até parecia que havia disputa de quem fazia a maior fogueira, e as manias caipiras. O mais gostoso de tudo eram as cantorias. Homens com seus instrumentos iam chegando com sanfona, viola, pandeiro, zabumba e triângulo; as mais variadas modinhas era apresentadas: "O galo canta e o Peru ‘fais’ roda"... Começava por aí as modinhas dos compositores da cidade: “Adeus moreninha, estou indo embora, o dia está amanhecendo, vou ‘trabaiá’...”.

Quando Zé Romão tomou o décimo quentão, chamou sua filha e disse: “Marietinha, declama aqueles ‘versus seu’!”. Ela, com a mão direita no peito, começos a declamar:
“Roçado. De casa pra roça-encontro Rosinha - encontro saruva - no meio do roçado - andando descalços - todos molhados - plantando e colhendo - abóbora e pepinos – ‘arrois’ e feijão - cantando no sol - sempre sorrindo - não há tempo ruim - chapéu na cabeça - enxada na mão - e muita pureza no coração - De baixo - da sombra do pé de mamão - Rosinha descansa com seu amor - Aí saruva declara com emoção - que ela, Rosinha, é sua paixão”.

Muitas palmas. E as moçoilas colocavam na véspera de Santo Antonio bacias cheias de água com papeizinhos muito bem embrulhados, e no dia seguinte, aquele que amanhecia desembrulhado era o nome do namorado e futuro marido.

Era também o dia em muitas paróquias do interior se aproveitavam para fazer um missa com as crianças que faziam a primeira comunhão. Já pensou comungar pela primeira vez no dia de Santo Antônio? A preparação para isso era feita meses antes no catecismo. Era o padre quem dava a primeira aula a todos os meninos e meninas que depois eram classificados em grupos para os orientadores. O padre começava pelo sinal da cruz. “Vocês sabem fazer o sinal da cruz? Levantem a mão!”. Menos um não levantou.
- Você não sabe, meu filho?
- Falar eu não sei, seu padre, mas espalhar pelo corpo eu sei.
Foi à resposta simplória como simplórios eram os interioranos de cidade pequena.

Foi o que aconteceu na cidade de Cajatí, próximo a Jacupiranga, no Vale do Ribeira. No dia da missa de Santo Antônio e de primeira comunhão, naquele domingo 13 de junho, com a igreja lotada, entra uma senhora com suas três filhas, Lurdinha, Neuzinha e Brasilina, todas de vestido de Chita branco, rendada, e grinalda comprada na cidade grande, e buquê de flores colhidas no sítio. Chegando ao altar, ela foi enfática:
- Seu Padre, ‘vim traze mias fias pra casar!
- Mas, minha senhora, casamento não se faz assim. É preciso ir primeiro ao cartório para depois elas as casarem.
Aí ela foi ao cartório do seu Seabra e depois do documento feito, ela voltou a igreja e, após a missa com a presença de todos aqueles que estavam acompanhando as orações, a vontade delas, ou melhor, dela, a mãe, foi feita. E, assim, as ex-donzelas de menos de 18 anos já estavam próximas a serem chamadas de senhoras.

Quando terminava o dia de Santo Antônio, o rescaldo de tudo ficava encaixotado, esperando o dia 24 de junho, dia de São João.

E-mail: mlopomo44@gmail.com

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Publicado em 10/02/2012 adorei será q é caso verídico; e se for será q esse saruva é meu parente, conheço poucos além da minha família. abraços Enviado por leandro rafael marques saruva - leandrosaruva@hotmail.com
Publicado em 10/12/2010 Querido Lopomo, as lembranças que tenho das festas Juninas me levam a decada de 50 na minha querida Vila Esperança. Pau de Sebo, quadrilha, casamento caipira, fogueiras, fogos, balões. Não tinha bagunça, tudo era festa e diversão. Boas lembranças. Enviado por Hermes C. Figueiredo - hermes.figueiredo@ig.com.br
Publicado em 03/12/2010 Felizes recordações das festas juninas, Mario, destacando o casamenteiro Sto. Antonio. Tenho uma cunhada que casou com o Antonio (hoje, falecido)só por causa do nome. E foram muito felizes. Bela narrativa Lopomo, parabéns.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 02/12/2010 Mário: Você tem razão, as festas juninas eram e são mais gostosas e mais curtidas no interior... e com muita música. Tanto que meu primo Mário Zan, o sanfoneiro do 4º centenário de Sampa, desenvolveu seu talento por lá(Sta.Adélia) e suas músicas juninas são tocadas até hoje não só em SPaulo, como em todo o Brasil, principalmente no Nordeste. Enviado por LAERTE CARMELLO - laertecarmello@hotmail.com
Publicado em 01/12/2010 Bons tempos, Lopomo, esquecemos que era quando as quadrilhas apareciam nas festas juninas... agora parece que encontramos a palavra todo dia. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 01/12/2010 BOAS LEMBRANÇAS, DE PULAR A FOGUEIRA, COMER BATATA
DOCE,O FAMOSO PINHAO, AS CORRIDAS EM VOLTA DA FOGUEIRA, ERAMOS FELIZES.
Enviado por joao claudio capasso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 01/12/2010 Bela historia Lopomo, infelizmente dessas festas do passado paulistano, só restam mesmo as quadrilhas, e assim mesmo só uma pequena parte delas, a maioria já vivem em Brasília a muito tempo, e no proximo anos irão receber reforços dos novos escolhidos em três de outubro ultimo.Parabéns. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 01/12/2010 RESIDINHA NA PENHA AO LADO DA IGREJA DE STO. ANTONIO, MINHA SAUDOSA QUERIDA MÃE ÉRA DEVOTA IA EM TODAS AS MISSAS E NO DIA 13 DE JUNHO NA MISSA DA BENÇÃO TRAZIA PARA MIM UM PÃOZINHO DA MISSA,QUE SAUDADES DESSE LUGAR,O SINO TOCAVA BEM DEFRONTE A MINHA CASA,ABRAÇOS Enviado por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR
Publicado em 01/12/2010 Gosto muito de suas história porque você nos fala de raízes e de causos dos velhos e saudosos tempos. Nós, aqui da capital, colocávamos uma clara de ovo em um copo com água. De manhã íamos ver se havia se formado uma igreja- sinal de casamento. Certo ano, um tio do Brás colocou um pimentão no copo e afirmou- tem um pimentão, você vai se casar com um verdureiro! ( só mesmo o pessoal do Brás para fazer o que chamavam de " tirar o pelo"... engraçadinho) Quase foi linchado. Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
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