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Categoria - Outras histórias 23 de maio de 2012 Autor(a): Luiz Carlos Gusman - Conheça esse autor
História publicada em 29/12/2010
Segunda-feira e o rodapé de meu monitor me informa que já são 21:27.

Enquanto não começa o CQC, meus sudokus já estão todos resolvidos (modéstia à parte, sou bom nisso!) e "mente vazia é oficina do diabo" (como já dizia minha bisavó e provavelmente a bisavó dela), entre a dezena de "criativas" idéias que me ocorrem, uma se destaca, talvez pela maior improdutividade, o que irá me permitir descartá-la, quiçá ainda hoje mesmo, sem qualquer remorso: quantos dias já vivi?

Somados todos os anos, considerados todos os bissextos, a calculadora do Google me informa que até hoje (12/4/10), já vivi - alguns bem, outros mal vividos - 24209 dias. E daí?

Olhando bem para o resultado, esperando encontrar ali alguma coisa aproveitável, só consegui concluir que estou perto de completar 25.000 dias de vida, o que também não quer dizer nada, mas como são, agora, 22:08 e o CQC ainda não começou, por que não me seduzir por um número tão bonito, tão redondo?

Volto à calculadora do Google; diminuo, divido, somo e... 23 de Maio de 2012! Agora sim! Eis aí o dia em que completarei (se Deus assim o quiser), 25.000 dias de vida.

23 de Maio! Será que essa data tem algum significado, ao menos para os paulistas, ou até mais propriamente para os paulistanos?

Sim, é uma bela Avenida, bem projetada, sem cruzamentos, de trânsito rápido (?). Uma Avenida que nos leva até o Aeroporto de Congonhas, que nos faz passarinhos, nos junta em passaredos, permite-nos voar. Só?

Embora ausente há tempos das páginas do São Paulo Minha Cidade, vez ou outra - quando me permite o tempo - aí busco reabastecer minhas saudades de uma São Paulo que os anos não trazem mais, como bem poderia dizer Casimiro de Abreu.

Distante, também, fisicamente da São Paulo que se alinha entre meus maiores amores, recorro a algum eventual leitor, que ainda cultive valores como o civismo (viram como sou antigo?), para que o mesmo me informe se, por estes tempos modernos, ainda se reverencia Martins, Miragia, Dráusio e Camargo?

Peço isso, pois assim, bem informado, posso trazer às minhas já cansadas retinas, numa ação mágica que só nós, os românticos, conseguimos: as imagens de minha infância, quando Dona Odila, a Diretora do Caetano de Campos, nos levava em silenciosa e organizada fila, até o local onde tombaram aqueles bravos heróis e, logo após explicar os motivos da breve caminhada cívica, pedia-nos a entoação do Hino Nacional brasileiro.
Acredito que não mais se façam caminhadas até ali, quase às portas da Kopenhagen de meus mais doces sonhos. Também sei que as tradicionais corbeilles de flores de então, já de há muito não se veem por ali.

Até mesmo o Estadão, que relembrava em manchete, nesse dia, a luta na qual os Mesquita se fizeram líderes, hoje não perde mais tempo com isso, pois a bomba A do Irã, a liberdade do Arruda e a morte de pinguins na Antártida, têm preferência de pauta, atraem mais compradores, produzem mais assinantes.

É muito provável que - respostas vindas - ao invés da imagem reformatada em minha retina ir aos poucos esvaecendo, nebulando ao sabor dos ventos das saudades, escorram face a baixo, levadas por incontroláveis lágrimas, iguais àquelas que teimavam em turvar as vistas do mesmo Casimiro, por não ver em Portugal palmeiras, como as havia cá.

23 de Maio! E o CQC já vai à meio... Deixei-me enlevar; aflorou-me o tal de civismo; coisa de velho! Se perdi alguma coisa boa, amanhã busco no You Tube e retorno ao mundo real. Afinal, os tempos são outros e sentimento é coisa de antanho.

Meu Deus: antanho; enlevar; quiçá; civismo... Não posso deixar meus filhos lerem isto. Se o fizerem, amanhã mesmo, nos e-mails trocados só para reafirmar Amor, com certeza ganharei o epíteto (mais um!) de jurássico.


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Publicado em 07/01/2011 Luis Carlos parabéns! Todas as vezes que me deparo com escritor de sua categoria. Sinto me crescer nas idéias e gosto pela leitura. Na questão da idade sou alguns anos mais nova que você, mas ainda tenho grandes desejos de me tornar uma pessoa mais esclarecida e sem receio de colocar no papel crônicas tão bonitas como a sua (desculpe a pretensão rs.)Continue escrevendo nestas paginas de São Paulo minha cidade. Você é fenomenal e enriquece nossos dias. Abraços.
Tereza
Enviado por tereza pereria xavier - terezapx@gmail.com
Publicado em 06/01/2011 Ótimo seu texto. Pena, que como eu, talvez faça parte de uma minoria paulistana intelectualizada e com senso de civismo, que parece, infelizmente estar meio fora de moda. Gostei muito, de verdade. Enviado por Glauco de Arruda Barlebem - barlebem@gmail.com
Publicado em 03/01/2011 Deparei-me, sorrateiramente, com seu delicioso texto. E entre números e letras, encontrei uma sugestão que procurava. Por que não um passeio pela 23 de maio? Por que não respirar, ouvir, e "sentir" os aromas mais italianos de SP?
Obrigada pela idéia. Continue a escrever, sem se importar com os epitetos!
Enviado por Cilene - cilenesantis@ig.com.br
Publicado em 02/01/2011 Gusman, é melhor contar a idade pelos anos. se for nessa marcha, vai aparecer alguém pra contar em horas. Aí... "oxalá não surja tal mancebo". Parabéns, escrevinhador.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 02/01/2011 As vezes tenho saudade de um tempo que nunca
existiu (para mim). De um instante que se fez
eterno! Do vento despenteando o tempo que me toca
suavemente!Ah! viver sem jamais sentir dúvida ou
saudade e saber do poder que talvez exista das
palavras lançadas ao léu! Parabéns (creio que ao
escrever... me perdi)!
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 01/01/2011 Sr.Gusman, muito divertido o seu relato; não foi ruim assim, nem tão "de antanho". Dá para degustar com um Fogo Paulista, rs. Esqueceu de dizer do panorama da Paulista, de céus etéreos e de tomar uma gazoza com hotdog. Velho que é velho fala de Água Velva, sabonete Eucalol e Cera Parquetina....um grande abraço do Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 30/12/2010 Meu caro Gusman, que cronica linda, hoje se diz história. Acho que sou do teu tempo. Hoje caminhando aos 80, me sinto como você, mas aqui estou no "micro" como um jovem, escarafunchando (viu como sou velho?)essas coisas lindas. Parabéns e muito obrigado. Enviado por Mario S. Mammana - msmammana@terra.com.br
Publicado em 30/12/2010 Luiz Gustavo
Que delícia seu texto. Maravilhoso. Parece que estou na própria 23 de maio. Que dia maravilhoso para você aniversariar. Que bela homenagem a quem é apaixonado por São Paulo, como esta que escreve. Muita saúde para que você continue postando suas memórias tão belas. Eu ainda não tenho as minhas editadas, mas com certeza elas ocuparão algum espaço, um dia. Um forte abraço / Inajá Martins de Almeida
Enviado por Inajá Martins de Almeida - inaja.ima@gmail.com
Publicado em 30/12/2010 Luiz, jurássico? certamente não. Que bom ouvir "enlevar, aflorou-me, civismo, quiçá, epíteto..." ao invés de "tipo assim, vou estar enviando, tá ligado?..." modernizar sim, desprezar raízes, jogando no lixo a língua pátria não. Abraços Enviado por Márcia Sargueiro Calixto - marciascalixto@hotmail.com
Publicado em 29/12/2010 Gusman, Ual! Acho que estou quase Jurássica!Recorrendo a Aritmética, entre tabuada,soma,subtração e prova dos Nove.. Calculadora do Google, não sei usar. Finalmente conseguí, se a cachola não estiver falhando, você nasceu no mês 04 do ano de 44. Está certo? Valeu pelo exercício. Feliz Ano Novo. Um abraço forte. Alaíde Enviado por Alaíde Silva Santos - alaide.santos2010@hotmail.com
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