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Categoria - Paisagens e lugares O começo do fim Autor(a): Luiz Carlos Gusman - Conheça esse autor
História publicada em 19/09/2006
Assim como as manhãs, eu também nasci na Aurora. Na Rua Aurora. Ah, que saudades eu tenho da Aurora da minha vida! Rua de nascer gente de Família, até pouco depois de 1953, quando o Governador Lucas Nogueira Garcez, atendendo a seu pio eleitorado, num rasgo de moralidade e autoridade, erradicou a prostituição da Capital de seu Estado, fechando, por decreto, a "zona do meretrício", denominação que, quando proferida próximo a suas fiéis eleitoras, exigia destas imediata persignação. Erradicou? Bem, isso é o que ele pensava até a aplicação do extemporâneo decreto.
Era um conjunto de cinco ou seis pequenas ruas que, limitadas pelos muros da Estrada de Ferro, permitiam rigoroso controle de sua freqüência, pois seus acessos só eram possíveis por duas delas, as que ficaram conhecidas e reconhecidas como as ruas do pecado, da perdição, as Ruas Itaboca e Aimorés. O confinamento da baixa prostituição permitia o controle sanitário, tão necessário numa época sem AIDS, mas com gonorréia, cancros, sífilis. Graças a essa concentração, mantinha-se também sempre atualizado o arquivo das "fichas" que identificavam os que escolhiam a vida fácil (?) para sobreviver. Eram todos fichados, de meretrizes a proxenetas, de putas a cafetões. E veio o malfadado decreto!
A presença do Mercado Municipal da Cantareira criou referência e no seu entorno se estabeleceu a Zona Cerealista. Assim foi com as papelarias e as miudezas e o entorno da Vinte e Cinco de Março. As ferramentas ocuparam toda a Florêncio de Abreu e, assim por diante, foi se firmando um conceito vigente até hoje no Comércio: a proximidade dos concorrentes, ao invés de prejudicar, favorece o comerciante pela natural atração de compradores, convictos de que, pela profusão, não deixarão de encontrar ali o produto procurado. Não poderia ser diferente: o sexo pago, farto em opções e as Estações da Luz e Sorocabana, se faziam estreitamente ligados. Se os que se serviam das "pecadoras" chegavam à extinta "zona" vindo de trens, bondes e ônibus, tão correto como natural era que se buscasse ocupar espaços o mais próximo possível dessas Estações e dos pontos de ônibus e bondes.
O Centro, ainda não velho, mas já histórico, começava sua lenta agonia. Lenta e gradual, como gostam os que se expressam pelo "economês". Lugares bons de morar, próximos de tudo o que a Cidade nos dispunha de melhor, jamais imagináramos uma mudança. Imperioso, portanto, resistir. Uma rápida queda de braços se estabeleceu. Assim como inevitável se criou a resistência, insuportável se tornava a insistência. Venceram os mais bem armados e aos poucos se foram dali as Famílias.
Não mais que de repente tudo se transforma: pequenos prédios vão se tornando prostíbulos, alguns se emplacando como "hotéis"; nascem "n" bares que preservam a intimidade de seus freqüentadores com indevassáveis biombos à porta. E o contingente antes restrito a cinco ou seis quadras de um "gueto" controlado, se assenhora das Ruas Vitória, Aurora, Triunfo, Gusmões, Andradas, Santa Efigênia, além das barões de Limeira e Campinas e das tribais Guaianases e Timbiras. Não escapam nem as avenidas e a Duque de Caxias, a Rio Branco e parte da São João logo se incorporam, trazendo consigo as praças Julio Mesquita e Princesa Izabel.
Ruas onde ainda há pouco habitava a decência, hoje vêem desfilarem zumbis, a caminho da demência. Muda-se apenas uma consoante, altera-se toda uma História. Uma História que reservou a seu principal personagem o quase completo esquecimento. Dele só se recordam alguns poucos historiadores que, fiéis aos fatos, registram sua passagem pelo Palácio dos Campos Elíseos e a maior de suas poucas obras: a penada que decretou o fim do Centro vivo, histórico e feliz de São Paulo, Cidade. Descanse em paz! E-mail: lcgusman@gmail.com
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Publicado em 05/09/2011 Esta são Paulo eu conheci...vivi... convivi...
Amei-a muito.
Tenho um amigo pernambucano, analfabeto que fezo maior elogio a Sõ Paulo: "São Paulo tu num tem PAREIA, não. eu assino embaixo Eliseu P. Teixeira
Enviado por eliseu Pinto Teixeira - eliseupt@gmail.com
Publicado em 27/08/2010 Gusman. Para dizer a verdade, eu não saia da zona. Mas, não adiantou, foi a zona que saiu de mim. Uma vez estava com minha amada Suely, e os canela-preta a arrancaram de meus braços. Suely, Suely, para onde os asseclas de Garces a levaram, para sempre? Abraço grande. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 02/11/2007 Ninguém é prostituta porque gosta, a menos que tenha algum tipo de patologia. Falou-se em política, religião, moral, porém não lí nada sobre íntimo de cada um. Nem na falta de opção e informação que as mulheres do passado sofreram. Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 22/09/2006 Luiz, mesmo com a melancolia deste teu comentário onde mais uma vez ficou provado que a tentativa de erradicar, em nome da igreja e da familia, uma área já por si só restrita, redundou na proliferação dessas profissionais do sexo para todas iou quase todas as ruas mais nobres da nossa São Paulo...
Mesmo assim a memória valeu pois, mais uma vez, o bichinho da saudades beliscou minhas entranhas.
Maravilha!
Enviado por Miguel - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 21/09/2006 Tem toda razão.Atitudes políticas hipócritas,demagógicas e de falso moralismo acabam em desastre. Enviado por Luiz S.Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 20/09/2006 Em atenção ao comentário de Mario Lopomo

Lopomo,
Seu comentário me fez buscar em meu texto um provável “lapsus calami”, pela troca de um pretendido pio, por um intrometido pífio. Não era. Certamente uma eventual e rápida desatenção o fez registrar assim. Ao empregar o termo pio, o fiz como usualmente se faz para identificar os religiosos extremados, como eram os manipuladores da Igreja de então. Imagine: uma Igreja que tinha padre Baleeiro, lutar pelo fechamento da zona?! Eram tempos de Pio XII, de uma Igreja mais voltada para si mesma, de mais palavra que ação, uma ação que Pio XII ficou devendo em relação ao holocausto, como lhe cobra a História. Ainda viriam João XXIII e João Paulo II, graças a Deus! Mas foi bom: não fora por isso e talvez o Amigo não comentasse meu texto e, assim, eu não teria reforçada a vaidade de tê-lo dentre eventuais Leitores. Poucos, mas de um peso!... Obrigado! De coração! Luiz
Enviado por luiz carlos gusman - lcgusman@gmail.com
Publicado em 19/09/2006 Luis Carlos.
Muito bom esse seu texto. Mas permita-me uma correção. O fechamento da zona do meretrício, ali no Bom Retiro, pelo governador Lucas Nogueira Garces. Só que não foi a pedido se seu pífio eleitorado, como disse. Foi sim pela interferência da igreja. Nessa época a igreja mandava e desmandava, naquele velho chavão. Faça o que eu mando. Mas não faça o que eu faço. Também o jogo foi proibido pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, por interferência da igreja. Só que ai, com a participação da primeira dama dona Santinha considerada carola de primeira linha. Com a proibição do jogo, milhares de chefes de família ficaram desempregados. E o jogo continuou clandestinamente com muita gente sendo preso por isso. No fechamento do meretrício, foi à mesma coisa. Com o fim do confinamento das mulheres, como você bem disse. Com médicos fazendo exames a cada quinze dias, ou a qualquer momento em caso de necessidade. Ai as mulheres ficaram nas ruas, por ali mesmo, praticamente nuas em espetáculos deprimentes. E o local, acabou sendo denominado como o quadrilátero do pecado, que eu tanto freqüentei.
Enviado por mario lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 19/09/2006 existem estatísticas alarmantes sobre o densamento de pessoas por km² nas grandes cidades do mundo, a prostituição encabeça os números, porém, a AIDS com a novas drogas esta sendo controlada, o que as autoridades sanitárias se arrepiam só de pensar que para cada habitante de Sampa existem 10 ratazanas que multiplicada por 11 milhões, resulta na soma de 110 milhões de animais que se reproduzem dia e noite sem parar. Enviado por turan bei - turanbei@hotmail.com
Publicado em 19/09/2006 E a revitalização do centro, não começou? Li uma reportagem no Estadão sobre isso mas como estou fora da capital, gostaria de saber.
Belo texto, apesar de tudo.
Enviado por Doris Day - dorisdaybrasil@gmail.com
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