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Categoria - Paisagens e lugares Sob os ponteiros do Mappin Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 11/01/2011

Em Encontro Marcado, Fernando Sabino fala de um apontamento com seus amigos mineiros, para uma data no futuro. Mas aqui volto ao passado, para lembrar que, se havia algum lugar para encontros marcados, na São Paulo dos anos 60, esse era debaixo do relógio do Mappin, na Praça Ramos.

Quem não já ali esteve, sentindo o pulsar do coração, coincidindo com o estalar dos ponteiros? Para encontrar a mulher de seus sonhos ou apenas uma miragem ilusória, ou mesmo - bem soube - estava num encontro às cegas, e acabava fugindo, ao ver que não era bem aquilo que esperava?

O relógio ocupava-se apenas em marcar as horas, e em nada se alterava pelas emoções dos encontros e desencontros bem debaixo de seu nariz, se nariz tivesse.

Ficava-se ali, sempre em ansiedade: “Ela está demorando!”. E aproveitava-se para, ao abrigo das marquises, dar uma conferida nos últimos lançamentos de consumo, ainda mais na época da esperada liquidação: “Venha correndo, Mappin!”. Ele, o Mappin, sabia que um dia isso ia se acabar.

Mas, para ser sincero, comigo ocorreu uma única vez esse tipo de encontro. Cenas de um calendário desbotado, outro século, outro centro, outra mulher, tudo levado pelo mesmo tempo que o relógio assinalava. Eu também era outra pessoa.

Tudo rodava, como um carrossel tresloucado, muito rapidamente. Desloquei-me também para outras áreas, inclusive sentimentais, movido agora a automóvel, movido agora a jato. Para longe, cada vez mais longe do Mappin.

O relógio, no entanto, permaneceu. Embora creia que, agora, pouca gente lhe dê atenção. E nem marque encontros; os muitos trabalhadores que ainda passam pelo centro estão mais preocupados em sair dali depressa, pressionados por outra população, bem mais esquecida pela fortuna.

Competindo ombro a ombro para sobreviver nas calçadas, debaixo dos toldos das velhas lojas, há muito desaparecidas.

Como o próprio Mappin, sobrevivendo apenas nas memórias dos amantes ali postados, esquecidos do implacável tempo, simbolizado pela engrenagem suspensa acima. Medindo secretamente os minutos contados de cada sonho, cada paixão, cada angústia.

Como o corvo de Poe, empoleirado no portal, e repetindo infinitamente:
- Nunca, nunca mais...

E-mail: lssaidenberg@gmail.com

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Publicado em 24/05/2011 SAINDERBERG, ainda ele (relógio) está imponente podes crer, na nossa lembrança que o progresso não apaga, seu texto é memorável grato Enviado por mauricio - mauricio_paulistano@hotmail.com
Publicado em 17/05/2011 Quero parabenizar a voce Saidenberg por manter viva a história do Mappin,um grande marco na história de São Paulo;Lógico para aqueles que conhecem a história do Mappin.
Eu conheço e hitória e tive o privilégio de trabalhar e compartilhar daquele encantado local que me deixou muitas saudades.
deixo aqui meu comentário e saudades e se algum Ex-Mappiano ler entre em contato
Enviado por José Maria da Fonseca - josmfonseca@yahoo.com.br
Publicado em 17/05/2011 Quero parabenizar a voce Saidenberg por manter viva a história do Mappin,um grande marco na história de São Paulo;Lógico para aqueles que conhecem a história do Mappin.
Eu conheço e hitória e tive o privilégio de trabalhar e compartilhar daquele encantado local que me deixou muitas saudades.
deixo aqui meu comentário e saudades e se algum Ex-Mappiano ler entre em contato
Enviado por José Maria da Fonseca - josmfonseca@yahoo.com.br
Publicado em 29/01/2011 E o salão de chá do Mappin? Chiquérrimo! Enviado por Virginia Hiromi Fukuda Viana - fukuda3@uol.com.br
Publicado em 15/01/2011 Sr.Saidenberg, um primoroso texto entremeado pelos literatos Sabino, E.A.Poe e o inexorável caminhar dos ponteiros nos modificando a cada segundo. Você está escrevendo cada vez mais como uno buonno vino...salute! Parabéns. Novamente seja bem-vindo a atmosfera SPMC. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 12/01/2011 Quantos encontros e desencontros da mulher amada que se foi já num tempo distante de outrora, debaixo daquelas horas implacáveis nos ponteiros do relógio do Mappin. Parabéns, Saidenberg pelo texto. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 12/01/2011 Que lindo têxto! E o corvo, esse malvado, repetindo infinitamente, " nunca, nunca mais!".Os chineses dizem que depois de cinco anos nos tornamos outra pessoa porque todas as nossas células se transformaram nesse tempo...Para melhor ou para pior? E a gente sabe? Mas creio que o coração, este se recusa e vai guardando, guardando, até que um pequeno nada o faz transbordar e deixar aflorar os nossos nunca mais que estavam ali dentro guardados. Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 12/01/2011 Que lindo têxto! E o corvo, esse malvado, repetindo infinitamente, " nunca, nunca mais!".Os chineses dizem que depois de cinco anos nos tornamos outra pessoa porque todas as nossas células se transformaram nesse tempo...Para melhor ou para pior? E a gente sabe? Mas creio que o coração, este se recusa e vai guardando, guardando, até que um pequeno nada o faz transbordar e deixar aflorar os nossos nunca mais que estavam ali dentro guardados. Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 11/01/2011 Crônica altamente pontual, Luiz, parágrafos deliciosos de se ler sobre o mais famoso marcador do tempo da cidade de São paulo. Parabéns, Saidenberg com tristeza sobre o passamento do querido Chiappetta.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 11/01/2011 Um primoroso texto,misto de saudosismo com vanguardismo. O autor, sem dúvida domina a arte de perambular com maestria pelo mundo das idéias, das letras, dos sonhos e, sobretudo...da Saudade!
Congratulações!
Enviado por Fredy Correa - fredcorrea.rotary@hotmail.com
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