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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Bexiga, cortiço, violões Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 26/04/2011

Porão na Rua Ruy Barbosa, janela ao nível da calçada. Calor vindo de dentro e esquentava as canelas das gentes quando se passava em frente. Acordes de violão, síncopas, voz de sambista cantando Noel:
"Foi num cabaré da Lapa
Que eu conheci você,
Fumando um cigarro
Entornando champanhe em seu soirée...".

Era em um tempo em que músicos que carregassem um violão pelas ruas eram presos por vadiagem. Vizinhos do cortiço reclamavam do barulho, "a musca tá boa, mavampará cum isso! Amanhã é dia de pulá cedo e o bonde da Light num ispera...".

Todos eles eram gente boa, trabalhadora. O Zezinho trabalhava na carvoaria da Ruy Barbosa, um pouco pra frente do Rex e fazia entrega dos sacos de carvão nas casas; era aquela montanha preta em cima de uma carriola de pedreiro, 10, 12 sacos de carvão e o italianinho atrás, carregando tudo aquilo, um negrume só, dos pés à cabeça.

Banho tomado, roupas limpas e o Zézinho se transformava, virava gente, alguém que ninguém conhecia; sujo ele era o Zézinho da carvoaria. Limpo, bem vestido, "quem é aquele minino bunito?", perguntavam as fogosas meninas na quermesse da Acheropita. Cada saco de carvão entregue ou vendido na porta, rendia uma conversa:
- Zé, precisa “di milhorá esse carvão, tá úmido i tá vindo muita carvoinha”...
- “Vô falá cusomi”, Dna. Marietta. “Num é nóis quinsaca”...
- Toma um cafezinho?
- Tomo sim, brigado...

E lá ia o Zezinho empurrando a carriola; ele sabia dos comentários que eram feitos às suas costas: "Coitado desse ‘minino’, ‘trabaiando’ no meio desse pó de carvão... ‘num dimora tá duente dus pormão’...".

Outro Zezinho era mecânico na Brigadeiro, quase na esquina com a Humaitá, e cuidava daqueles caminhões e automóveis à gasogênio, vivia preto também, coberto de carvão dos pés à cabeça; apenas seus olhos profundamente azuis e seus cabelos loiros se destacavam no negror da oficina... É incrível, mas aqueles olhos assustavam, eram muito estranhos.

E tinha o 'Seu' Roso, aposentado pelo Montepio; Dna. Luzia, italiana de bigodes e uma verruga preta e luzidia na bochecha direita - que com 30 anos de Brasil não falava português, nem mesmo o português macarrônico - e que fazia conservas em três barricas que ficavam no corredor do cortiço e as vendia embrulhadas em folhas de jornal (muito boas, gostosas, diga-se de passagem).

Tinha tambpem o ‘Seu’ Ribas - malandro de terno branco jaquetão de seis botões, calça boquinha, sapato de salto carrapeta de duas cores, camisa preta de botões de madrepérola branquíssimos, gravata de seda cor de prata, chapéu "cata ovo", uma corrente de prata que ele enrolava e desenrolava no indicador da mão direita, um andar de urubu malandro, como se estivesse pisando em ovos, um bigode que mais parecia uma vassoura de pelos; pai da Maria Izabel, uma garota muito "dada", como se dizia na época, do Dema, muito mais tarde assassinado à machadadas dentro do cordão durante um desfile do Vai Vai, casado com Dna. Mariazinha e amante da Lurdona que, por falta de espaço, morava no mesmo quarto com o resto da família...

'Seu' Ribas tinha um tique, uma mania: vivia batendo com a mão esquerda espalmada no lado direito do peito. À boca pequena se dizia que ele sentia muita dor no local, outros diziam que ele batia sobre a sotala pra ver se a sola ainda estava lá! (Melhor explicar: Sotala = bolso interno do paletó. Sola = Solingen, navalha...)

Nosso músico, sambista, fã de Noel Rosa, um belo dia cansou-se das reclamações da vizinhança e mudou-se para um quarto no Vaticano, um “super” cortiço, uma verdadeira cidade que ficava entre a Rua Santo Amaro, Jaceguai, Abolição e Maria Paula, onde dividia o aluguel e a cama com a nega Cidinha, uma flor do pântano, personagem viva, real, de um samba de Noel.

E continuou tocando seu violão e cantando seus sambas. Dizem que morreu mendigando pelas sarjetas do Centrão, não sei, não posso afirmar. Tudo porque lhe roubaram a Cidinha e o violão...

No cortiço soube-se de sua morte, o que deixou a todos chateados...
Alfredinho, era esse seu nome, foi plantado num cemitério novo lá pras bandas da Vila Carrão numa tal de Vila Formosa, longe, muito longe, não dava pra ir ao enterro...

O pessoal preferiu esperar a morte do Ditinho, que agonizava vencido pela tuberculose e que, já se sabia, seria enterrado no Araçá, dava até pra ir a pé. A mãe e a irmã, Dna. Sebastiana e Maria Cristina, precisavam trabalhar, só estavam em casa à noite e os moradores do cortiço velaram e cuidaram dele até o fim. Morreu com o quarto iluminado por dezenas de velas e dezenas de pessoas rezando em voz alta, desfiando terços e rosários (coube à minha mãe fechar seus olhos e cruzar suas mãos sobre o peito).

Naquela noite, na Maria José, também num porão, 'Seu' Fiinho, que muitos anos depois seria meu sogro, acalentava sua filha mais velha, afinava seu violão e começava a cantar um samba de carnaval que tinha o nome dela, que milhões de anos mais tarde seria minha esposa e mãe de meus filhos:

“Odete ouve meu lamento
Lamento de um coração magoado...”

Meu Deus, as voltas que o mundo dava em meus tempos do Bexiga! O mundo girava e a Luzitana rodava... À gasogênio!

E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 04/06/2011 Mas rapaz!!!Eu tambem sou fá ddo poeta de Vila Isabel,executo alguns acordes no meu violão,modestamente,pois sou da velha guarda,então já percebi que vc joga no meu time e vice-versa,parabéns pela crônica.
Um abraço!!!
Enviado por Luiz G. Sant'ana' - luizgonzasantana@yahoo.com.br
Publicado em 02/06/2011 Olá Ignacio,o que vc escreveu aí,tu poderia ser parceiro dos bons de Adonirã Barbosa,o enredo tá bonito,me curvo diante de ti,vc é um poeta.Tá de parabéns,é só musicar a letra,afinar o violão,como disse o parceiro Mário aí e cantar pra galera. Enviado por Luiz G. Sant'ana' - luizgonzasantana@yahoo.com.br
Publicado em 28/04/2011 Ignácio. Seu texto é um verdadeiro samba do Bixiga, Extraindo, palavras e formando frases, é só colocar a melodia e sair cantando, é lógico com o sucessor do seu Fiinho, dedilhando o violão. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 27/04/2011 Ignacio uma bela crônica sobre os personagens do velho e tradicional bairro do Bixiga. Parabéns pelo excelente texto. Abraço Grassi Enviado por J Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 27/04/2011 Que cronica gostosa! Parabens Ignácio. Enviado por carlos heiffig - carlos.heiffig@terra.com.br
Publicado em 26/04/2011 Inacio.
muito boa sua narrativa adorei, seu nome lembra meu pai Manoel Inacio que morou no bixiga quando pequeno e morreu em 64 eu fui morar na r.Augusta,1585 eu tinha varios parentes no bixiga hoje mudou quase todos.
Parabens
Enviado por Marcos Tadeu da Silva - mtadeu05@gmail.com
Publicado em 26/04/2011 Mais uma simpática e sincera recordação do bairro maravilhoso que é o Bixiga. Bem conduzida, sua crônica alegra e emociona o leitor e os familiarisados com o bairro se refrescam com as menções. Parabéns, Ignácio.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 26/04/2011 Sou seu fã Sr.Ignácio. Suas crônicas são melhores que as publicadas hoje em dia nos jornais. Abraços, Abílio Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
Publicado em 26/04/2011 Ignácio. Sua narrativa é uma retórica à poesia e ao romantismo do nosso querido e, pra mim, saudoso bairro. O Bixiga, por sí só, já é um livro de romances e aventuras de um povo que, apesar das adversidades, fazia a vida valer cada momento vivido. Abraços, Nelson. Enviado por Nelson de Assis - nel.som55@yahoo.com.br
Publicado em 25/04/2011 Joaquim Ignácio, gostei de seu estilo escrevendo crônicas. Usa a boa técnica em forma de diálogo. Nosso professor do curso de escritores Tabajara Ruas, escritor gaúcho iria gostar dos seus textos. Parabéns, portanto a seu modo de escrever. Me surpreendi com a sua força mental e energia, apesar dos seus setenta anos. Isso prova que a idade não é nenhum obstáculo nem limite para quem quer fazer algo bom, positivo, portanto meus parabéns. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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