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Categoria - Outras histórias O dia em que Nelson Rodrigues derramou café na camisa e falou para uma platéia maravilhosa Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 31/05/2011

Antes de qualquer coisa, permitam que eu me apresente: meu nome é Joaquim Ignacio e, atualmente, tenho 71 anos. Sou filho do 'seu' Alcides e de Dona Zezé; sou casado com Dona Odete e tenho 5 filhos e 5 netos.

Minha formação profissional é voltada para a área da saúde, especificamente ao setor de Enfermagem; a Enfermagem é minha paixão, parece que eu nasci talhado para esse tipo de profissão e atuei tanto em hospitais quanto em empresas.

Aposentado há vários anos, confesso que sinto saudades, chego a sonhar que estou trabalhando, fazendo gotejamento de soros, aplicando injeções, trabalhando em diálises hemo e peritoniais, chego a acordar cansado... No entanto, também já fui um burocratão daqueles, de terno azul marinho, gravata e diário oficial sobre a mesa, um inferno...

Ora direis: “onde Nelson Rodrigues entra nessa história? Quosque tandem abutere patientia nostra, Ignatius, heim? Heim?”. Explico...

Tive uma mocidade destrambelhada e só sosseguei meu facho após casar e ter filhos (claro que quem os teve, pra valer, foi a Dona Odete!). Na época de meu casamento, eu trabalhava na Cidade Universitária, na antiga Escola de Comunicações Culturais, ECA hoje em dia e, apesar de já ter visto o diabo chupando manga, estranhei muitíssimo a ambiência da faculdade, tanto da parte dos professores quanto da parte do alunado.

Gente muito misteriosa, estranha, pretensamente todos gênios da comunicação. A maioria dos professores não tinha formação acadêmica, era "notório saber" que trabalhavam nas respectivas áreas: Teatro, Rádio e TV, Cinema, Relações Públicas, Jornalismo, Biblioteconomia e Editoração. Vou citar um exemplo: o Coordenador do Departamento de Jornalismo era o Walter Sampaio, jornalista famoso, apresentador de TV, ex-diretor de jornalismo da rádio e TV Bandeirantes, professor e aluno ao mesmo tempo. Deu pra entender? Mas vamos ao que interessa, vamos deixar essas loucuras da Lei de Diretrizes e Bases para os que dizem entender do assunto Educação e falemos do teatrólogo Nelson Rodrigues (aliás, um jornalista sem diploma!).

Minha sala na ECA era frequentada por funcionários e alguns alunos que vinham conversar, informar-se ou tirar dúvidas antes de fazer alguma solicitação no âmbito administrativo. Eu era, também, muito requisitado para ler e escrever cartas para o pessoal da limpeza, terceirizados, que normalmente tinham poucas luzes. Esse pessoal vai ter muito a ver com a história que a partir de agora começo a contar.

Um belo dia, perguntei a um funcionário terceirizado:
- Fulano, você quer aprender a ler e escrever?
- Quero, 'seu' Ignacio. Meu maior sonho é escrever meu nome e ler os letreiros dos ônibus...
- 'Tá bom’. Na hora do almoço, vem aqui na minha sala... Começo a te ensinar hoje mesmo...
E comecei o que com o tempo se tornou um curso de alfabetização e, posteriormente, um preparatório para os Exames Supletivos, Madureza naquele tempo.

Outros colegas entraram no rolo e até professores da ECA deram aula para meus alunos. Para que vocês tenham uma ideia da dimensão que a coisa atingiu, uma vez por semana o Prof. Oswaldo Sangiorgi dava aulas de Matemática pro meu pessoalzinho; o Prof. Isidoro Blikstein ministrava aulas de Português e Literatura; de minha sala, as aulas passaram para o auditório da faculdade e, seguindo nosso exemplo, na Politécnica um colega criou um curso de Técnico Prático de Laboratório...

Um dia, estava eu lendo o jornal/mural quando senti uma mão em meu ombro, a mão de Sábato Magaldi, que recentemente tinha completado seu doutorado, defendendo uma tese sobre o teatro de Nelson Rodrigues:
- Escuta, Inacião: convidei o Nelson Rodrigues para fazer uma palestra para os alunos do curso de Teatro e da EAD, mas não estou vendo o menor entusiasmo da parte deles...
- Ué, o que você queria? Todo esse seu pessoalzinho acha que sabe tudo... Não vão perder tempo ouvindo um senhor, mesmo sendo um cara que mudou a cara do teatro brasileiro... Mas diga lá o que você quer...
- Eu queria que os seus funcionários insistissem com os alunos para que venham à palestra... Vai ser mais um bate-papo seguido de um debate aberto a todos...
- Vou ver o que dá pra fazer...

Sete horas da noite. Dois ou três alunos em frente ao auditório do curso de Teatro. Falo com o Sábato:
- Tem dois ou três gatos pingados ameaçando entrar no auditório. Meu pessoal não conseguiu convencer nenhum dos seus aluninhos geniais a assistir a palestra...
- E agora? Daqui a pouco o Nelson chega e não tem platéia...
- Bem, se você não se incomoda, eu posso trazer o pessoal do curso de Madureza pra assistir a palestra. Acho que vai fazer bem pra eles...
- Faz isso, faz isso...

Na mesa, além do Nelson, claro, estavam Miroel Silveira, Marika Gidali, Paulo Emílio Salles Gomes e o Sábato Magaldi. O auditório estava lotado, tinha gente em pé, gente sentada nos degraus do corredor, entre as cadeiras, gente do lado de fora, trepada em cadeiras e banquinhos para poder ver o palco.

Antes de começar a falar, Nelson pediu café sem açúcar. Suas mãos trêmulas acabaram por derramar metade do café em sua camisa. Risos. Começa o bate-papo.

Terminou, aplausos. O carro leva o Nelson e os demais pra TV Cultura, onde ele vai ser entrevistado...

Meu pessoalzinho estava feliz:
- Ignacio, eles falam tão bonito, né? Será que um dia eu vou falar que nem eles?
- Vai, claro que vai. Continue estudando que você chega lá...

E muitos chegaram. Deixaram a vassoura, os paninhos, as flanelas e entraram em cursos técnicos e em faculdades. Hoje são engenheiros, físicos, técnicos.

Dia desses encontrei um deles em frente à igreja dos Enforcados. Reconheceu-me, me abraçou. É físico em uma empresa em São José dos Campos.

- Sabe, Ignácio, só uns quatro anos depois é que eu vim saber quem era o Nelson Rodrigues. Quando ele morreu, eu vi na televisão e falei pra minha mãe que tinha ido numa aula que ele deu. Ela não acreditou: “onde que pobre chega perto dessa gente? Já te falei que esse negócio de livros, de escola, não dá camisa pra ninguém... o negócio é pegar no guatambu pra ver o peso das coisas...".

Pois é, amigos. De vez em quando a TV Cultura reprisa a entrevista do Nelson. Se vocês tiverem a oportunidade de assistir, reparem que ele está com uma camisa azul, sem gravata e uma mancha de café no peito. Lembrança do dia em que ele falou para uma platéia maravilhosa, talvez a mais interessada que ele teve!

E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 02/06/2011 Parabéns Ignácio!Você é realmente é um grande cidadão brasileiro. Que se preocupa com educação e afeiçoado pela saúde. Quem dera que todos profissionais de hoje tivessem a mesma postura e amor pela pelo o que fazem. Quanto ao Nelson Rodrigues muito bem lembrado. Aceita meu abraços e grande admiração pela sua pessoa. Escreva mais! Adorei. Enviado por tereza pereira xavier - terezapx@gmail.com
Publicado em 01/06/2011 Nelson Rodrigues tinha o gosto de falar da vida como ela era. Escrevia tanto como uma ficção de sua autoria, como também das coisas reais da vida cotidiana, Quando escrevo algo da vida real, tem gente que diz que escrevo a moda Rodriguiana. Eu sempre gostei de ler suas crônicas. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 01/06/2011 Ignácio, muito bom o seu texto. Para mimsó faltou um pequeno detalhe. Já que a palestra era aberta para debate como se sairam os seus alunos? Eles participaram? Um abraço e parabens pelo seu texto e pelo trabalho social, revelando ser você um ser humano exemplar. Espero que muitos jovens o leiam.
JPBodra
Enviado por José Palma Bodra - jpbodra@globo.com
Publicado em 01/06/2011 Adorei! Você escreve divinamente e deixa um gostinho de quero mais...Seu relato me fez ler e reler várias vezes Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 01/06/2011 Sua narrativa envolvente discorre em mais uma página da história de nossa literatura, com a máxima presença do grande Nelson Rodrigues que, em épocas outras, era esnobado por mostrar a realidade da vida, chegando ao ponto de, muitas vezes, ser banalizado por seus contos. A história é testemunha da importância deste que foi um grande e muitas vezes, incompreendido escritor.
Grande abraço.
Enviado por Nelson de Assis - nel.som55@yahoo.com.br
Publicado em 31/05/2011 Joaquim, que maravilha de passagem vc nos contou. Quem diria que o famoso teatrólogo era gente como a gente, e falou pra gente como a gente.
Valeu a lembrança.
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 31/05/2011 Parabéns ! Belo exemplo de cidadania Ignacio e que profissão maravilhosa que escolheu. DEUS te abençoe e te guarde. Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 31/05/2011 Ignácio, estou enviando copia de seu texto para a Agecom, aqui da UFSC em minha terra. A Agecom é a agência de comunicação de nossa Universidade. Não sei se eles vão ler, ou lhe dar importância. Vc sabe como são esse pessoal das Universidades. De minha parte acho que esse foi seu melhor texto.Abraços. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 31/05/2011 Lindo texto Ignacio, tenho acompanhado as suas e as tantas histórias de vida relatadas aqui e sempre me emociono. Pessoas como vc me fazem sentir um ser humano melhor!

"Ignacio, olha lá! Aquilo é o mar".

Parabéns ao SPMC: 5.000 histórias, parabéns a todos e muito obrigado.

Vou prestar atenção na programação da Cultura para ver o Nelson Rodrigues, sua palestra e a camisa manchada de café! rsrsrsrs Valeu Ignacio!

Como diz o rei Roberto Carlos: são tantas emoções!
Enviado por Hugo Morelli - hugo.morelli@hotmail.com
Publicado em 31/05/2011 Sr. Ignácio, o senhor não precisa mais de apresentação para nós leitores do SPMC. Imagino sua satisfação ao reencontrar ou ter notícias de seus antigos alunos. Parabéns. Abilio Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@logoseng.com.br
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