Leia as Histórias

Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Dia 24 de junho Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 16/06/2011

Dia 24 de Junho. Era o dia de São João, aniversário de minha mãe, então, a festa era dupla: uma pelo aniversário e outra para a fogueira sagrada desse dia.

Todo ano tinha fogueira, e um mês antes, eu e meu irmão, com a ajuda da molecada, íamos catando lenha e todo tipo de madeira para a fogueira que era feita na Rua do Porto Itaim Bibi. A princípio colocava os mourões, que nada mais eram troncos de eucaliptos grossos e bem secos, pois eram cortados meses antes, ficando sobre o sol e chuva. Quando estava na altura de um metro, eram colocados pedaços de madeiras que pegávamos na Marcenaria Fontes na Rua da Ponte. Gravetos completavam o conteúdo para pegar fogo. A fogueira era armada durante o dia e só colocavam fogo quando estava escurecendo.

Às seis horas da tarde, o quentão já estava sendo feito na base de gengibre, açúcar e pinga; batatas doces já estavam selecionadas, sendo sempre as maiores para colocar na fogueira quando ela já estava em brasa. Depois que as batatas eram retiradas, era a vez dos homens pisarem na brasa; eram os chamados “pés-cascudos”, que não sentiam dor e não ficavam com os pés queimados.

A pipoca também era feita em demasia. Muitos fogos eram comprados: caramuru com um tiro, canhão ou de três tiros, e bombas com poder forte explosivo. Para as crianças, as bombinhas de dez centavos, biribas e fósforos de cor era a farra.

Naqueles anos 1950, o que mais se via eram balões no céu. Uma época que não era proibido soltar. Em frente à casa de dona Laura ia ser solto um grande balão charuto que meu pai tinha feito junto de seu Osvaldo. O balão era tão grande que a boca tinha uns trinta centímetros do diâmetro. A tocha era enorme, com breu e querosene.

Colocado a tocha, o balão estava de pé com muita gente segurando e uma pessoa em cima do telhado para segurar o bico. Quando foi colocado fogo, o balão já pegou força para subir; não era necessário dar o impulso para cima. Quando todos soltaram, ele subiu rápido e Berto, para comemorar a subida dele, soltou um caramuru que estourou bem no meio do balão, que foi queimado rapidamente. Meu pai achou que ele fez de propósito, mas seu Osvaldo achou que foi uma fatalidade.

Quem gostava de fazer balão era meu irmão José: desde garoto ele já fazia; começou fazendo balão-caixa de quatro e, mais tarde, de oito folhas de papel de seda. Ele mesmo fazia a tocha com breu e o balão não subia devido ao peso da tocha, e quando ele diminuiu o tamanho, ele não ia muito longe. Daí pra frente ele passou a fazer as tochas com parafina, que era mais leve.

Era difícil achar pedaços de parafina nas lojas, foi daí que percebemos que tinham velas feitas de parafina, e aí ficou mais fácil. Meu irmão, então, mudou a forma de se fazer tochas. Ele diminui ao máximo o tamanho deles, fazendo dois rolinhos de saco de estopa com parafina, colocando as duas formando uma cruz, que passou a serem chamadas de “tocha em cruz”. Quando ele percebeu que as tochas estavam sendo queimadas rapidamente pelo fogo, ele colocou no mesmo arame as duas um pouco distanciadas, o que fazia com que elas fossem consumidas mais lentamente. Não tinha balão que não subia.

Na Copa do Mundo de 1958, o Dia de São João caiu numa terça-feira, dia em que o Brasil ganhou da França por 5x2, e o jogo final entre Brasil x Suécia estava marcado para o domingo, 29 de junho, Dia de São Pedro, que caindo em dia de semana era feriado.

Dois balões estavam sendo preparados para o dia da vitória que todos esperavam. Os dois eram enormes, de 96 folhas; logo depois do jogo, com o Brasil todo comemorando o titulo mundial soltando fogos. A turma nossa já estava preparada para soltar os balões; o primeiro era em sentido horizontal de quatro bocas, e com uma das bocas pendendo fez com que pegasse fogo. Já o segundo era um charuto de uma só boca que foi solto em sentido vertical. Foi soltar o "bicho", vê-lo sumir nas nossas vistas.

Com o progresso e o crescimento da cidade, foi proibido soltar balão; assim mesmo as pessoas soltavam, mas não tinha mais aquele glamour... As ruas já estavam asfaltadas e não se podia fazer fogueira, a não ser quem tinha quintal, e até os quintais foram sendo suprimidos para aumentar a casa. E as festas juninas ficaram na memória de quem viveu essa época.

E-mail: mlopomo@uol.com.br

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 18/01/2013 Caro Lopomo, na final da copa de 58 aos 4 anos eu só lembro que olhei para o céu hipnotizado com aquele formigueiro de balões. Acho que foi mesmo como dizem, o recorde de balões em Sampa. Abraços! Enviado por Claudio Bertoni - bertoniclaudio@yahoo.com.br
Publicado em 09/01/2013 Linda e precisa sua história, aqui no interior fazíamos as mesmas coisas, menos os balões que não fazia parte da nossa cultura. parabéns Enviado por Roberto Lucas - betoluccas@yahoo.com.br
Publicado em 30/07/2011 No dia 29 de junho de 1958, final da Copa, ouvimos o jogo contra a Suécia, toda a molecada sentada em bancos improvisados (tijolos) na Rua Pequena (atual Atilio Inocenti), esquina com a Rua Heloisa (atual JK), comendo melancia da barraca do Português (não me lembro do nome, mas a gente também não pagava)). A Rua Pequena era em terra e a ponte recém construída sobre o Córrego do Sapateiro era somente para pedestres. As festas de S.João eram realizadas nas ruas. A nossa era na Rua Bissau. Enviado por marcos antonio dos reis - marcos-a-reis@ig.com.br
Publicado em 18/07/2011 Meu amigo,Mario Lopomo como sempre voce arrazou no seu texto,como e bom le-los a memoria da gente vai longe e viaja no tempo,e nos tras muitas recordacoes .Abraços Rosalina Enviado por rosalina dalicio constante - roza@yahoo.com.br
Publicado em 26/06/2011 Valeu seu texto Lopomo, destaque a uma gostosa pratica, as festas de São João. Lembrando que por esses dias se faz a poda nas videiras. Os ramos são cortados para que produza mais frutos, a uvs. E viva a festa de São João! Caso a festa cair em julho ai a festa é Julina. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 24/06/2011 Meu prezado Mario
viajei na lembrança, quando meu tio Pedro, fazia a festa do seu santo padroeiro, na Rua da Paz, na Moóca. Soltava os balões que meu irmão mais velho fazia, e deixando ainda mais salpicado de luzes o céu repleto de balões. Saudades!!!
Grande abraço e obrigado por nos levar de volta ao nosso saudoso passado.
Realtes Lopes Heredias
Enviado por Realtes Lopes Heredias - realtes@gmail.com
Publicado em 19/06/2011 Mário, gostei bastante da sua história sobre festas juninas, principalmente quando relata sobre balões pois sempre tive grande fascinação pela arte de fazer e soltá-los. Em 30/08/10 também escrevi uma história sobre balões no site SPMC relatando a confecção em l948 de um gigante Zepelin próximo de 30 metros, com 6 bocas enormes
construído por integrantes do Couto Magalhães FC Se não chegou a ler e deseja fazê-lo, digite no Google: "Quando os balões juninos não eram proibidos". Parabéns p/texto
Enviado por Roberto Capuano - robertocapuano@grafixdigital.com.br
Publicado em 19/06/2011 Mario, são belas as lembranças das festas juninas. Me intrigava ver as pessoas andarem na brasa, e quando eu perguntava, minha mãe respondia que era fé. Nunca pensei no pé cascudo, mas faz sentido. Um abraço forte. Alaíde- Enviado por Alaíde Silva Santos - alaide.santos2010@hotmail.com
Publicado em 17/06/2011 Festas juninas sempre tem seus momentos de foguetórios, balões e os comes-e-bebes. Parabéns, Mario.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 16/06/2011 Mário: Seu texto é uma grácil reminiscência que nos enleva e nos torna menino de novo preso à sutil magia de olhos arregalados duma curiosidade infantil nas labaredas da fogueira,nas brasas, no espetáculo colorido dos balões, dos rojões,nos eflúvios dos quentões, dos vinhos quentes, das batatas doce, dos pinhões, canjicas , pipocas...do espírito comunitário se juntando na rua, nas cantigas, lembra? “ Rosa Maria ( ou seria Ana Maria, já não lembro) levanta dessa cadeira/ a noite está fria/ vamos pular a fogueira/ tome um refresco de capilé/ venha ajudar a soltar balão/ Rosa Maria não faça chiquê/ que é noite de São João.” Seu texto é pura magia pra fazer velho chorar. Parabéns Enviado por Losé Palma Bodra - jpbodra@globo.com
« Anterior 1 2 Próxima »