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Categoria - Outras histórias A primavera de 1961 Autor(a): Mario Lopomo - Conheça esse autor
História publicada em 19/08/2011


Agosto tinha terminado, e Jânio tinha renunciado. Setembro estava começando e a primavera também.

Era um sábado ensolarado e eu depois do almoço estava indo ao dentista da Vila Olímpia, o saudoso Dr. Roberto Gouveia Paulini, quando parou um carro e alguém gritou:
- “Ei, Mário quer jogar bola? Vamos jogar em Santana e estamos precisando de um goleiro.”

- “Cara, estou indo ao dentista. Deixa para segunda feira.”

- “Mário, já laçamos quase tudo só falta o goleiro.”

Bom deixar de jogar bola para ir ao dentista, na verdade jamais faria. Principalmente porque vou jogar no primeiro quadro de uma verdadeira seleção do Itaim. O clube era de uma firma de produtos de adesivos. Já o nome dizia: “Adesite” onde só jogava cobra.

Nos anos 1960, sábado era o dia reservado as firmas que tinham clubes de futebol, e quase todas tinham. E pelo fato de ser pego de surpresa não estava com as chuteiras, mas tudo foi arrumado pelos colegas.

O Campo era ao lado do campo da aviação (campo de Marte) o que dificultava quem estava jogando, principalmente quem jogava no gol como eu. Subia um avião atrás do outro. De acordo com o vento que ia ao contrario da pista os aviões subiam em minha direção. Parecia que ia bater na trave que eu estava jogando no primeiro tempo.

Algumas vezes eu me abaixava um pouco o que gerou até risadas dos adversários. Pelo que soubemos antes do jogo, em três meses que aquele time estava jogando naquele campo não tinham perdido um jogo sequer. Mas eles estavam tendo pela frente o que tinha de melhor no Itaim em termos de jogadores. Eu estava um pouco nervoso, jamais tinha jogado em meio a tanta gente boa de bola, "verdadeiros cobras". Mas aos poucos fui ficando calmo. O adversário estava preso ao toque de bola do time do Itaim mesmo eles não jogando, nos mesmo clube. Mas o adversário era valente e vinha com tudo. De repente um chute de fora da área e a bola veio, alta no meio da trave e meu centro médio
Otavio, grita:
“-” Deixa, ta em casa!”(vai por cima).

Quando vi a bola baixar pulei quem nem um gato e mandei por cima. O time Santanense queria ganhar o jogo de qualquer maneira, e vinha com tudo, mas não passava pela nossa defesa, e numa troca de passes rápidos, a bola chegou ao nosso meia esquerda Decio, que num toque de primeira, colocou Branca na cara do goleiro marcando o primeiro gol.

Ai deu o desespero nos adversários, vieram com tudo em cima de nos, e num contra ataque marcamos o segundo gol, novamente Branca um centroavante muito parecido com o Aquiles do Palmeiras que não perdia um lance dentro da área. Ai o time adversário ficou desanimado e o nosso time era o dono do jogo e eu estava bastante sossegado. Junto à trave uma pessoa estava com o radio ligado, transmitindo os problemas políticos daquela semana. Agosto já tinha ido e, setembro estava começando bastante confuso pela renuncia de Jânio Quadros, e aquela duvida João Goulart vem ou não vem.

O radio com som alto dava para se ouvir duas vozes uma de uma emissora do Rio Grande do Sul a voz de Leonel Brizola, mandando seu cunhado "Jango" vir a Brasília ele que estava na China Comunista, e com medo de vir por que os militares não iam
com sua cara. Também o senador Auro de Moura Andrade então, gritava mais alto: -“Venha Goulart, venha que eu garanto sua posse”.

Eram dois após o Sete de Setembro, dia da Pátria.

Quando o jogo terminou com a nossa vitoria por 2x 0, o capitão do time adversário um negro baixinho veio nos cumprimentar, mas mostrava sua irritação pela derrota. Ele era gago, falava rápido e a gente não entendia nada, como muitos colegas chegando quase ao riso, para tanto colocavam a mão no rosto, como estivessem limpando o suor. O futebol deixou muitas historias.


E-mail: mlopomo@uol.com.br

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Publicado em 07/11/2012 Velho Lopomo, bela vitória do Adesite ! Joguei no segundinho do Flôr do Itaim, em 1978 ficamos 36 invictas: Salles/ Fino, Fachetti, Angelin e Agnaldo/ Ion, Arruda(eu) e Didi/ Madruga, Cruz e Farmácia/... Papel, Meireles, Pavão, Cachimbo e Arnaldinho. O Chico e o Vicentão cuidavam do bar e depois das vitórias a cerveja ficava por conta da casa. Quando o adversário faltava, faziam : Primeiro X Segundo(o segundinho sempre ganhava). O time posou para fotos que nunca cheguei a ver(triste). Abraços ! Enviado por Claudio Bertoni - bertoniclaudio@yahoo.com.br
Publicado em 04/09/2011 Obrigado pessoal pelos comentarios. Se voces tivessem vivido a metade do que já vivi, e conheço, certamente entenderiam tudio isso. Sou especialista em Vila Olinpia e Itaim. Conheço o Brás como ninguém. Joguei muito futebol de varzea e circulei por quase todos os campos de varzea de São Paulo pelas decadas de 50,60,70. Puxa, minha vida dá um livro mesmo. Sei que o que conto aqui não é lorota, como muitos pensam, mas é que tudo o que falo já vivi. Aguardem novas historias Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 22/08/2011 Grande Lopomo, parabéns pelos 2x0. Joguei muitas vezes na várzea de Santana ao lado do Cmpo de Marte. Bela história essa! E horrível a história do Brasil que veio a seguir. houve mudança no futebol e na política nada mudou.Só safadeza. Abç Enviado por Efigênio Pio - fifipio@gmail.com
Publicado em 22/08/2011 Excelente história Mário,mesclada de esporte e acontecimentos que marcaram a História.Parabéns por essa narrativa detalhada,dinâmica,agradável,surpreendente e muito bem contada.Um abraço! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 22/08/2011 Lopomo, já pensou o neguinho gago perguntando a voce:-Looooppoommoo, oonndee fiiiicaaaa ooooo baaannheirro? Imaginamos que voce fosse gago também:- Voocce vaaai aalii no fimm doo caammpo, enntraa a dirreitaaa, deepoiiss dooobraa esquerrrdda, sooobee aa escaadaa, teemm umaaa poorrta ééé naaa seegunnda porrta voceee enntraa ééé aaliii. Resposta do Neguinho gago;_ Nãããoo preecissaa maaiss, eeeuuu já fizz naass caalçaas Enviado por Ailton Joubert - ailtonjohubert@hotmail.com
Publicado em 21/08/2011 Mário: afinal de contas o avião em vez de atrapalhar o seu time só ajudou, pois vocês ganharam. Como era gostoso participar dos jogos de
varzea. Outros tempos, outras lembranças.
Parabéns.
Heitor
Enviado por Heitor - hiorio@imjm.com.br
Publicado em 19/08/2011 Bom como tudo o que você escreve. Meu falecido marido também jogava aos sábados, na defesa. Foi uma condição, sábado era dele e do time. Eu aproveitava para me embonecar, fazer cabelos, unhas, massagens e esta parceria deu muito certo. Ficamos quarenta anos sem nenhum problema. Os domingos eram meus e eu adorava. Enviado por trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 18/08/2011 Recordação de um dia feliz (futebol) e infeliz (política). Bem lembrado, Mario, seus arquivos implacáveis não falham. Parabéns e não esqueça, leia e comente os texos dos colegas.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/08/2011 Mário, eu já te falei que as suas histórias são fantásticas e que é possível visualizar tudo com uma nitidez impressionante pela riqueza de detalhes e emoções que você destaca. Meus parabéns e um abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 18/08/2011 Belo texto Mario trazendo as tristes lembranças da Renuncia do Jânio e da dificuldade do Jango assumir o governo. Uma época conturbada e que resultou em vinte anos de ditadura militar. Ainda bem que no futebol vocês ganharam o jogo. Porque na Política nós todos perdemos muito e muitos até a vida. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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