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Categoria - Outras histórias "Alerta, alerta, vamos fazer revolução": pedaços da vida de um soldado constitucionalista Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 19/08/2011

Meu pai, Alcides de Souza Leme, chegou a São Paulo em 1930 ou 31, com seus 18 anos completados e creio ter palmilhado os mesmos caminhos que eu percorreria muitos anos depois. Precisou lutar muito para sobreviver, carregou cestas para as madames nas feiras, foi lixeiro e talvez estivesse se encaminhando para uma vida medíocre, se não fosse a intervenção de um aparentado de meu avô, o maestro Antão, regente da banda da Força Pública:
- Filho do Joaquim Ignácio, lixeiro? De jeito nenhum! Vai entrar pra Força Pública e seguir carreira, 'já se viu’!

Meu pai, então, entrou (ou foi "entrado") para a Força Pública, onde aprendeu a profissão de telegrafista, mas não fez carreira, não era bem seu feitio...

Era 23 de maio de 1932. Ativistas políticos, estudantes, gente do povo, uma pequena multidão se concentra em frente à sede da "Liga Revolucionária" na Rua 24 de Maio, órgão ligado diretamente aos grupos apoiadores do governo de Getúlio Vargas, presidente da República após o golpe da revolução de 1930.

De repente, o "rompe e rasga" intenta invadir o comitê. Tiros, muitos tiros repelem a invasão. Correria, gente ferida agonizando, mortes, as mortes de Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo. Alvarenga morre dias depois. MMDC. São Paulo mobiliza-se... O ambiente político está tenso...

Era 9 de julho de 1932. Meu pai está de serviço no quartel da Força Pública da Rua Conselheiro Crispiniano. A soldadesca recebe ordens de se aprontar com petrechos completos, mochila, mosquetões, munição, barraca, ferramentas, num total de 30 e tantos quilos... São informados que farão uma marcha de treinamento... Marcham em passo acelerado até o Brás, até a Estação do Norte. Embarcam em trens que aguardavam na gare. Outras unidades da Força Pública vão chegando...

Ninguém fora avisado, mas São Paulo estava começando uma ensandecida revolução contra o 'status dictatorialis' que havia dois anos imperava no Brasil...

Três meses na Mantiqueira, bloqueio do túnel, as matracas, o frio, as geadas, o canhoneio, os aviões vermelhinhos, a fome (meu pai dizia que chegavam a se alimentar com uma espécie de sopa de raízes, folhas e capim, ou alguma caça ou gado de sítios e fazendas, abatidos a tiros de mosquetão...) e a morte, a morte de companheiros de trincheira, por balaços, por ferimentos infectados, pela pneumonia.

A morte também feriu meu pai da maneira mais violenta possível: na trincheira ele recebeu um telegrama comunicando a morte de minha avó que não suportara saber que seu filho tinha sido enviado para um front de batalha. Morreu com um infarto fulminante.

O telegrama recebido meu pai colou na contracapa de um livro, a "Gramática Expositiva" de Eduardo Carlos Pereira, que ele levava em sua mochila (grande autodidata, estudou sozinho praticamente até seus últimos dias de vida!); até alguns anos atrás, essa gramática esteve comigo, mas, por fim, acabou por se desfazer, infelizmente, tantos anos passados...

No final dos embates, São Paulo estava exaurido, o Estado e a cidade. Meu pai deixa a Força Pública e entra para a polícia civil no cargo de telegrafista.

Os anos passam, casa-se em São Manoel no último dia do ano de 1938. Nasci em Barretos em 1940. Viemos para São Paulo em 1944, quando meu pai iniciou mais uma batalha, agora não só pela sua vida, mas pela de minha mãe e pela minha...

Em 1957, na comemoração dos 25 anos da Revolução Constitucionalista, com lágrimas nos olhos, assisti a meu pai desfilando no Anhangabaú com seus companheiros de trincheira, do túnel, de Cunha, do frio e da fome.

Segui aqueles senhores que marchavam, alguns orgulhosamente (“peito pra fora, barriga paá dentro, seu mocorongo!”); outros, já combalidos, cansados da vida e de viver, andavam apenas, enquanto acenavam fracamente para as pessoas que estavam mais interessadas em recolher as lâminas de papel metalizado que caiam do céu numa chuva de prata...

Na debandada daquele estranho exército de soldados brancaleônicos engravatados, de terno, chapéu e sapatos sociais e que, ao invés de mosquetões, portavam bandeirinhas do Brasil e de São Paulo, encontro meu
pai:
- E aí, pai! Como foi? Se emocionou?
- Emoção? Não! Não me emocionei... Só cansei...
- Cansou? Como... Cansou?
- É, cansei! Vim em passo marcial da 9 de Julho até quase a São João. Não fazia isso há 25 anos, esqueceu? Resolvi brincar um pouco de soldadinho... Acho que tenho direito...
- Claro, claro...

Em casa, comentou:
- Muita gente que foi homenageada hoje, com medalhas, citações, comendas, passou longe do fogo das armas. Alguns eram escoteiros na época da revolução e estão nas páginas dos jornais posando de heróis, e todos eles, com certeza, recebem uma complementação em seus salários por conta do Artigo 30 que premia ou deveria premiar aqueles que lutaram de verdade... Mas a vida é assim mesmo, qualquer dia desses o país entra nos eixos. Agora vamos dormir, amanhã eu trabalho e você tem o colégio... Vai, vai dormir.
- ‘Tô’ indo pai... ‘Bença’.
- Deus te abençoe. Dorme com Deus...

Meu pai morreu em 7 de julho de 1960, aos 48 anos, dois dias antes de se completar 28 anos daquela madrugada em que ele saiu do quartel para marchar em passo acelerado até a Estação do Norte, naquele 9 de Julho em que São Paulo pegou em armas.

Seus restos estão no Mausoléu do Ibirapuera? Não, não estão, mas deveriam estar.

Gente como meu pai e muitos outros serviram o Estado de São Paulo e a cidade com risco da própria vida. As famílias dos heróis não deveriam procurar o Estado para que lhes fossem prestadas homenagens... Acredito ser obrigação do Estado reconhecer o papel que esses homens e mulheres desempenharam na História e homenageá-los.

Em tempo: minha mãe, D. Zezé, veio a receber um aporte financeiro referente ao "Artigo 30" anos após a morte de meu pai. Atualmente, não sabemos a razão pela qual, não recebe mais...

Palavras de meu pai em 9 de Julho de 1957: “...Qualquer dia desses o país entra nos eixos...”.

Alcides de Souza Leme, um soldado constitucionalista - *19-03-1912
+07-07-1960 Requiescat in pacem. '...bença, pai...

E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 21/11/2012 Sr Inacio, boa tarde!
Por motivos familiares eu tambem sou muito ligado a revolucao de 32, e como minha vo dizia nao podemos nunca deixar de orar pelos soldados desconhecidos que deram muito de si pelo bem da nacao. Hoje tenho mais um nome para quem orar, o seu pai o sr Alcides
Enviado por humberto corsi - amadeuhumberto@gmail.com
Publicado em 22/11/2011 Joaquim:
E o beneficio da Lei nº 3988 de 26/12/1983.
Minha mãe recebeu até seu obito em 2004; na qualidade de viúva de ex-combatente.
Abraço,
Celso Lambert
Enviado por celso lambert - alb45gom@gmail.com
Publicado em 20/09/2011 Parabens, nao apenas pelo pai, mas pelo filho que voce eh....
quando eu era crianca, decorei uma poesia de GUILHERME DE ALMEIDA, muito linda,
que ainda hj eu recordo: nao lembro mais o nome...
mas ainda sei de cor todo o seu teor....

"Em 32, no dia 9 de julho,
ecoou no Planalto Paulista,
um grito de guerra,
timbrado de orgulho!
...........................
(para nao ficar comprido, coloco o comeco e o fim...)
SOLDADO PAULISTA,
SOLDADO VALENTE!
COBRISTE DE GLORIA,
TUA TERRA, TUA GENTE!"

para seu pai, meu amigo.....
Enviado por Anita - anita_hopf@hotmail.com
Publicado em 24/08/2011 Prezado Ignácio, o aporte financeiro referente ao "artigo 30" deve estar aplicado no Bolsa família, na bolsa do presidiário, ou na Bolsa da esposa,filhas ou filhos de alguém muito "importante" para o nosso País.
Quanto reconhecimento, a muito que em nosso país, só existe heróis e títulos de Rei no futebol, e na musica popular.
Se o seu pai no lugar de defender a Legalidade tivesse gravado um disco
a coisa seria bem diferente,
Parabéns pela bela e comovente narrativa.
Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 21/08/2011 Ignácio, já se foram 54 anos desde o dia 9 de julho de 1957 e a frase do seu pai continua mais atual do que nunca: "Qualquer dia desses o país entra nos eixos"... Será que estaremos aqui para ver? Linda homenagem a um grande ser humano. Não me esqueço jamais de outra frase dele: "Ignácio, olha lá! Aquilo é o mar!". Grande abraço. Enviado por Hugo Morelli - hugo.morelli@hotmail.com
Publicado em 21/08/2011 Ignacio seu pai foi um herói paulista.
Você, seme permite, é um herói tambem, pois lembrare sentir na pele toda essa emoção e não cair porn terra merece essa citação heróica.
Parabéns.
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 21/08/2011 Historia de mais um dos grandes herois anonimos.Parabens e orgulhe-se de seu pai
Alexandre
Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 21/08/2011 Ignácio, parabéns pelo seu pai, mais um bravo paulistano de valor, merecia mais consideração, mas a melhor está na gratidão que vc demonstra,ele faz faz parte da brava gente brasileira, Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 21/08/2011 Joaquim, voce me fez chorar...Tenho 74 anos e poucas vezes chorei na vida. Este seu relato sobre seu pai e a Revolução de 1932, mostra que infelizmente nosso pais não entrou nos eixos, e o que pior, saiu mais ainda. Estamos perdidos.Da revolução, resta muito pouco e existe muito pouco caso por parte de nossos governantes para com as familias dos ex-combatentes, verdadeiros Heróis Nacionais. Uma vergonha, compare a pensão recebida por um ex-terrorista e um ex-combatente de 32.Queria escrever mais, mas, minha revolta não deixa e estou com as mãos tremulas e os olhos cheios de lagrimas.só mais uma coisa, até o nome do Tunel Nove de Julho quiseram apagar da nossa memória. triste idéia de quem só devia pensar em r elaxar e gozar. Heitor Enviado por heitor felippe - heifeltec70@globo.com
Publicado em 21/08/2011 Emocionante narrativa que infelizmente o Estado não dá a real importância que merecem esses heróis que escreveram a página gloriosa contra o autoritarismo da ditadura. Afinal como está o impasse administrativo do mausoléu na atualidade? Afinal, todos estes patriotas possuem ou não o direito de descansar no Obelisco edificado em nome daqueles que lutaram pelo direito supremo da liberdade em nome de uma constituição e pela democracia. Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com