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Categoria - Outras histórias Sonhei com Mário de Andrade Autor(a): Joaquim Ignácio de Souza Netto - Conheça esse autor
História publicada em 14/09/2011

A Avenida São João, vista da Praça Antônio Prado - antiga do Rosário - desaparece em meio à neblina que anuncia o anoitecer na Paulicéia Desvairada. Neblina. Frio.

Do monumento a Giuseppe Verdi até a porta do Conservatório Dramático e Musical são 15, 20 passos. Espero um bonde passar, atravesso a avenida e me abrigo da garoa e do vento frio sob a soleira de uma das enormes portas do prédio dos Correios e Telégrafos. De repente, Mário de Andrade:

"... No Páteo do Colégio afundem o meu coração paulistano:
um coração vivo e um defunto
Bem juntos
Escondam no Correio o ouvido direito,
o esquerdo nos Telégrafos,
quero saber da vida alheia
Sereia!...".

A situação, o lugar onde me encontro, fez-me lembrar dos versos de Mário em Poemas da Amiga. Não sei dizer se ele já os escreveu ou ainda estão por escrever, porque é bastante comum em minhas viagens ao passado da nossa cidade de São Paulo, em meus sonhos mais delirantes, que aconteça algo como o esvair-se da noção do tempo percorrido ou vivido; portanto, peço desculpas por eventuais falhas em minhas relembranças ou deslembranças.

Sineta, campainha estridente. Término do horário das aulas do Conservatório. Alunos saem rindo, conversando e dirigem-se para os pontos de bonde, alguns enveredam pela Rua Formosa em direção ao Largo do Piques. Espero e espero Mário de Andrade.

Mário desce os degraus e sai para a calçada. Sobretudo, luvas e chapéu. Alguns alunos ainda o acompanham até o início da ladeira de São João. Não podem me ver, faço parte da neblina. Caminham e param, caminham e param, sempre sob a luz dos postes da Light. Em cada parada, um aluno lhe apresenta uma partitura, um texto, comenta um acorde... Mário lê, ouve, explica. Despedem-se na esquina da Líbero Badaró:
- Até amanhã, professor...
- Até...

Mais alguns passos e Mário entra no Franciscano. Senta-se junto ao alto balcão de madeira envernizada, um verniz bem escuro já sem brilho. Coloca o chapéu sobre o mármore, tira as luvas. Limpa os óculos redondos do tipo 'olho de coruja':
- Hoje está frio, né? Por favor, me faz uma sanduíche de queijo com salame e eu quero uma guaraná gasosa gelada! Pago amanhã, pode ser?
- O senhor manda! É “pra” já, professor!

Quase 9h da noite, Mário começa a caminhar para o Theatro Municipal. O frio continua. Enrola o cachecol em torno do pescoço. Aperta o passo...

Na escadaria do Municipal, o encontro com amigos, músicos, literatos, jornalistas. Abraços, tapinhas carinhosos nas costas. Cumprimentos protocolares, beijos nas faces. A escandalosa voz de Oswald de Andrade. Cumprimentos aos berros, gargalhadas.

O Clube da Antropofagia, capitaneado por Oswald, Tarsila e comitiva, vem confirmar seu apoio à candidatura de Júlio Prestes para Presidente da República e , para isso, organiza uma noite de cultura brasileira no palco do Theatro Municipal. Claro que a grita das 'elites quatrocentonas' composta por descendentes de assassinos, ladrões, desertores e degredados que compunham a tripulação de Martim Afonso de Souza, repito, a grita foi geral: "Templo da música e da ópera conspurcado por políticos e politiquices", foram os ditos menos agressivos publicados nos dias seguintes.

É evidente que Cornélio Pires, Genésio Arruda e, entre outros mais, Sinhô, o auto-denominado, 'Rei do Samba', faziam parte da malta de artistas circenses que se atreveram a pisar no palco do tal templo. Tudo do jeitinho que Mário e Oswald gostavam, cutucar os miolos da paulistanada conservadora, com o beneplácito dos Mesquita do "O Estado de São Paulo", interessadíssimos, claro, na vitória de Júlio Prestes.

Infelizmente, a temporada de Sinhô em São Paulo acabou por agravar o estado de saúde do sambista...
"Jura
Jura,
Jura pelo Sinhô,
Jura
Pela imagem
Da Santa Cruz do Redentor
Prá ter valor a tua jura".
(Uma hemoptise incontrolável, incoercível, levou Sinhô para o céu dos sambistas em 1930. Manuel Bandeira escreve uma crônica histórica - O Enterro de Sinhô - sobre seu velório e enterro, com os pobres, os negros, as prostitutas do Mangue, a malandragem, a cidade do Rio de Janeiro 'underground', da Pequena África dos iniciados, rendendo-lhe homenagem...).

Discursos, fotos, espocar de flashes de magnésio. "Rumo à vitória nas urnas" é o leit-motif dos políticos e politiqueiros. Acabou.

Os participantes do meeting se dispersam. Sinhô percorre a cidade no meio da madrugada garoenta e descobre que São Paulo não é o Rio, que o centro de São Paulo não é a Lapa carioca. Vai dormir em um hotel da Rua Mauá. Tosse. Escarro com laivos de sangue todo o tempo. Não consegue dormir... A Parca vai segui-lo até o embarque no ferry-boat da Cantareira, não chegou à Praça XV. Sinhô morreu no mar...

Tarsila, Pagu e outros amigos do grupo vão terminar a madrugada na garçonerie da Líbero Badaro, mantida por Oswald de Andrade, um abatedouro de luxo. Absinto, champanhe, whisky, cocaína, cigarros do Pai João...

Mário segue a pé pela Barão de Itapetininga até a Praça da República. Muito frio. Conta os níqueis. O dinheiro é suficiente para um táxi. Nada de andar até a Barra Funda:
- 'Tá frio, né doutor? Prá onde vamos?
- Rua Lopes Chaves... Chegando lá eu mostro a casa...

Durante alguns minutos escuto uma valsa ao piano. Silêncio. Tiquetaquear de uma máquina de escrever. Talvez um artigo para um jornal, talvez anotações para um livro, talvez fichas para seu arquivo particular...

As luzes das ruas se apagam. Os carroceiros começam sua faina de entregas de pão e leite. Barulhos das latas de lixo sendo jogadas nas calçadas. Mário dorme profundamente enquanto a cidade começa a acordar.

Em menos de um ano, o país vai sofrer uma virada, política e cultural. Governos serão derrubados, eleições fraudadas levarão o Brasil a um novo regime. “Crack” da bolsa de Nova York. Oswald de Andrade vai à falência... Suicídios quatrocentões...

Mário de Andrade dorme. Talvez sonhe com uma São Paulo perfeita, a São Paulo de seus sonhos, a comoção de nossas vidas...

Não sei se o que narrei aconteceu verdadeiramente. Mas bem que poderia ter acontecido, porque não, hein?

E-mail: ignacio.netto@bol.com.br

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Publicado em 23/09/2011 Inácio, maravilhoso ler seu texto! Verdades que não sabia e outras quase caídas no esquecimento. Foi como voar em um tapete mágico e apreciar detalhadamente o que estava acontecendo.Um grande beijo. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 15/09/2011 Ignácio, o que vc contou não foi um sonho. Sonho não te daria tantos detalhes, tantas nuanses, um colorido exuberante e seria rápido demais pra ser um sonho. O que vc relatou é a pura realidade; sonho e pesadelo é o que vc está vivendo agora. Nós somos simples coadjuvantes da bela narrativa. Vc, astro principal, mal conhece os atores secundários, apenas ouve suas vozes atravez dos comentários. Sua crônica é resultado de um trabalho honesto e sincero, metáfora de um provável acontecimento. Mo. Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 15/09/2011 Obrigado Pedro! Isso mesmo, não lembrava o nome do ator. Um abraço! Igor Enviado por Igor Nitsch - igornitsch@hotmail.com
Publicado em 14/09/2011 Ignacio mas pode me chamar de Buñuel! Gostei do seu conto, ressaltando que nosso querido autor de Macunaíma, Mário de Andrade, nasceu e morreu na Barra Funda na Rua Lopes Chaves 546, com sua casa preservada até hoje. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 14/09/2011 Bela história! Eu quase posso dizer que encontrei pessoalmente o Mário de Andrade... Nos 450 de SP a Globo fez uma minissérie em que um dos personagens era Mário de Andrade (representado por um ator cujo nome não recordo, mas, quando trajado tal qual antigamente, ficava incrivelmente parecido com o personagem representado). POis bem, num desses dias fui tomar café no Páteo do Colégio e, na saída, dei de cara com este ator, representando o Mário de Andrade, em um espetáculo aberto. Enviado por Igor Nitsch - igornitsch@hotmail.com
Publicado em 14/09/2011 Ah! Se todos os Luiz Ignácios fossem assim. Mas o que se pode fazer. Foi lendo sua bela narrativa, e fui sonhando também. Quero ter mais sonhos como esse, fico a espera deles. Parabéns. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 14/09/2011 Era o Pascoal da Conceição fazendo Mário de Andrade. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 13/09/2011 Sonho ou verdade, caro Ignacio, o texto é extremamente belo e sua prosa se mescla à poesia de Mario e de Sinhô com um resultado maravilhoso. Abraços
Mancini
Enviado por Mancini - d-mancini@uol.com.br
Publicado em 13/09/2011 Belíssima narrativa, Ignacio, misturando passado e presente, fantasia e realidade. E ainda dando uma aula de história e paulistanismo. Se não ocorreu realmente, bem deveria ter ocorrido. Abraços. Enviado por Luiz Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
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