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Categoria - Outras histórias O peixeiro Amaro “Macuco” Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 20/09/2011

Seu Macuco veio de Alagoas para São Paulo na década de 1950, para dar: "jeito à vida", como o mesmo dizia, rumou de pau de arara para o sul, uma "judiaria de lascar" que arrebentava corpo de qualquer cristão. Hoje ele daria muitas risadas do fato de apenas subimos e descemos do avião, sem passar dias nas estradas, verdadeiras "desgraceiras".

Seu nome verdadeiro era Amaro Hilário de Souza, que juntou os "trapos" e rumou para ajudar São Paulo a crescer. Como tantos outros, sentou praça na capital paulista e foi "cair" lá para as bandas de Santo Amaro, acredito que atraído pelo nome, igualzinho ao seu.

O seu primeiro passo na jornada foi agradecer pela viagem, dura, mas com final feliz, sem acidentes. Recolheu o chapéu da cabeça, bateu o pó da estrada nas calças, entrou na antiga igreja da Matriz, rumou ao altar e ajoelhou-se, seguido de Cícera Maria de Souza, sua companheira de labuta pela vida.

Tinha uns conterrâneos, uns "primos" que já estavam adaptados depois do Rio Pinheiros, ainda de águas límpidas, que vinham á Represa de Guarapiranga, um lugar de peixe, que poderia ser apanhado e vendido pelas redondezas. As economias miúdas do pouco que tinha amealhado com a venda do que lhe pertencia no Nordeste, eram seu maior tesouro.

Então "apeou o pé", um pleonasmo verdadeiro, na terra vermelha do bairro "muito longe da capital", descendo de uma carroça que o trouxe para a redondeza do bairro Jardim São Luiz e ali mesmo fez seu primeiro contato comercial, querendo saber onde poderia adquirir um cavalo bom de sela e uma carroça para começar a nova vida.

Foi ali mesmo, na baixada do Jardim Brasília, outro bairro vizinho incipiente, nascido do desmembramento da granja da família japonesa de Yoshimara Minamoto (que foi loteado) que Amaro Macuco descobriu o que queria fazer: iria comercializar peixes, conhecer os rios e juntar-se a outros que conheciam onde estavam os melhores locais para "mariscar", termo para sua pescaria, como comumente dizia.

Com um pouco de tino, foi ter com os exímios pescadores japoneses que iam quase sempre para a Barragem da Represa, lá pras bandas da Colônia, onde o trem passava pela manhã na "estação" da Ponte João Dias, que não tinha nada de estação era apenas uma plataforma, beirando o rio, do lado da firma de rádios Semp (empresa ainda existente e pertencente na atualidade à Toshiba), e só voltava à tarde, descia em barranco subia em balsa, mas chegava, recolhia todo fruto do trabalho num samburá rudimentar, voltava feliz, embora estafado.

Durante a semana lá vinha ele, com umas bacias de alumínio, repletas de peixes, vez ou outra, não sei se por milagre, coisa que não se explica, apareciam umas sardinhas, coisas do mar, que não perguntem de onde saiam, não sei se vinham da entrega de algum mercado. A mercadoria era pesada em uma balança de pêndulo duvidoso, onde Macuco batia o dedo dobrado no peso, aprumando a bacia e dizendo:
- “Um quilo! Bem pesado!”

O local tinha uns matreiros da Península Ibérica que não engoliam o termo "Um quilo bem pesado", e ali mesmo decidiam contando as sardinhas, que eram sempre em número de 13, e este era o acerto de "bem pesado", até hoje não sei se era ou não "bem pesado", mas era com se acertava o pagamento das graúdas ou miúdas, e saiam ambos sorrindo, tanto o vendedor quanto o comprador, sem saber quem havia perdido.

O cavalo "Orelhinha" já sabia o caminho, nem mesmo o chicote esfarrapado era usado no lombo do animal, que era seguido sempre de um cão fiel. Às vezes subiam na carroça duas ou três crianças para passear pelas ruas, afinal era esse um momento de descontração para aqueles que pouco ou nada possuíam de diversão.

A família de seu Amaro crescia num total de oito filhos, a saber: Wolfran, Nado, Neném, Noé, Zeca, Edite, Edileusa e Edineusa, ele não sabia quem havia chegado lá de "riba" e quem era paulistano e muito menos se lembrava o nome verdadeiro dos filhos, só chamava pelo apelido. Os nomes das cachaças ele não esquecia: 3 Chaves, Tatuzinho, 3 Fazendas, Ouro Fino, Rio Pedrense, Velho Barreiro, Pirassununga.

Ele também foi mudando, pois o peixe ficou escasso, a água ficou "estragada" e assim, sem se despedir, um dia foi embora para nunca mais voltar, deixando apenas um rastro de saudade!!!

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Publicado em 13/04/2012 legal e divertida a historia Enviado por amanda - amandaribeiroh@hotmail.com.br
Publicado em 20/09/2011 Carlos,a figura do Amaro que veio para um bairro que era sub distrito de Santo Amaro, simboliza a vida de muitos que vieram para cá e tiveram uma vida semelhante a dele por aqui, como pedreiros, carpinteiros, poceiros, etc. Ouvi dizer que em Santo Amaro em certa época tinha tanto Amaro que havia uma festa só dos Amaros, precisamos confirmar a veracidade disso,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 19/09/2011 Um flagrante de uma época, não muito remota com um roteiro sobre o peixeiro "Macuco", simples e batalhador em sua atividade. Surgindo como por encanto em Sto. Amaro, desaparece sem deixar vestígios pra onde foi, apenas lembranças. Parabéns, Fatorelli, sua narrativa, como de hábito, sempre recheada de atrativos extras.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/09/2011 Fatorelli, acho que para o seu Amaro foi bom enquanto durou. Ele teve sua vida marcada nesta cidade e partiu, agora é curtir suas lembranças. Um abraço. Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
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