Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Balada para um louco Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 07/10/2011

Na fila do caixa do mercadinho, ouvimos os gritos:
- “Pois o que eu quero é que você morra!”

Tudo isto porque, quando a mulher levara a mão ao coração, uma senhora perguntou o que ela estava sentindo. E recebeu esse tresloucado berro como resposta.

Viramos, e vimos que a desvairada era uma velha conhecida, pelo menos de vista. É moradora de uma estranha casinha em uma importante via do Brooklin, casa que uma vez me inspirou, por seu aspecto e de seus habitantes, a escrever "A Voz da Lua".

Tinha dito então que era gente pacífica, que não incomodava ninguém. E realmente, vimos essa senhora, meio mal ajambrada, conversando tranquilamente com outras locais. Uma vez, ao nos ver passar de mãos dadas, comentou:
- “Como é lindo o amor”. E acho que não era ironia...

Mas desta vez ela estava atacada. Possuída, como dizem alguns. Mal vestida, de sandálias havaianas, cabelo à moda Joãozinho. Avançou mercado adentro, em passos rápidos, e ouvimos mais gritos. As pessoas se entreolhavam, embaraçadas. Logo passa rapidamente por nós e sai, sem nada levar de compras.

Enquanto embarcávamos os pacotes, no estacionamento, ouvimos mais gritos, lá fora, a plenos pulmões. Já aí, a Lua não tem nenhuma culpa; é loucura no duro. Que tristeza constatar a fragilidade do cérebro humano, sujeito a impulsos elétricos e cargas químicas, que, minimamente alteradas, provocam a alucinação.

Certa vez um terapeuta afirmou-me que o maior medo humano é, depois da morte, a loucura. Ou seja, a morte da razão, para mim bem pior do que a primeira, e da qual a pessoa não se dá conta; para ela os loucos são os outros.

Outro personagem local, rapaz de boa aparência- e segundo contaram, de boa família- vivia também por ali, jogado pelas calçadas da Avenida José Antonio dos Santos, ex Avenida Central do Brooklin. Ás vezes, bem vestido, casaco de couro, óculos “Ray Ban”, parecendo um astro de rock, mas logo em seguida estava sujo, barbudo, esfarrapado e falando sozinho.

Disseram-me que sua família morava ali por perto, e seu grande problema foi o uso de entorpecentes, mas parece-me ser caso bem mais sério, como a senhora do princípio do texto.

Por ali esteve, comovendo a todos, por vários anos. Uma só vez, educadamente, pediu-me um trocado, e apressei-me em atendê-lo. Mas agora sumiu, há muito não vemos sua triste figura. Estará internado, terá morrido?

Louco, louco, louco, louco, canta a balada de Piazzola. Mas isto, mais que um tango, dá tristeza, vergonha, horror de pertencer à raça humana, ver seus absurdos e como são tratados esses infelizes pela sociedade. Sem esperança de assistência, nem recuperação.

Então, só mesmo saindo de trás de uma árvore, com uma bandeirinha de táxi livre no chapéu coco de Carlitos e declarar:
- “Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao... No vés que vá la Luna volando por Callao?”


E-mail: lssaidenberg@gmail.com

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 23/01/2012 Saidenberg,
"Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz"
Uma constatação: De perto, ninguem é normnal!

E não é feliz, não é feliz
Enviado por juca - jucabala@terra.com.br
Publicado em 12/10/2011 Saidenberg, lembrei desta letra:Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal
E fazer tudo igual...Eu do meu lado aprendendo a ser louco maluco total
Na loucura real...Controlando a minha maluquez misturada
Com minha lucidez,vou ficar com certeza maluco beleza
E esse caminho que eu mesmo escolhi é tão fácil seguir
Por não ter onde ir...Controlando a minha maluquez misturada
Com minha lucidez,vou ficar com certeza maluco beleza.As vezes é assim mesmo. Adorei seu texto.Um beijo.
Enviado por margarida p peramezza - peramezza@ajato.com.br
Publicado em 11/10/2011 Muito obrigado a todos, especialmente a Carlos Rocha. Há muitas vezes, tênue linha divisória entre loucura e sanidade. Por isto, o pavor que nos infunde a pessoa sem razão. O louco dentro de nós, como disse Ivette, parece estar espreitando, esperando uma chance para se soltar, ainda mais no insensato mundo em que vivemos. Abraços. Enviado por Luiz Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 10/10/2011 Caro Luis, muito bom o seu texto, pensei estar lendo algum dos bons livros dos grandes escritores brasileiros. Sua técnica é muito boa, parabéns! Como diz o Arnaldo Batista (Mutantes): "Mais louco é quem me diz, mas eu sou feliz". Enviado por Carlos Rocha - carlos.rocha88@terra.com.br
Publicado em 10/10/2011 É Luiz. É isso mesmo. Contudo, existem momentos em que dá muita vontade de ser louco, fazer e dizer o que quiser.
Abração, Ivette
Enviado por Ivette Gomes Moreira - ivetteg.moreira@gmail.com
Publicado em 09/10/2011 Já ouvi dizer que loucos e sábios são os mesmos. A diferença é que nos primeiro as memórias, vivências e idéias estão desorganizadas e nos segundos estão devidamente conexadas. Isto posto, é pedirmos para Deus que nos conserve lúcidos até o final. Isto é o que importa. Do resto a gente vai atrás... Enviado por trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 09/10/2011 Mas, as vezes, os loucos nos surpreendem. Talvez seja publicada uma história minha que enviei à pouco e você entenderá o porque? Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 09/10/2011 Todo bairro que se preza, tem seu louco que pede reza. Eles são deturpados mentais que geralmente, não incomodam ninguém. Se são violentos, desaparecem logo. Flagrante bem descrito, Luiz com a certeza de estarmos diante de um texto sempre interessante. Parabéns, Saidenberg.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 09/10/2011 Vera o seu "um anjo na noite paulistana" foi publicado no dia 29 passado. Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
Publicado em 09/10/2011 LUIZ, VOLTO PARA UMA ERRATA: O MEU TEXTO JÁ FOI PUBLICADO. DESCUPE A FALHA, VERA. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
« Anterior 1 2 Próxima »